Diagnóstico de autismo depois de adulto

O conteúdo a seguir é uma postagem de sindromedeasperger.blog, organizado, redigido e/ou traduzido por Audrey Bueno, com as devidas citações para textos pertencentes a outros autores.

Para divulgação, por gentileza cite a fonte copiando o parágrafo acima.

 

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Considerações, relatos e testes online

Por Audrey Bueno

Considerações

Pouco se ouve falar sobre o autismo em adultos. O foco atual sobre o transtorno tem sido sempre em relação às crianças, como se essas crianças não fossem crescer e se tornar adultas um dia, carregando a síndrome consigo, afinal, é uma condição que dura por toda a vida.

Quando adentram a vida adulta, muitas dessas crianças, principalmente as que estejam no lado leve do espectro do autismo, terão aprendido recursos e estratégias de sobrevivência para compensar seus déficits e terão maior consciência do que é ou não socialmente aceitável, reproduzindo com certa eficiência os comportamentos sociais neurotípicos, afinal, costumam ser bastante inteligentes e aprendem bem a arte da imitação, de modo que muitos de seus sintomas acabem sendo mascarados.

Um fator determinante quando um adulto busca diagnóstico é que seu histórico de infância seja analisado, pois muitas vezes a resposta ou confirmação pode estar ali. Por exemplo, se um adulto apresenta um quadro de stress elevado, é possível que desenvolva alterações comportamentais por conta desse quadro, como tornar-se mais recluso socialmente, ser bastante ansioso e até mesmo sensível a barulhos, que são todos sintomas possíveis em quadros agudos de ansiedade, mas que podem facilmente ser confundidos com autismo, em especial o de alto funcionamento. É aí que obter dados da infância pode ser o diagnóstico diferencial. Se essa pessoa na infância também era isolada socialmente, especialmente desde muito nova (pré-escola), já apresentava sensibilidade a sons, cheiros, iluminação, toque ou paladar e tinha quadros de ansiedade consideráveis, além de padrões de comportamento repetitivos, sem que tenha havido episódios traumáticos como a perda de um dos pais, ter sofrido maus tratos ou qualquer outra situação que justifique uma possível situação-limite, e que tenham perdurado por mais de 1 ano, então a confirmação do quadro autístico é praticamente certa. Já se a pessoa não apresentava tais sintomas na infância, era rodeada de amigos, sem maiores problemas de ordem geral, o mais provável é que não se trate de autismo.

Em especial, dois fatores que falam muito em favor da confirmação de um diagnóstico de autismo são os comportamentos repetitivos/obsessões e as sensibilidades sensoriais. Estes dois pontos precisam ser cuidadosamente investigados e compreendidos pelo profissional de saúde mental para que ele identifique a condição mental mais provável para tais características funcionais. Por exemplo, sabe-se que o diagnóstico de autismo obedece 3 critérios centrais, ou seja, é necessária a presença de déficits em três áreas principais, que são: 1) socialização; 2) comunicação; 3) comportamento.

Para exemplificarmos a importância da análise criteriosa de cada um dos três itens acima descritos, foquemos no item 3: “comportamentos repetitivos”. Para avaliar adequadamente esse fator, não basta apenas ter “manias”/comportamentos ritualísticos e de repetição compulsiva para que se chegue à conclusão de que a pessoa apresenta o quadro de repetição comum ao transtorno autista. É preciso analisar a natureza dessas repetições, a forma com que se apresentam. Se o foco da pessoa é a obtenção de prazer com essas repetições, que costumam estar relacionadas ao seu assunto de interesse, como dinossauros, astronomia ou videogames, por exemplo, fica claro que o comportamento repetitivo observado é movido pela sensação agradável que proporciona, o que condiz com o perfil autista. No entanto, se o comportamento de repetição do indivíduo tem como foco a resolução ou o alívio de angústias causadas por excesso de  preocupação com assuntos desagradáveis e catastróficos, como lavar as mãos o tempo todo para evitar contaminação ou telefonar para alguém de hora em hora para se certificar de que nada ruim tenha acontecido, de maneira que relute em engajar em tais comportamentos mas acabe ansiosamente impelido a eles, então, essa pessoa muito possivelmente está diante de um quadro obsessivo-compulsivo encontrado no TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo). No TOC, a pessoa tenta evitar o comportamento obsessivo, enquanto no autismo a pessoa o busca. Há ainda casos em que a pessoa com autismo apresenta os dois padrões de comportamento repetitivo, o que poderia sugerir TOC como comorbidade, caso a pessoa preenchesse os 3 critérios centrais de diagnóstico do espectro autista.

Enfim, existem muitas combinações e situações possíveis para o comportamento humano, de forma que apenas uma avaliação cuidadosa feita por um profissional realmente bem informado e especializado em autismo – para, assim, conhecer bem os diagnósticos diferenciais que separam uma síndrome da outra – possa gerar um diagnóstico realmente confiável.


Relatos

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Abaixo, segue a tradução de um artigo publicado no jornal britânico The Guardian, onde Susan Dunne, colunista da seção sobre autismo, fala um pouco de como foi para ela obter seu diagnóstico aos 40 anos de idade, após toda uma vida de incertezas e dificuldades.


Autismo depois de adulto: ‘Nos tantos dias que passo em solidão, me esqueço de como conversar’

Por Susan Dunne

16 de setembro de 2015 – Coluna Autism Daily Newcast, The Guardian – Jornal Britânico

Tradução: Audrey Bueno

Fui diagnosticada com autismo por volta dos meus 40 anos. Como muitos adultos que escaparam da rede diagnóstica por serem autistas de alto funcionamento, nascidos prematuramente, ou simplesmente mulheres, eu passei uma vida inteira tentando compreender as dificuldades sociais e sensoriais do autismo que sempre me acompanharam. Que nenhum de nós acorde curado aos 18 anos parece confundir alguns profissionais. Que nós ainda nos beneficiemos de algum suporte, por mais tardio que seja o diagnóstico, parece confundi-los também.

Muitos de nós reuniram alguns outros rótulos ao longo do caminho: estranho, nerd e esquisito da fraternidade do bullying; transtorno de personalidade, depressivo e chato importuno da fraternidade de saúde mental. A psiquiatria já teve uma abordagem diferente: no autismo eu tinha uma diferença neurológica de aprendizado que não me tornava louca, má ou perigosa – sempre bom ouvir isso – e eu não tinha prejuízo intelectual. Me diziam que eu era “uma autista de muito alto funcionamento” para que pudesse me beneficiar de qualquer serviço de apoio (não que houvesse opções nas redondezas) e que eu já deveria ter resolvido as coisas a essa altura da vida. Fui dispensada de centros públicos de saúde com uma carta me desejando boa sorte e um endereço na Internet para a National Autistic Society (NAS) [Sociedade Autista Nacional, na Inglaterra].

Em outras palavras, foi um caso de “dê um jeito, se vire”. Nada novo aqui: não estou sozinha ao receber um diagnóstico tardio onde auxílio pós-diagnóstico não é mais que um endereço de site na Internet. O guia estatutário do Autism Act 2009 [um órgão com legislações de proteção] recomenda que a área da saúde e serviço social devessem trabalhar juntas para garantir àqueles diagnosticados o devido amparo. A NAS descreve o progresso de sua implementação como “fragmentado e sujeito à variação nacional”. Na realidade, isso geralmente significa que o serviço de apoio é inapropriado, inadequado ou, como no meu caso, inexistente.

A suposição de que já deveríamos ter dado um jeito nas coisas a essa altura da vida já que estamos andando, falando e ainda temos pulso pode esconder uma realidade sombria de dificuldades, isolamento e vidas pela metade. Com o tempo, aprendi do modo mais difícil como me apresentar melhor em público, mas atrás de portas fechadas o assunto é bem diferente. Eu moro numa casa onde as luzes, a geladeira, o fogão e a máquina de lavar foram, um a um, parando de funcionar. Não sei como consertar, mas prefiro viver na escuridão a ter alguém que eu não conheça no meu espaço pessoal. Posso ser graduada e ter um alto QI, mas tenho muitos problemas financeiros devidos a uma vida de sobrevivência contando com uma única e singela fonte de renda. Não tenho família ou amigos próximos para qualquer tipo de auxílio e nos tantos dias em que passo sozinha posso quase me esquecer como é conversar. Às vezes, alguém que ao menos fizesse o papel do contato com a realidade checando se eu comi hoje já seria útil.

Auxílio pode ser útil por outros motivos também. Um diagnóstico tardio pode eventualmente gerar um processo emocional de encerramento e reconciliação, mas não sem antes passarmos por um período de angústia e ranger de dentes para algo que nada prepara você. Por cerca de um ano após o diagnóstico chorei e me debati, principalmente pelo sentimento de arrependimento pelo que senti como sendo um fracasso de vida. Ali estava eu, após todos aqueles anos, descobrindo o porquê mas, ainda assim, sem ninguém para me apontar o caminho, para me dar boas vindas ao clube ou para me dizer onde pendurar o casaco. Essa coisa de autismo era uma droga.

Deixada ao léu, me voltei para a Internet, onde descobri que havia outros como eu tentando dar sentido a tudo isso também – uma tribo online para os sem-tribo, uma diáspora de alienígenas num universo neurotípico. Para algumas pessoas, a comunicação online é uma opção de vida. Para outras, como eu, era a única opção disponível e, sendo eu alguém que não nasceu na era digital, essa não era necessariamente minha opção preferida.

Mas a Internet era tudo o que eu tinha e me serviu muito bem. Devagar, aquilo que sempre tinha sido desconcertante e frustrante começou a fazer algum sentido. Hoje em dia eu entendo meus comportamentos atípicos, entendo que nem todo mundo prefere a verdade em vez do tato e entendo por que meus melhores amigos sempre tiveram quatro patas. Ao longo do tempo, passei a aceitar o autismo pelo que ele é: uma diferença neurológica vitalícia que vem com dons e limitações. No longo prazo, o diagnóstico me permitiu mais auto perdão e auto entendimento e eu me sinto muito mais feliz por isso.

Mas alguma ajuda até que eu finalmente atingisse esse lugar teria sido útil. Teria sido importante que me tivessem perguntado: “Você precisa de alguma coisa?”

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Susan Dunne

Susan Dunne é autora do livro A Pony in the Bedroom (Um Pônei no Quarto), um conto de memórias de uma vida com autismo não diagnosticado e de sua paixão por cavalos. Ela é estudante de pós-graduação em Asperger e autismo na Sheffield Hallam University e colunista regular para o Autism Daily Newscast, do The Guardian, conceituado jornal britânico. 

 

 


Testes online

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Por Audrey Bueno

Como quase todo mundo já sabe, um diagnóstico oficial de autismo só poderá ser fornecido por profissional qualificado, geralmente um neurologista ou um psiquiatra.

No entanto, existem recursos online que oferecem ao menos alguma ‘estimativa’ do quanto existe a probabilidade da pessoa estar ou não no espectro do autismo. Além das listas de traços e sintomas comumente encontradas, existem questionários que geram resultados mais concretos, como gráficos e pontuações. Esse é o caso do teste “Aspie Quiz“, que é uma versão em português do teste original em inglês, e uma das melhores opções disponíveis atualmente de testes desse tipo na nossa língua.

No entanto, vale ressaltar que o teste não é oficial e está longe de ser perfeito, com confiabilidade em torno de 85%. Embora o teste não investigue certos pontos importantes ou de comprovada validade científica, e apresente algumas (poucas) perguntas mal formuladas, as questões abordam, sim, muitos pontos que podem, de fato, apontar para um possível quadro de autismo. Por ser uma ferramenta gratuita e de fácil acesso, não custa tentar, mas é preciso ter claro que resultados muito próximos da ‘nota de corte’ podem estar errados, pois a margem de erro costuma estar na faixa dos 15%. O teste inclui dois termos em seu resultado final: neurodiverso (= com autismo) e neurotípico (= sem autismo). Ao final das perguntas (que levam cerca de 40 a 60 minutos para serem respondidas), o próprio sistema efetua o cálculo e emite o resultado tanto por escrito, como através de um gráfico.

Abaixo, estão exemplos de resultados obtidos por quatro pessoas reais que fizeram o teste, cujos nomes não serão mencionados por razões éticas, comparadas às situações diagnósticas oficiais que obtiveram após avaliação profissional:

Pessoa A – Diagnosticada com síndrome de Asperger (‘muito leve’ ou “Borderline Asperger”, mas já estando inserida no espectro do autismo):

Seu índice neurodiverso (Asperger): 113 de 200
Seu índice neurotípico (não autista): 120 de 200
Você parece ter ambas as características, neurotípicas e neurodiversas.

Pessoa B – Diagnosticada com síndrome de Asperger:

Seu índice neurodiverso (Asperger): 160 de 200
Seu índice neurotípico (não autista): 65 de 200
Você muito provavelmente é neurodiverso.

Pessoa C – Neurotípica, não está no espectro do autismo (esta pessoa foi ao psiquiatra devido a um quadro de ansiedade):

Seu índice neurodiverso (Asperger): 66 de 200
Seu índice neurotípico (não autista): 134 de 200
Você é muito provavelmente neurotípico.

Pessoa D – O diagnóstico foi de síndrome de Asperger (‘muito leve’):

Seu índice neurodiverso (Asperger): 87 de 200
Seu índice neurotípico (não autista): 110 de 200
Você é provavelmente neurotípico.

Observe que apenas o caso da “Pessoa D” foi, de fato, diferente do resultado apontado pelo teste, porém a margem de pontuação (87 e 110) estava próxima da média (100), o que sempre sugere a possibilidade de 50% de possibilidade para cada lado da moeda. Além disso, o resultado não continha ênfase, como no termo “muito provavelmente”, lendo-se apenas “provavelmente”. De qualquer modo, apenas pelo teste, a pessoa havia sido considerada como “provavelmente neurotípica”, mas na verdade oficialmente descobriu-se que ela estava no espectro autista. E no caso da “Pessoa A”, o resultado do teste foi dúbio, indicando uma situação “em cima do muro”, que acabou condizendo com a avaliação de “leve” obtida em avaliação médica oficial.

Casos em que a pontuação seja muito distante da condição real do respondente podem dever-se não unicamente a falhas no teste, mas também a outros fatores, tais como: pressa ao responder, entendimento equivocado da pergunta ou baixo nível de autoconhecimento e percepção individual do respondente, que acaba por assinalar opções distantes da situação real vivida por ele.

Ou seja, de forma geral, o teste apresenta alguma validação e vale a pena ser feito. Sugiro que ‘perguntas confusas ou mal formuladas (especialmente a de número 63)’  sejam respondidas com a opção “?” (= ‘não sei’) apenas a título de manter a questão neutra em termos de pontuação.

 


Para ler mais a respeito:

Artigo: AUTISMO ADULTO, O GRUPO INVISÍVEL – Por Fatima de Kwant

 

 

 

22 comentários sobre “Diagnóstico de autismo depois de adulto

  1. É uma lástima uma pessoa não ter sido devidamente e a tempo diagnosticada; não tendo desde cedo um enfrentamento consciente com a doença, pois lhe faltou aprender isso. Sem a aceitação própria e a do meio social é muito difícil tratar e lidar com um problema como o autismo. Bom texto.

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  2. Pingback: Diagnóstico de autismo depois de adulto – Acordo Coletivo (Petroleiros, Bancários, Prof de Saúde)

  3. Meu teste deu: Asperger: 119 de 200 – neurotipico: 93 de 200, baixei o PDF com o texto, mas a letra tá meio ruim, com símbolos no lugar de acentos, diz ter uma pontuação alta de 8 de 10 e questiona eu não ter respondido algumas questões.. Acho..

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    • Seu resultado sugere boa probabilidade da presença de autismo. Uma avaliação com um psiquiatra é, portanto, bastante recomendada. Quanto ao texto de difícil visualização, sugiro procurar pelo Google: “Aspie Quiz”. Talvez você se interesse em ler esta outra publicação aqui no blog, que também funciona como um ‘teste’, de certo modo: “Lista de Traços em Mulheres com a Síndrome de Asperger”. Digite “mulheres” na ferramenta “PESQUISAR” do blog para encontrar o texto mais rápido. Abraço.

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  4. Acho que tenho síndrome de asperger. Venho lendo sobre o assunto há bastante tempo, e 90% das características comuns meio que se aplicam a mim. Eu sempre pensei que era apenas timidez, algo natural que todos tem, inclusive. Mas eu levo meio que outros complexos (ou seria paranoias?) a sério demais. Minha mãe contava que aos meus três anos de idade, eu não conseguia avisá-la de que precisava ir ao banheiro, por exemplo. Simplesmente saía me escondendo de todos, não conseguia falar o que eu queria, ao que parece a timidez era enorme. Agora note: eu nunca tive problemas nenhum com fala ou leitura, algo meio que imprescindível para a constatação do autismo. Pelo contrário, sempre foi recorrente me verem como uma pessoa com inteligência acima da média, com um linguajar sempre acima das pessoas da minha mesma idade. Não por isso, sempre me senti meio “deslocado”, sempre adorei conversar com pessoas mais velhas, porque elas me parecem mais interessantes que as demais. Nas áreas de meu interesse, sou o melhor. Eu sempre achei que tive problemas com matemática, física e matérias relacionadas à calculo. Às vezes eu ia para a recuperação na escola por isso. Acontece é que eu não conseguia pegar no livro, a falta de interesse nessa área era muito grande. Eu por exemplo, só estudava história, geografia, biologia, português porque eram matérias que eu amava estudar. E era praticamente o melhor da turma nas cadeiras que me interessava, era muito fácil para mim e eu não conseguia entender qual a dificuldade das demais pessoas em entender os assuntos. Isso eu só vim perceber depois de terminar a escola, eu não conseguia explicar a falta de motivação para estudar matemática, por exemplo. Eu só pegava no livro às vésperas das provas. Ás vezes ia para a recuperação, mas conseguia ser aprovado com facilidade quando resolvia estudar. Lembro-me agora, na época do ensino médio, de um professor de física uma vez me chamar de preguiçoso ou desinteressado, ao ponto de conversar com o meu pai sobre isso.
    Sobre amizades: consigo ter amigos “normalmente”, embora seja difícilimo me aproximar de alguém. Praticamente, não consigo fazer. Acho que todos meus amigos meio que se aproximaram de mim primeiro. Para eu falar espontaneamente com alguém, preciso meio que pertencer ao seu círculo por meses primeiro, por exemplo, na academia. Sim, eu consigo frequentar espaços como qualquer pessoa, mas é muito difícil entrar em algum grupo. Na faculdade, por exemplo, eu só consigo conversar com quem já me conhece e que já me cumprimenta. Está fora de questão conversar com alguém diverso dos conhecidos. Parece que tenho medo de ser julgado ou de me ofenderem por dar um bom dia, por exemplo. Posso frequentar por meses a fio a mesma turma sem falar nada com ninguém. E até prefiro assim. Sempre vou para o fim da sala porque não aguento a ideia de ser observado. Levantar no meio da aula para sair da sala é algo que me dá calafrios. Mesma coisa em relação a namoradas. Jamais tive a coragem de me aproximar de alguma menina que me interessasse. Todos os namoros que tive foram porque elas se aproximaram primeiro, me entregavam sinais, pediam para ficar/namorar, e caso eu gostasse da aparência delas, eu até conseguia ficar e manter namoros normalmente. Lembro-me de um caso na faculdade bizarro: a jovem era amiga de um colega meu. Ocorre que sempre que eu estava perto dela, me sentia meio que desprezado, como se ela não fosse “muito com a minha cara”. Então eu sempre a evitava por isso. Meses depois, venho descobrir que essa mesma jovem era doida para ficar comigo, porque me achava interessante e bonito. Fiquei super surpreso por isso. Minha paranoia não fazia o menor sentido! De certo modo, é como se eu não entendesse bem as reações das pessoas em relação à mim.
    Dizem que pessoas com quadro de asperger têm dificuldades de empatia. Ocorre que eu sou extremamente apático e muito frio, não tenho ideia de como consolar alguém ou dar palavras de conforto. Simplesmente não sei ser carinhoso, é preciso muito esforço para dizer uma palavra de carinho que seja pessoalmente. Agora, consigo escrever tranquilamente sobre sentimentos. Mas falar, fora de questão.
    Também odeio que invadam meu espaço ou que peguem algo que seja meu. A raiva cresce mesmo que na hora, ao ponto de eu reclamar com quem quer que seja. Me incomoda demais. Fico meio que vermelho de raiva. Também não gosto de ficar muito perto das pessoas por muito tempo. Eu adoro tranquilidade e poder dormir num quarto sozinho, porque o contato frequente de outras pessoas me causa um mal-estar imenso. Não consigo ser realmente próximo de alguém. Eu considero uma única pessoa minha melhor amiga, e mesmo assim não consigo falar-lhe tudo. É praticamente impossível eu conseguir me abrir com alguém sobre algo que me afete ou pedir ajuda.
    Também sou muito rude e sincero demais. Às vezes não consigo saber quando feri os sentimentos de alguém, então meio que as pessoas me veem como insensível. Mas minha auto-estima é muito frágil. Acho bizarro quando alguém elogia minha beleza por exemplo. Sempre penso que estão a me provocar ou a zoar comigo. Tenho a sensação de estar sendo observado todo o tempo. Manter contato visual? nem pensar praticamente. Me incomoda demais. Outra coisa que odeio é tocar em mim sem que eu espere pelo contato. Prefiro ficar sozinho.
    Também li uma outra característica do asperger: falta de coordenação motora. Parece bizarro, mas parece às vezes que não sei a forma correta de andar. Morro de medo de passar por uma rua movimentada, então eu tendo a andar mais rápido para que esse sacríficio termine. Tenho a impressão de que todos estão me julgando e me observando, doidos para me criticar ao primeiro passo errado. Então, tenho que me concentrar em andar certo. Consigo praticar esportes, mas por exemplo, tenho grande dificuldade de jogar bem futebol, como se realmente me faltasse coordenação no corpo, então eu erro muito e é super difícil driblar, por exemplo.
    Falam que pessoas com asperger também gostam de ser colecionadores. Eu adoro ter livros, sou ficcionado por eles. Compro de todos os tipos, sempre que possível, e nunca jogo nada fora tampouco empresto algo, gosto da ideia de colecionar várias coisas. Minha mãe dizia que eu jamais quebrava algum brinquedo, e que eu organizava bem todos e que tinha o maior cuidado com eles, ao ponto de meus irmãos, com quase vinte anos de diferença, poderem brincar com os mesmos brinquedos. Odeio a ideia de jogar algo fora, mantenho certos pertences inúteis por anos a fio. Também adoro rotina e gosto de fazer a mesma coisa. Meio que só consigo estudar em certos horários, tomo banho e cumpro as refeições sempre no mesmo horário. Tenho alguns maneirismos, como mexer no punho sem motivo aparente, coçar a cabeça quando estou nervoso, mexer muito os pés, fechar muito o corpo. Sempre me sinto desconfortável, ainda mais em público.
    Então, basicamente é isso.
    Também fiz o “Aspie quiz” e o resultado foi “Você é muito provavelmente neurodiverso (Asperger) (147 de 200)” http://www.rdos.net/br/

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    • Olá, João. Ao que tudo indica, você é mesmo portador da síndrome de Asperger. Uma avaliação profissional seria bastante recomendada. Você mencionou que problemas com a fala e a leitura são imprescindíveis para a constatação de autismo, mas não são, especialmente no lado leve do espectro, como é o caso de Asperger. Pessoas com Asperger não costumam ter problemas com a aquisição da fala, que, inclusive, ocorre precocemente em boa parte das vezes. O mesmo com a leitura, nem todos têm dificuldade com isso e, pelo contrário, há muitos Aspies que têm um domínio linguístico-literário-poder de escrita fortíssimo. A maioria massiva dos Aspies tem inteligência acima da média, e vários dos problemas comuns a superdotados também são vividos pelos Aspies. Pesquise no Google sobre “dificuldades dos superdotados”, pois você provavelmente pode ser um, uma vez que é absolutamente comum que Aspies sejam, na verdade, portadores de Dupla Excepcionalidade: Asperger e Superdotação. Tenho um post no blog falando sobre Dupla Excepcionalidade. Segue o link: https://sindromedeasperger.blog/2017/07/14/dupla-excepcionalidade-sindrome-de-asperger-e-superdotacao/
      No seu relato, você mencionou coisas muito características de alguém com Asperger: foco em certos assuntos e total desprezo e enorme dificuldade com aqueles assuntos que, mesmo necessários, não pertencem ao foco de interesse, ou seja, há uma resistência tremenda em aceitar o que foge do leque restrito de interesses, ao ponto de se prejudicar por não conseguir fazer (como foi o caso da recuperação em matemática); a habilidade linguística costuma ser muito desenvolvida em pessoas com Asperger (bem como em superdotados); sensação de paranoia, nunca se sentir confortável, odiar que invadam seu espaço, ter problema com o elemento-surpresa de ser tocado sem aviso prévio (pessoas com autismo costumam preferir tomar a iniciativa do contato físico e são bem sensíveis a como as pessoas fazem isso), sensação de ser alvo de crítica e julgamento constante (efeito colateral de uma mente que nunca teve facilidade em supor o que se passa na mente alheia, e de ter sentido o peso da própria falta de tato social, que costuma gerar uma enxurrada de críticas externas, o que explica a paranoia de vida), ansiedade frente a lugares movimentados, perfil colecionador, preferência pela rotina e dificuldade em falar sobre/expressar sentimentos, que costumam ser intensos, mas ficam represados. E a dificuldade com matemática se chama “discalculia”, muito comum no espectro autista. Esse teste “Aspie Quiz” costuma acertar bastante, ou seja, tem alto nível de confiabilidade. Sua pontuação é realmente alta para Asperger, mas indica que você ainda tem alguns aspectos neurotípicos em seu funcionamento, que “suavizam” um pouco a síndrome, o que explica porque você consegue transitar de forma ‘relativamente normal’ nos ambientes e ter um certo número de amizades, ainda que sem a reciprocidade de amizades típicas. Por tudo isso, refaço minha sugestão de buscar uma avaliação médica formal, geralmente fornecida por um psiquiatra. Antes, porém, sugiro que leia mais uma publicação, que explica as dificuldades comuns em processos diagnósticos, nesse link: https://sindromedeasperger.blog/2017/07/15/sindrome-de-asperger-diagnostico-e-tratamento/
      Boa sorte em sua caminhada. A informação sobre a síndrome te ajudará muito a encontrar meios de viver melhor. Obrigada pelo comentário e seja sempre bem-vindo ao blog!

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  5. Tive pontuação de 188 para neurodiverso e 32 para neurotipico e francamente a forma como o teste me retratou em diversas situações é quase assustadora, até porque já estive em diversos problemas e situações de risco por essas coisas.
    Minha psicóloga me falou sobre a suspeita de autismo com superdotação e estou de consulta marcada com um neurologista e esperando a consulta com minha psiquiatra para falar sobre isso.
    Eu desconfio muito que seja realmente esse o diagnóstico, mas me sinto em uma negação normal de me perguntar “como assim? Eu não sou assim ou de tal forma, então não é possível” embora saiba bem que os sintomas são muito diversos e que quanto mais procuro sobre, mais me identifico. Tenho 22 anos e minha vida está um caos porque não sei lidar com minhas diferenças e limitações porque nunca entendi como poderia ser tão… assim. Me sinto nervosa tanto com a possibilidade de um sim quanto de não, porque no fundo estar próxima de algo que ajude a me entender e buscar o melhor jeito de lidar com isso é um alívio. Agora é esperar o diagnóstico, completamente nervosa sobre estar com um desconhecido em uma situação desconhecida onde não posso prever como agir. É perturbador, sinceramente.
    Inclusive preencher esse formulário está me deixando um pouco nervosa, só para ser clara.

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    • De fato, pela pontuação e pelo seu relato, existem chances muito altas de você ter Asperger e, o que não é incomum quando se tem Asperger, superdotação também, o que, por si só, já gera muita angústia e dificuldade na vida, apesar de ser um dom especial. Acho, sim, fundamental que você busque se conhecer, ter certeza do que você tem e do que você é, pois isso te dará um “norte” do que ler, de estratégias de enfrentamento e até para acabar se comunicando com outras pessoas iguais a você. As similaridades serão incríveis e será algo totalmente novo na sua vida, como se você encontrasse, enfim, a sua ‘tribo’. Para saber acerca do QI, você precisaria fazer um teste de QI, que muitos psicólogos aplicam (cheque com a sua), mas é preciso que o psicólogo tenha conhecimento das suas particularidades e leve isso em consideração ao aplicar e avaliar o teste, pois se o profissional não for conhecedor de quadros de autismo leve, poderá ter certas atitudes que reduzam seu resultado. Sugiro que você leia outros dois posts aqui do blog:
      – Depressão Existencial e a Teoria da Desintegração Positiva de Dabrowski – https://sindromedeasperger.blog/2017/11/07/depressao-existencial/
      e
      – Como identificar a superdotação intelectual? – https://sindromedeasperger.blog/2017/11/07/como-saber-se-sou-intelectualmente-superdotado/

      Você está no caminho certo. O autoconhecimento não é uma estrada fácil. É preciso coragem, mas o resultado final é sempre melhor do que não saber quem você é, quais seus pontos fortes e falhos, o que inevitavelmente te levará um dia a perceber que todos, sem exceção, temos coisas boas e outras nem tanto assim, e isso é apenas parte da diversidade humana. Tem uma frase que gosto muito que diz: “De perto, ninguém é normal.” Nesse processo inicial de autodescoberta, se puder permanecer em acompanhamento psicológico, será muito bom. Boa sorte!

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  6. Eu fiz o teste e o resultado foi 139/200 pra aspie e 65/200 pra neurotípico. Eu tenho lido um pouco sobre asperger acabei por identificar em mim diversas características dessa condição, coisas que eu sempre tinha avaliado como traços de timidez. Acha que vale a pena ir a um profissional? É comum que as pessoas procurem psiquiatras atrás da confirmação (ou não) de um diagnóstico específico?

    Desde já agradeço a atenção.

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    • Sim, observando o resultado do teste e sua narrativa, acho, sim, muito válida a busca por um psiquiatra. Além de questões comuns a pessoas com Asperger, como quadros de ansiedade, depressão ou TOC, que podem ser aliviados com medicação, há também o ganho do autoconhecimento, que é uma poderosa ferramenta de enfrentamento das dificuldades e de autoaceitação na vida. Nos ajuda a perceber quando temos questões que fazem parte da diversidade humana e que não significam que sejamos falhos ou pessoas ruins, de algum modo, e sim uma variação da nossa própria espécie. Isso ajuda a construir uma identidade mais fortalecida frente à crítica alheia (e à nossa própria crítica interna) e a conhecer melhor quais os pontos fortes e fracos no nosso funcionamento. Ajuda, inclusive, a encontrar pessoas que tenham um perfil em comum e que nos façam perceber que não somos os únicos com certas questões, coletando preciosas informações de vida, afinal, o fato é que todo ser humano sempre deseja encontrar uma “tribo” a que possa pertencer. Boa sorte e seja sempre bem-vindo ao blog. Antes de procurar um diagnóstico, sugiro ler o artigo: https://sindromedeasperger.blog/2017/07/15/sindrome-de-asperger-diagnostico-e-tratamento/

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  7. meu test, por umas vezes que fiz, para comprovar, sempre está na margem de 150 para neuro diverso, o típico eu não lembro bem, mas é bem baixo tipo uns 65.
    Às vezes penso que é tolice uma pessoa com mais de 50 ter asperger, outra vezes acho que é um caso sério mesmo. De todas os sintomas os que mais me afligem e sempre afligiram foram o toque, desde criança quando alguem me abraçava era como se me queimasse o corpo e outro era não suportar sair da rotina, nem por uma festa de aniversário, eu queria que terminasse logo e todos fossem embora para que eu continuasse a me introverter, eu acho. Mas também tem outro sintoma que só entendi muito tarde, quando já havia sofrido muito. Eu não sei bem entender as expressões das pessoas. como uma cegueira mental; Ficava e fico com raiva por entender, só depois, isso quando entendo. Sempre tive tratamento desde criança, mas só me diziam que eu era muito impressionável e ansioso

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    • Nunca é tolice procurar se compreender e dar sentido a tudo o que passamos nessa vida. Pessoas com Asperger sofrem muito, passam uma vida de incompreensões e julgamentos dolorosos e injustos, e muitas pessoas que recebem o diagnóstico tardio descrevem a sensação como “libertadora” acima de tudo, pois se dão conta de que têm um sistema neurológico diverso, que lhes traz tanto qualidades quanto dificuldades, e que não as tornam menos por isso, e sim diferentes, merecendo serem respeitadas por serem quem são. Com um diagnóstico vem, muitas vezes, o alívio de saber que a maioria dos rótulos negativos que as outras pessoas depositaram desde sempre na pessoa com Asperger são fruto de incompreensão das pessoas e de julgamentos errôneos e que, portanto, não mais devem ser levados na bagagem emocional. Seu relato sobre suas características sugere, de fato, muito fortemente (eu diria que uns 80%) a presença da síndrome de Asperger e justificam totalmente uma avaliação médica formal para comprovação. A saber, a ansiedade é uma das principais comorbidades da síndrome de Asperger, seguida de perto pela depressão, afinal, ser neurodiverso num mundo neurotípico gera muito sofrimento e stress. Com um diagnóstico (o psiquiatra é o médico de preferência para esse tipo de avaliação), inclusive um tratamento medicamentoso pode ser seguido, o que pode aliviar muito a carga de sofrimento diário. Seja sempre bem-vindo ao blog.

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  8. O meu teste aqui deu;
    163-200 asperger
    36-200 neurotipico
    eu sei que sou Autista, mas até hoje só falei com um psiquiatra quando era miudo, e foi porque me obrigaram. Tenho 56 anos e sou, tanto quanto penso, uma pessoa feliz.
    Há muito que deixei de me preocupar com isso.
    Sejam felizes e não se importem de serem diferentes. O Mundo pula e avança porque há pessoas diferentes….

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    • A única coisa chata nisso tudo é o fato de dizer ou não que somos portadores de TEA leve, pois se falamos, nos tratam como “diferente”, e vêm com a exclamação: Eu sabia! Aí. Se a gente não fala as vezes é pior, somos criticados do mesmo jeito: Que cara mais excêntrico, chio de manias, cheio de frescura!

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      • Não é fácil mesmo. Como tudo na vida, há sempre um lado positivo e um negativo em tudo. O jeito é analisar o público para quem se fala dentro do círculo imediato de convívio. Uma vez, uma médica muito boa que conheço fez a seguinte observação: “Se você for contar para alguém que possa ajudar de alguma forma, conte, mas se for para alguém que não vai fazer nada de útil ou positivo com a informação, talvez seja melhor não dizer”. É claro que esse tipo de reflexão acontece justamente por termos muita gente ignorante à nossa volta, pois se vivêssemos numa sociedade mais evoluída e consciente, isso não haveria de ser um problema. Por isso, precisamos trabalhar pela divulgação nas mídias, pois quanto mais informação, mais formação de consciência e mais próximo o dia em que a sociedade terá alcançado um novo nível de compreensão das coisas. Obrigada pelo comentário.

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      • Eu te agradeço, por responder, me surpreendeu bastante saber que tem gente que se importa. Por esses dias estou passando por uma situação complicada. Tive que preencher muitos formulários, tirar passaporte novo, andar atrás de diploma, traduzir. Tudo isso por conta de uma candidatura a um mestrado na Espanha. Tive que ter ajuda de muita para resolver tudo isso, por isso quase informei a universidade que eu tinha TEA leve diagnosticado. Eu escrevia o e-mail e depois cancelava; se informasse seria como se estivesse me desculpando, por isso preferi não. E nos dez dias que me deram para enviar os documentos fiz tudo nos últimos momentos do prazo. Eu odeio formulários, sempre erro tudo, chego a errar o meu próprio nome. Mas, eu não sei se devia informar, será que ajudaria?

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  9. EiMan, acredito que depende sempre do contexto, para você pensar se revela o diagnóstico ou não. Como no seu caso, trata-se de um mestrado num país estrangeiro, há três coisas a favor de revelar o diagnóstico:

    1) é um contexto de estudos, e não de vaga de emprego, e pode ser benéfico para você obter certas acomodações que universidades geralmente oferecem a pessoas com Asperger, como: a) poder fazer a prova separadamente dos colegas e ter uma hora a mais para executá-la; b) flexibilidade no cumprimento de prazos; c) ser liberado de apresentações de trabalhos em formato de palestras, que o exponham desconfortavelmente a um público.

    2) por ser um contexto educacional, a instituição é muito mais receptiva a necessidades especiais do que se fosse num contexto de trabalho, onde empresas só visam lucro e buscam apenas a “máquina humana que produza mais por menos”.

    3) por ser uma instituição estrangeira, embora não necessariamente seja o caso o que vou dizer agora, o fato é que é muito mais provável/comum encontrar pessoas mais bem informadas sobre uma síndrome como Asperger em países mais desenvolvidos do que em países com um nível cultural tão baixo como no Brasil. E sendo mais bem informados, podem, inclusive, saber que alunos com Asperger têm um potencial incrível e possuem inteligência geralmente acima da média, o que torna pessoas como você talentos em potencial para uma universidade.

    Já em contextos de procura de emprego, infelizmente acho que é melhor não revelar o diagnóstico (a menos que as acomodações que você precisaria fossem indispensáveis para a execução do seu trabalho), pois o interesse de empresas em acomodarem pessoas com necessidades especiais de qualquer espécie (mães com filhos pequenos sofrem o mesmo preconceito, por exemplo) é quase sempre nulo e, além disso, a falta de informação, que dá lugar a achismos estereotipados acerca do autismo, pode excluir você de um processo seletivo. Porém, se depois de já estar na empresa tempo suficiente para que conheçam o seu trabalho, certas dificuldades que seriam melhoradas com adaptações especiais estiverem atrapalhando seu desempenho profissional, então talvez valha a pena se abrir com o chefe.

    Essa sua dificuldade com o aspecto prático das coisas é muito característica do autismo leve ou Asperger, pois pessoas no espectro costumam ter um prejuízo na função executiva do cérebro, localizada no lobo frontal. Essa não é uma característica pertencente somente a pessoas no espectro, no entanto. Pessoas com alto QI e muito criativas tendem a ter os mesmos problemas. Talvez você ache interessante esse artigo aqui:

    https://sindromedeasperger.blog/2017/08/31/autismo-e-prejuizo-no-lobo-frontal/

    Sugiro que você procure fazer parte de fóruns ou grupos de pessoas com Asperger. Você vai ver que não está sozinho e que ainda há pessoas que se importam, sim, e que o autismo é uma condição complexa e dupla: se, por um lado, há muitos déficits e dificuldades, também há características admiráveis no perfil, como inteligência, certas habilidades específicas, excelente raciocínio lógico, boa memória e capacidade visual destacada. Aproveito para deixar esse outro link também, onde você pode ver a diferença entre um cérebro autista e um neurotípico: https://sindromedeasperger.blog/2017/07/04/diferencas-no-cerebro/

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    • Eu queria perguntar algo. É sobre um assunto que me deixa muito frustrado e aborrecido. Acontece quando estou numa situação dessas que eu comentei anteriormente. Qualquer projeto que invisto, seja ele no campo de trabalho, estudo, viagem… me entusiasmo tanto no início, vou a fundo e busco conhecer como tudo acontece como tudo funciona e durante o período de espera para que o tal projeto tenha resultado, já esmiucei quadrinhei, sonhei pareço ter vivido tudo tudo antes de acontecer. E, quando a “coisa” realmente acontece, estou quase sem nenhum interesse por ela. Isso arrasa comigo! Até na vida sentimental isso acontece, É como se eu tivesse uma “vontade fraca” mudo de projeto a vida toda. Será que isso tem a ver com Aspergerr?
      Agradeço por esse espaço que você nos deixa é muito útil.
      Ei Man

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      • Olá! Pode ter bastante a ver com Asperger, mas há outros fatores envolvidos. A personalidade e a capacidade cognitiva influenciam bastante nesse tipo de sentimento. Vamos aos esclarecimentos:
        1 – O que tem a ver com Asperger: a tendência obsessiva e hiperfocada (hiperfoco). No hiperfoco, tanta energia é canalizada que não se para enquanto não se “gastar toda ela”, de modo que quando o evento esperado chega, já não há muito mais o que investir. É o mesmo mecanismo da obsessão. Soma-se a isso um quadro de ansiedade (que é uma das comorbidades mais comuns em Asperger), que, na verdade, costuma ser o motor por trás das obsessões e rituais, e tem-se uma intensidade em alta voltagem, que certamente demanda um fluxo imenso de energia mental e emocional. A ansiedade também influencia a necessidade de manter o controle, e por isso, numa situação que ainda não ocorreu, como um projeto, por exemplo, o empenho mental para que tudo corra da forma mais planejada possível é grande. E a síndrome de Asperger reforça isso, pois pessoas no espectro gostam e precisam de previsibilidade para se sentirem confortáveis e seguras, especialmente em situações novas. Por fim, como o autismo tende a cindir um pouco o pensamento da emoção, de modo que um não necessariamente ocorra ao mesmo tempo que o outro, é muito possível que a análise lógica predomine durante um evento esperado e a emoção só chegue depois, dias depois, às vezes. É muito comum em crianças com Asperger que contenham a emoção causada por alguma situação estressante e só a expressem/liberem quando chegam em casa e se encontram num ambiente seguro e conhecido.
        2 – Personalidade: pessoas mais analíticas, imaginativas, criativas e autônomas tendem a investir muita energia mental nos detalhes e possibilidades das coisas que as cercam.
        3 – Capacidade cognitiva: pessoas com QI acima da média – algo extremamente comum na síndrome de Asperger – tendem a apresentar características similares às do autismo (um estudo mostrou haver uma correlação entre os genes responsáveis pela inteligência humana e os relacionados ao autismo), principalmente quanto a também terem hiperfoco, capacidade analítica e lógica acentuada, perfeccionismo, intensidade emocional e quadros de ansiedade. Ou seja, um QI alto reforça certos aspectos da síndrome de Asperger e vice-versa.
        Espero ter respondido a sua pergunta.

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