O professor – personalidade e compreensão do quadro de Asperger como peças-chave para o progresso no aprendizado

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É difícil administrar crianças com sensibilidades especiais num ambiente que não tem as adaptações adequadas para tal perfil. Salas de aula regulares são verdadeiros desafios para essas crianças, pois o barulho, a agitação, os cheiros, a constante demanda de interação social e atenção sustentada (que é a atenção para manter o foco numa atividade), e até mesmo a temperatura podem elevar a ansiedade, desconcentrar e inibir a realização das tarefas.

Como muitas vezes a realidade prática impede uma maior adaptação do ambiente, o professor poderá ao menos tentar observar fatores principais, como o nível de barulho e agitação da turma, o local onde a criança senta (se bate sol, se está próximo a certos cheiros ou ruídos, se outras crianças sentam muito próximas, se ela própria elegeu um lugar preferido para sentar, etc.), na tentativa de proporcionar o melhor ambiente possível para que a criança tenha condições de atingir o máximo do seu potencial de aprendizado e execução de tarefas, além, é claro, de contribuir para uma interação social mais positiva, afinal, quanto mais tranquila a criança estiver, melhor irá se relacionar. Tais cuidados na adaptação do ambiente são benéficos mesmo para as crianças típicas, ou seja, sem o transtorno, mas são vitais para a criança com Asperger.

Controlar o nível de ansiedade da criança deve ser o principal objetivo do professor, pois essa é a base da organização psíquica da criança com Síndrome de Asperger.

 

Há, ainda, um outro fator que exerce forte influência na vida escolar da criança com Asperger. O próprio Hans Asperger, 60 anos atrás, disse:

“Essas crianças têm uma sensibilidade surpreendente à personalidade do professor. Por mais difíceis que sejam, estas crianças podem ser guiadas e ensinadas, mas somente por aqueles que sejam capazes de lhes oferecer compreensão e afeto genuíno, e que sejam gentis com eles. A atitude emocional subjacente (implícita) do professor influencia, involuntária e inconscientemente, o humor ou comportamento da criança. Obviamente, administrar e guiar essas crianças requer conhecimento adequado de suas peculiaridades, bem como talento pedagógico e experiência. A simples eficiência de ensino não é suficiente.” (Asperger, 1944. – p.48)

Tradução: Audrey Bueno

 

 

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Tony Attwood, em seu livro THE COMPLETE GUIDE TO ASPERGER’S SYNDROME, acrescenta:

“Existem atributos de personalidade que garantem ao professor maior sucesso no manejo de crianças com a síndrome de Asperger. Eu observei muitas crianças com a síndrome sendo ensinadas de maneira muito satisfatória, numa ampla variação de contextos escolares, e notei que o maior progresso acadêmico e cognitivo foi atingido por professores que mostraram a maior capacidade de entendimento empático da criança. Tais professores eram flexíveis em suas estratégias de ensino, avaliações e expectativas. Eles genuinamente gostavam da criança e a admiravam, respeitavam suas habilidades e sabiam quais eram seus fatores motivadores e estilos de aprendizado.

Carol Gray – professora de crianças com autismo, consultora, autora e pesquisadora da síndrome em contexto escolar – sugeriu que tais professores devessem ter um bom entendimento do conceito de Teoria da Mente, que é atrasado em crianças no espectro autista, para entenderem a dificuldade que essas crianças têm em compreender o que as outras pessoas podem estar pensando ou sentindo, mas que o professor devesse ter, também, um bom entendimento da “Teoria da Mente do Autista”, para compreender o que a criança com a síndrome pode estar pensando ou sentindo.

Outro requerimento quando se é professor de uma criança com a síndrome de Asperger é não se ofender com os comentários que possam parecer rudes ou insolentes. Quando o professor pergunta à criança: “Você quer guardar o seu brinquedo agora?”, e a criança responde com um simples “Não”, a intenção da criança é ser honesta, e não indelicada. É importante lembrar que convenções e uso de linguagem social fazem parte das coisas que as crianças com a síndrome levam mais tempo para aprender.

Também é importante evitar sarcasmo, pois a criança tende a interpretar o que ouve no sentido literal.

Também é preciso estar ciente de que os fatores motivadores comumente usados com as outras crianças da sala podem não surtir o mesmo efeito em crianças com Asperger. Hans Asperger tinha muito interesse em estudar as estratégias educacionais para estas crianças, e escreveu: “Enquanto demonstrações de amor, afeto e elogios são agradáveis para crianças típicas e geralmente as induzem ao comportamento desejado, tais estratégias não surtem o mesmo efeito em crianças com Asperger – e muitas até mesmo se irritam.” (Asperger, 1944 – p. 47)

Fatores motivacionais mais eficazes incluem apelar para a autoestima intelectual dessas crianças, comentando sobre como são espertas, incorporando aspectos de seus interesses específicos às atividades, e reduzindo o potencial para riscos ou erros. ” (Attwood, 2015 – p. 258-259)

Tradução: Audrey Bueno

Um exemplo do parágrafo acima seria, por exemplo, dizer “Crianças espertas fazem assim” Em vez de “Eu fico feliz se você fizer assim”.

Quanto a incluir interesses específicos nas atividades, um exemplo seria, se a criança gosta de portas que abrem e fecham, usar o conceito para explicar a atividade de labirinto, dizendo que tem muitas portinhas fechadas e só se pode passar pelas que estão abertas.

A redução de riscos para erros tem a ver com uma abordagem pedagógica que força menos, exige menos, dá mais exemplos e explica mais vezes, fazendo a atividade com o aluno em vez de ficar esperando que ele faça sozinho para que o professor avalie se ele entendeu. É como se o objetivo principal da atividade fosse fazer junto, e não checar se o aluno sabe fazer. Fazer a atividade mais vezes além do exemplo inicial, repetindo as explicações em vez de tentar forçar uma produção dizendo “Eu sei que você sabe”.

Embora a intenção seja a de elevar a autoestima do aluno, é preciso compreender que, se sabemos que a criança sabe, e ainda assim ela diz que não sabe, isso significa que a criança está ansiosa. Quando a ansiedade está presente, o pensamento fica paralisado, mutas vezes, e a criança esquece do óbvio, entra em pânico e não consegue dar  próximo passo na lição. Muitas vezes, a ansiedade não permite que ela sequer consiga perceber realmente o que está diante dela.

Esse é um tipo de ansiedade muito comum no espectro do autismo, conhecido como “ansiedade de realização de tarefas”.

Assim, quando a criança diz que não sabe, dizer coisas como “Tudo bem, eu faço a atividade com você” pode promover a calma e tornar a criança muito mais disposta e, consequentemente, menos reativa às atividades em sala de aula.

Um traço comportamental muitas vezes presente nessas crianças é perguntar repetidamente uma mesma coisa óbvia, não por que não sabem a resposta, e sim para ouvirem repetidamente a mesma coisa, pois repetições as acalmam pela previsibilidade da resposta. Podem variar a utilização desse recurso dependendo do estado de ânimo do dia e do quanto dominam a atividade, intercalando a busca pela repetição com a irritação de que lhes digam muitas vezes a mesma coisa. O professor não deve se espantar ou se magoar ao ouvir o aluno com Asperger dizer, no auge da expressão de sua honestidade: “Você já disse isso!” O professor precisa ter muita paciência e relevar as inconstâncias típicas do autismo, lembrando que é difícil para essas crianças compreenderem que as outras pessoas não sabem como elas estão se sentindo naquele momento, se elas não comunicarem isso ao outro, e lembrando, ainda, que as crianças com autismo têm dificuldade em compreender o impacto de falas ou ações delas sobre os outros.

Crianças com Asperger são inseguras socialmente e percebem que têm diferenças, então focam sua autoestima onde estão suas maiores capacidades, ou seja, no campo intelectual. Além disso, a tendência ao perfeccionismo acentuado e a rigidez de pensamento comuns nessas crianças fazem com que tenham um receio excessivo de errar, outro motivo pelo qual lhes é importante terem sua capacidade intelectual reconhecida.

Nossas crianças são nosso futuro. Cada qual traz consigo uma sementinha única para o jardim da humanidade, que prospera da união, e das diferenças, que enriquecem o nosso mundo e possibilitam novos caminhos. Nós precisamos que pessoas com a Síndrome de Asperger tragam novas perspectivas para os problemas de amanhã, pois elas podem não enxergar tudo o que vemos, mas certamente enxergam coisas que quem não vê somos nós.

2 comentários sobre “O professor – personalidade e compreensão do quadro de Asperger como peças-chave para o progresso no aprendizado

  1. Mais uma vez, parabéns pelo texto! As minhas relações com os meus professores sempre foram importantes: especialmente no final do Ensino Fundamental e no Ensino Médio, eles foram praticamente as únicas pessoas com as quais eu me relacionava na escola. Hoje eu estou no Ensino Superior e sinto que a situação não mudou muito, embora eu sempre tente manter uma relação menos íntima com eles. Acho que a forma como o professor lida comigo é muito importante, mas eu não gosto de professores que tentam ser engraçados o tempo todo ou que ficam fazendo muitas brincadeiras. Enfim, é algo que eu vou carregando comigo e acho que vou ser assim pelo resto da minha vida. Fico feliz pelo seu trabalho de conscientização!

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    • Obrigada por seus elogios e também por seus comentários, sempre interessantes. Entendo você perfeitamente. Sobre os “professores excessivamente felizes”, tem essa outra frase, também de Schopenhauer: “Quanto mais elevado é o espírito, mais ele sofre.” E eu complemento: Podemos, portanto, supor que o contrário seja igualmente verdade.

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