Síndrome de Asperger – O que é

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Por Audrey Bueno

A síndrome de Asperger (pronuncia-se “ÁS-per-guer”, por ser a forma usual em inglês, idioma de onde vem a maior parte da literatura sobre o assunto, mas “as-PÉR-guer” também é correto, por ser a forma original de pronúncia – alemã – do nome) é um transtorno do desenvolvimento, de base neurológica, genética, sendo considerado um tipo de autismo (existem ao menos 5 tipos, todos variando em grau de severidade e sintomas apresentados), porém a última edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais, o DSM-V, lançada em 2013, passou a utilizar uma única nomenclatura para todos os subtipos, englobando todos eles, que é “Transtorno do Espectro do Autismo”, classificando-os apenas quanto ao nível de severidade, visando simplificar a linguagem médica acerca da ampla variação do autismo. Até sua nona edição, que vigorou até 2016, o CID – que é outro manual de Classificação Internacional de Doenças amplamente utilizado pela área médica, em especial na Europa, e o mais utilizado no Brasil, manteve a nomenclatura de Síndrome de Asperger dentro dos quadros de autismo de alto funcionamento, mas em sua 10ª edição (CID-10), lançada em 2017, acabou optando por uma reformulação de nomenclatura similar à encontrada no DSM.

Muitos pesquisadores e profissionais da saúde sustentam a visão de que a síndrome de Asperger e o autismo sejam duas condições distintas. No entanto, atualmente, a visão mais aceita é a de que Asperger seja uma forma leve de autismo, considerada um “autismo de alto-funcionamento”, termo empregado quando o grau de severidade é baixo, causando pouco prejuízo ao funcionamento do indivíduo em comparação a casos mais severos, como os dos autistas não-verbais, por exemplo, em que o elevado grau de severidade causa enorme prejuízo funcional, e cujo termo correspondente é “autismo de baixo-funcionamento”.

É importante observar que quando falamos em “autismo leve”, as pessoas tendem a achar que o indivíduo “não tem praticamente nada”. O que escapa às pessoas é o fato de que a classificação entre leve, moderado e severo é feita em comparação aos portadores de autismo entre si, e não em relação às pessoas sem autismo.

Desse modo, a perspectiva muda. As dificuldades existentes, mesmo na parte mais leve do espectro, afetam significativamente a vida do indivíduo, causam sofrimento e justificam a necessidade de algumas  adaptações que atendam suas necessidades especiais.

Estima-se que 1% da população mundial tenha autismo e cerca de 0,3% tenha a síndrome de Asperger. Antes da síndrome de Asperger ganhar reconhecimento oficial em 1994, estudos contavam somente o autismo de um modo geral, estimando cerca de 4 casos a cada 10.000 pessoas. Em 2006, novas estimativas traziam diferenciações e apontavam cerca de 20 casos de autismo leve, dentre eles Asperger, em cada 10.000 indivíduos, enquanto que o autismo clássico era estimado em 3 ou 4 casos a cada 10.000 indivíduos.

Embora números precisos ainda sejam impossíveis de serem obtidos, tais estudos mostram que o autismo leve tem prevalência quatro ou 5 vezes maior que casos mais severos de autismo. Apenas uma parte dos casos de autismo leve se trata de Síndrome de Asperger, e tem havido ainda muita confusão nesse sentido, especialmente por tratar-se de uma síndrome ainda pouco conhecida pela própria área médica.

Pesquisas feitas em 2015 observaram um aumento de 123% na detecção de casos de autismo nos últimos 10 anos, mas especula-se que a causa desse aumento não se deva necessariamente a um maior número de indivíduos acometidos, e sim a uma maior conscientização e consequente capacidade de reconhecimento da sintomatologia do autismo, tanto pela população geral como pela própria comunidade médica, pois pesquisas recentes têm demonstrado como é grande a variação de sintomas, bem como de seus níveis de severidade, introduzindo o conceito de “espectro”.

Assim, diferentemente do que ocorria no passado, casos mais leves, que por muitos anos passaram despercebidos ou permaneceram encobertos por diagnósticos imprecisos e inadequados (como Transtorno Bipolar, Transtorno Borderline, TOC, dentre outros), são agora reconhecidos, fazendo com que muito mais pessoas sejam identificadas como pertences ao espectro autista.

O autismo é conhecido pelas sigla ASD – Autistic Spectrum Disorder, em inglês, e pela sigla TEA – Transtorno do Espectro Autista, em português. Trata-se de um distúrbio do desenvolvimento inserido como subcategoria dentro de uma classe mais ampla de distúrbios, conhecida como TID – Transtornos Invasivos do Desenvolvimento. O autismo geralmente surge nos primeiros três anos de vida da criança e meninos são quatro vezes mais afetados que meninas.

“De acordo com o DSM, o autismo refere-se a um transtorno no qual a pessoa manifesta as seguintes características: prejuízos na interação social, problemas de comunicação e atividades e interesses repetitivos, estereotipados e limitados. ”(Whitman, 2015)

Ou seja, o autismo atinge principalmente três áreas do desenvolvimento:

• Interação social

• Comunicação

• Comportamento

O autismo é frequentemente chamado de síndrome porque é composto de um conjunto de características, e não por um único sintoma. Para ser diagnosticada como autista, a pessoa deverá apresentar déficits nas 3 áreas acima listadas e ao menos 6 dos sintomas descritos no DSM – manual médico internacional de doenças – antes dos três anos de idade.

Os sinais de autismo clássico começam bem antes dos sinais da síndrome de Asperger e a criança pode receber o diagnóstico aos 2 anos ou dois anos e meio de idade, enquanto que os sintomas de Asperger, bem menos aparentes, costumam ser observados apenas quando a criança inicia a pré-escola, aos 3 ou 4 anos de idade, ou, em muitos casos, ainda mais tarde.

É muito comum que crianças com a síndrome de Asperger passem pelos primeiros anos escolares sem um diagnóstico, que quase sempre é obtido apenas quando os sinais de dificuldade social se tornam evidentes, em torno dos 6 ou 7 anos de idade. No entanto, para um observador mais perspicaz, aos 3 anos já se notam muitos sintomas, especialmente após o ingresso na pré-escola, que é quando a interação com os colegas de mesma idade pode ser melhor percebida.

“As estimativas são de que 10% dessas crianças recebam o diagnóstico aos 4 anos, 50% entre 5 e 10 anos, 20% entre 10 e 12 anos e os 20% restantes somente após a adolescência. “ (Marie Hartwell-Walker)

É incrível que tais crianças cheguem à adolescência sem um diagnóstico, pois apresentam características muito peculiares desde a primeira infância.

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No entanto, como um breve contato no consultório do médico muitas vezes não é suficiente para que se observem os comportamentos habituais da criança e existe a crença popular de que “mães exageram nas preocupações”, o médico não raro ouve o que a família relata com certo desdém.

Alguns profissionais menos preparados recusam “energicamente” a possibilidade da criança ter autismo e outros chegam até mesmo a rir das preocupações trazidas à consulta pelos pais, o que pode resultar no assunto sendo varrido para debaixo do tapete por anos a fio, causando enorme prejuízo à criança e família, que acabam recebendo o auxílio necessário muito tardiamente. Infelizmente, esses tipos de relato são muito comuns nas famílias cujos filhos mais tarde foram diagnosticados no espectro do autismo.

 

A Criança com Síndrome de Asperger

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“Para muitas pessoas, num primeiro momento, uma criança com síndrome de Asperger não parecerá diferente de qualquer outra, mas um olhar mais atento revelará que não é exatamente assim. As crianças com Asperger são socialmente atípicas de maneiras difíceis de entender. Elas geralmente têm interesse obsessivo em um assunto específico, dificuldade em compreender as nuances de interação social, bem como as emoções de si próprias e dos outros, pensamento rígido e metódico, com a presença de comportamentos repetitivos e ritualísticos, além de sensibilidade sensorial excessiva a estímulos tais como sons, roupas ou alimentos, por exemplo.” (CAMARGOS, Walter Jr., 2013)

Movimentos estereotipados (como balançar-se para frente e para trás ou abanar as mãos no ar) são bem menos frequentes que no autismo clássico (e mesmo neste, a estereotipia é geralmente proporcional ao grau de severidade, quanto mais severo, mais estereotipias).

Crianças com síndrome de Asperger têm inteligência normal ou acima da média. São comuns quadros de superdotação intelectual associados à síndrome, configurando um termo diagnóstico ainda pouco difundido: Dupla Excepcionalidade.

Das três principais áreas afetadas pelo autismo (interação social, comunicação e comportamento), a comunicação é a menos afetada em crianças com síndrome de Asperger. Estas crianças não apresentam qualquer atraso de linguagem ou problema com a articulação da fala em si, e muitas delas são inclusive precoces na aquisição da fala, tendo um vocabulário mais avançado e até mesmo sofisticado em relação ao esperado para a faixa etária, o que inclusive impressiona os adultos.

Porém, elas têm problemas com o uso da linguagem pragmática (linguagem social e contexto), o que se traduz por dificuldade em dizer “oi” ou “tchau”, não saber respeitar turnos numa conversa, dizer coisas sem sentido para o contexto ou responder ao que lhe é perguntado de maneira inadequada, por exemplo.

Muitas também têm problemas com a linguagem semântica, que se refere ao significado e interpretação das palavras em seus vários sentidos, o que as faz ter uma compreensão literal de piadas, expressões ou figuras de linguagem, por exemplo, ou interpretar erroneamente o sentido de um texto ou história. Ouvir que “o gato comeu a língua de alguém” pode gerar pânico e ouvir a música infantil “atirei o pau no gato” pode causar horror e indignação.

Algumas pessoas com Asperger podem apresentar uma alteração do ritmo e entonação da fala, de forma que as outras pessoas tenham a impressão da fala ser excessivamente formal ou estranha.

 

Os Vários Tipos de Autismo

Os tipos de autismo são:

Transtorno Autista – termo mais amplo, quase sempre utilizado para referir-se ao autismo clássico, e que pode se manifestar de forma leve, moderada ou severa. É geralmente o tipo a que o termo “autismo” mais se refere. Cerca de 70% dos indivíduos nessa categoria têm algum grau de atraso mental e em torno de 50% nunca desenvolvem a fala.

Transtorno de Rett – nesse tipo, apenas meninas são afetadas e o quadro geralmente é severo. Na verdade, esse transtorno já foi removido do escopo do autismo por manuais médicos mais recentes, ou seja, tornou-se um transtorno à parte, não mais pertencente ao espectro do autismo, mas alguns profissionais ainda podem referir-se a esse transtorno autista. Estima-se que em cerca de 50% das meninas brasileiras afetadas pela Síndrome de Rett, o diagnóstico clínico seja equivocado. O diagnóstico equivocado de grande parte dessas meninas é dado como sendo autismo.

Transtorno Desintegrativo da Infância – difere do autismo clássico por haver desenvolvimento normal até os 2 anos, para somente a partir de então apresentar regressão.

TID-SOE (PDD-NOS, em inglês) – Transtorno Invasivo do Desenvolvimento – Sem Outra Especificação – é a nomenclatura empregada nos casos em que a criança apresenta diversos sintomas autistas, geralmente de maior gravidade, mas o aparecimento dos mesmos é tardio e não preenchem todos os critérios convencionais do autismo. Algumas vezes, essa categoria acaba sendo indevidamente aplicada aos diagnósticos quando a sintomatologia apresentada pela criança é atípica e de difícil inserção nas demais classificações.

Síndrome de Asperger – difere do autismo clássico por não haver prejuízo intelectual ou de linguagem e ser sempre de grau leve, havendo, no entanto, prejuízos significativos especialmente nas esferas social e ocupacional. É muito comum que pessoas com Asperger sejam portadoras de “dupla excepcionalidade”, termo que se refere à presença de alto QI, no nível de superdotação, associado à síndrome.

Embora a síndrome de Asperger seja uma forma de autismo, é um quadro muito diferente do autismo clássico, que é o tipo que a maioria das pessoas conhece. Por isso, inclusive, é comum que a primeira reação das pessoas seja não acreditar que a criança tenha autismo, afinal, existe uma associação equivocada do senso comum que acha que pessoas com desordens mentais tenham necessariamente atraso mental e aspectos físicos evidentes de problemas, que são justamente coisas que crianças com Asperger não têm. Crianças com autismo podem não só ser muito inteligentes, como também possuem traços físicos absolutamente normais, ou seja, dificilmente se percebem as dificuldades da criança em contatos mais rápidos e superficiais, pois a sintomatologia não é óbvia.

“Apesar de fazer parte do espectro autista, a Síndrome de Asperger possui características bastante diversas do autismo”. (Walter Camargos Jr., psiquiatra – 2013)

 

O Conceito de Espectro do Autismo

Atualmente, o termo autismo tem sido cada vez mais compreendido em termos de “espectro” devido à ampla gama de variações que a condição pode apresentar. É como dizer que diversas coisas diferentes estariam unidas por um mesmo fio condutor ou, numa outra analogia, dizer que cada um dos números de uma régua equivaleria a um perfil de autismo diferente.

Espectro, portanto, é o termo usual, pois é uma palavra que designa as “nuances” de um elemento, assim como se vê no espectro de cores, que vai do violeta, passando pelo azul, verde, amarelo, laranja, até o vermelho, em suas infinitas tonalidades, sem que seja possível determinar exatamente onde começa uma cor e termina outra. Cada uma dessas cores poderia representar, de forma análoga, as infinitas variações existentes no espectro autista, indo da forma mais suave à forma mais severa de dificuldades e comprometimentos, sem que haja uma clara linha divisória entre essas variações.

Ainda utilizando a analogia do espectro de cores, se pensarmos apenas em termos de severidade do quadro – desconsiderando as variações existentes quanto à sua natureza –, a Síndrome de Asperger estaria na área violeta-azulada, representando o lado leve do espectro, enquanto o autismo clássico, em suas manifestações mais severas (tais como prejuízo ou ausência da fala, deficiência intelectual ou movimentos estereotipados, por exemplo), estaria na área laranja-avermelhada, que representaria o extremo oposto do espectro.

Símbolo do infinito em arco-íris: representa a diversidade dentro do espectro autista

 

Existem 3 níveis de severidade no autismo, sendo 1 o mais leve, 2 o nível médio/moderado e 3 o grau mais severo. O termo técnico aplicado à Síndrome de Asperger nos manuais médicos antes da reformulação que agora a unificou ao espectro do autismo como um todo era: Desordem do Espectro Autista de Nível 1, sem a presença de prejuízos intelectuais ou verbaisSíndrome de Asperger. Tal adendo (sublinhado) deixará, portanto, de ser utilizado, bem como seu código no CID: F84.5.

Apenas lembrando, O CID (sigla para o manual de Classificação Internacional de Doenças) é um sistema de classificações usado pela área médica em geral que fornece um código que ajuda a descrever e especificar exatamente a qual patologia o médico se refere ao emitir um documento diagnóstico. Convênios, por exemplo, sempre exigem que o médico coloque o código do CID em laudos médicos para sua completa validação.

Assim, quaisquer subtipos do espectro do autismo serão classificados de forma genérica como sendo todos pertencentes aos “Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGO)” ou “Transtornos do Espectro do Autismo (TEA)”, duas nomenclaturas para a mesma coisa – sob um único código no CID: F84. As classificações de variações serão somente quanto à severidade: Níveis 1, 2 e 3.

 

Mitos e Estereótipos

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Existem muitos mitos sobre o que seja, de fato, o autismo. A mídia contribuiu para divulgar uma imagem da pessoa autista que pouco tem a ver com a realidade, e que mostra características pertencentes apenas a um pequeno grupo de pessoas com o transtorno, como é o caso do filme Rain Man (de 1988, com Dustin Hoffman e Tom Cruise), que retrata um caso mais raro de autismo conhecido como Síndrome de Savant, em que existe uma super habilidade intelectual aliada a um déficit de inteligência significativo, como é o caso de pessoas que podem fazer cálculos absurdamente difíceis em segundos ou memorizar toda a lista telefônica, por exemplo, mas têm grande dificuldade em lidar com as coisas mais simples do dia a dia, como amarrar os sapatos ou preparar uma xícara de chá, e estão geralmente na extremidade mais severa do espectro. Esse quadro tão amplamente difundido pela mídia corresponde a menos de 10% dos casos de autismo.

A indústria do entretenimento, com seu caráter sensacionalista, tem preferência por retratar apenas os casos mais severos de autismo, em que a pessoa apresenta comportamentos impactantes, e é esse tipo de panorama que constitui o que a maioria das pessoas acabará conhecendo sobre autismo.

Assim, as pessoas acreditam em estereótipos, ou seja, em falsas ideias do que seja o transtorno autista, como, por exemplo, que indivíduos que estejam no espectro do autismo não sejam capazes de estabelecer contato visual, não gostem de contato físico, como o beijo ou o abraço, não façam faculdade, não casem e nem tenham filhos ou um emprego. Imaginam que a pessoa com autismo passe a maior parte do tempo abanando as mãos num canto da sala, esteja completamente alheia ao mundo à sua volta e tenha atraso mental grave. Embora isso aconteça em um certo número de casos e tristemente mais da metade das pessoas com autismo apresente algum grau de atraso mental, tal descrição não corresponde à realidade muitas vezes, principalmente quando se trata da extremidade leve do espectro.

Esses estereótipos e mitos difundidos pela mídia, aliados à falta de informação de uma condição que só agora começa a ser melhor estudada, compreendida e disseminada, estão por trás de frases como “Essa criança não pode ser autista!” ou “Essa criança não tem nada, isso é coisa da sua cabeça! ”, frases que pais de crianças com autismo (principalmente se o filho estiver no lado leve do espectro) ouvem com muita frequência, infelizmente, às vezes, do próprio médico que, se não for um especialista no assunto – como muitas vezes não é – , acaba não sendo capaz de reconhecer os sinais menos óbvios do transtorno, adiando, assim, o auxílio de que aquela criança tanto necessita. As preocupações desses pais são tratadas com descrédito não só pelos próprios médicos, mas também por familiares e escola, ou seja, a falta de informação e a crença em estereótipos dificultam o reconhecimento do quadro.

 

Interpretações Errôneas do que as Pessoas Veem

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As pessoas interpretam muita coisa de forma equivocada e se fixam na própria percepção acreditando ser esta a verdade absoluta, julgando rápido sem procurar observar melhor.

É comum que os avós (e outras pessoas) que já criaram vários filhos digam que a criança é apenas geniosa, tímida ou até mesmo mimada, não raro culpando os pais pelo comportamento da criança. Não é difícil classificarem a seletividade alimentar da criança como “frescura” e falha dos pais na educação, o não querer enturmar-se com as crianças da mesma idade como “timidez”, as birras como “gênio forte”, as sensibilidades múltiplas como “manha”, o brincar repetitivo, sempre da mesma coisa, como “gostar muito de tal brincadeira” e os (muitos) momentos em que a criança não responde quando chamada como “estar muito distraída com o desenho ou brinquedo”.

Na tentativa de dar sentido ao comportamento que observam, algumas pessoas podem achar que a criança tenha sofrido algum tipo de trauma que explique as reações emocionais exageradas, a dificuldade de interação social, a evitação ou hipersensibilidade ao toque e mesmo os comportamentos de autoagressão (em que a criança machuca a si mesma, batendo a cabeça na parede, cutucando a própria pele, se mordendo, se arranhando, etc.), que são, na verdade, todas características comuns no autismo.

A escola, por sua vez, tenderá a achar que não existem motivos para maiores preocupações. Poderão reconhecer o comportamento da criança como excêntrico, reservado, egoísta ou mesmo excessivamente sensível (“mimado” ou “manhoso” são adjetivos frequentemente usados pelos funcionários da escola), mas, ao mesmo tempo, tais características não serão vistas como reais problemas, uma vez que o rendimento acadêmico esteja a contento (comum no autismo leve, uma vez que a inteligência não é afetada), não haverá queixas de mau comportamento e a criança quase sempre será percebida como bastante inteligente, o que geralmente passa a impressão de estar “tudo ótimo”.

Além do mais, o relacionamento social da criança com Asperger tende a ser bastante satisfatório com os adultos, de forma que não classifiquem a criança como tendo “problemas de interação social”, ao menos não na primeira infância, até que essa dificuldade social se torne óbvia por volta dos 6 ou 7 anos, que é geralmente quando a escola percebe que algo está errado, pois a discrepância entre o comportamento social de crianças com o transtorno será notoriamente diferente do das crianças sem o transtorno.

Outro ponto falho na compreensão da interação social da criança com Asperger é que, diferentemente o estereótipo popularmente aceito, essa criança não necessariamente ficará isolada dos colegas o tempo todo, como se imagina que uma criança autista o faça. É frequente que desejem interação social, embora geralmente um a um (e não em grupos), mas estar junto não é sinônimo de boa interação social. É preciso observar a qualidade dessa interação. Crianças com Asperger têm enorme dificuldade em compartilhar um brinquedo, ceder a vez numa brincadeira, buscam sempre liderar e monopolizar, querendo que a outra criança brinque como elas impõem que seja e apenas com as coisas relacionadas ao seu foco de interesse, algo muitas vezes excessivamente repetitivo e desinteressante para os colegas, além de poderem reagir agressivamente quando contrariadas.

Mais um fator que dificulta a percepção do quadro pela escola é que a maior parte dos rituais (“manias”) e comportamentos repetitivos que a criança apresenta estão vinculados ao ambiente do lar, ou seja, a maior parte desse tipo de comportamento acontece em casa, longe dos olhos da escola. No entanto, o professor, que é quem passa mais tempo com a criança na escola, é a pessoa mais propensa a perceber certas repetições no comportamento.

Uma vez que a criança esteja no lado leve do espectro, não apresentará os sinais clássicos mais evidentes de autismo. Se houver outras crianças com autismo ou outras necessidades especiais na escola, como é comum, a comparação será imediata, e se o grau de severidade de comprometimentos dessas crianças for maior que o da criança com Asperger, o que é quase sempre o caso, pois crianças portadoras de necessidades especiais mais severas tendem a apresentar problemas acentuados na fala, locomoção ou déficits no intelecto, problemas esses que a criança com Asperger não tem, a criança com Asperger tenderá a receber muito menos auxílio, pois o quadro dela sempre parecerá muito menos grave.

É comum nesse contexto que a criança com Asperger acabe desenvolvendo fobia escolar e fobia social, que a impeça de frequentar a escola. O número de famílias de crianças com Asperger e outras formas de autismo que optam por homeschooling (ensino em casa) é significativo, denunciando o despreparo das escolas em atender as necessidades especiais dessa população.

Sem dúvida, a menor gravidade e consequente menor necessidade de auxílio é verdade em muitos aspectos, mas não podemos nos esquecer que a criança com Asperger, quando comparada às crianças sem qualquer transtorno, terá sempre um déficit com potencial para causar problemas consideráveis, sendo também portadora de necessidades especias. São problemas significativos, embora de natureza diferente.

Quanto mais nova a criança, mais difícil pode ser a detecção dos sinais, pois muitas de suas excentricidades serão explicadas sob a ótica da “idade”. Os pais ouvirão que crianças de 3 anos fazem muitas birras mesmo, que algumas não dividem seus pertences, que são tímidas, que choram muito, que também são apegadas a um objeto especial, que podem ter certas manias, que podem ter dificuldade no desfralde e que não compreendem o mundo social e não utilizam a comunicação adequadamente.

Até certo ponto, isso não deixa de ser verdade, afinal, a linha divisória entre desenvolvimento típico e atípico nunca é tão óbvia ou bem demarcada, e crianças típicas podem apresentar um ou outro comportamento desadaptativo, sem que necessariamente tenham algum distúrbio, assim como crianças com algum distúrbio certamente apresentarão muitos comportamentos típicos, ou seja, de crianças sem qualquer transtorno ou síndrome.

Assim, o fator determinante para estabelecer a existência de um distúrbio do desenvolvimento como o autismo, geralmente está na intensidade e duração do comportamento.

Uma criança com desenvolvimento típico (saudável) pode cismar em brincar de passar uma bolinha por uma argola por alguns dias a fio, ou mesmo ter um interesse acentuado por dinossauros, por exemplo, mas certamente aceitará brincar também de bola ou carrinho com os colegas e rapidamente substituirá a brincadeira da argola com a bolinha por alguma outra coisa em breve. Porém, uma criança no espectro autista poderá brincar com a argola e a bolinha por meses ou anos, recusando outras brincadeiras ou mesmo demonstrando irritação quando os colegas não desejam brincar do que ela quer.

O interesse específico que certamente possuirá (como dinossauros, trens ou mapas, por exemplo) possivelmente alcançará níveis exagerados, de forma que só fale disso o tempo todo e se feche para qualquer outro assunto que não seja o seu interesse central, isolando-se, assim, do grupo ou sendo isolada por ele.

Uma criança típica manifestará crises de birra por não ganhar um brinquedo que gostaria ou por ter que encerrar a partida de videogame para fazer a lição de casa, mas uma criança atípica poderá manifestar uma birra muito mais duradoura e potente frente a um estímulo muito menor, e com muito mais frequência, por motivos que muitas vezes não são compreendidos do ponto de vista das outras pessoas, como, por exemplo, ter uma explosão emocional porque a pontinha da folha de papel amassou, o tênis saiu do pé, alguém colocou a caneta que ela estava usando 10 centímetros mais para a direita ou guardou o estojo de lápis do lado errado da mochila.

Como é possível perceber, a falta de informação pode gerar inúmeras suposições equivocadas e ser muito prejudicial, tanto para a criança, quanto para a família, pois ambos necessitam de muito apoio e compreensão.

O trabalho com a escola precisa ser muito bem discutido, pois muitas das abordagens típicas com crianças para os problemas comuns da infância poderão agravar o quadro da criança com Asperger. A abordagem “linha dura” é uma bomba para essas crianças e não só não resolve a maioria dos problemas que apresentam, como ainda serve de pólvora para a explosão e desestruturação interna.

Os muitos rituais e exigências que apresentam são, na verdade, recursos psíquicos para lidar com os déficits de sua condição, pois o que a maioria dos coleguinhas vai experimentar como divertido ou agradável, será fonte de grande incômodo para a criança com Asperger, que passará boa parte do período na escola tentando administrar o caos interno silencioso em que está imersa. É preciso reconhecer os “gatilhos” que disparam suas angústias e provocam stress e tentar adaptar o ambiente o quanto for possível para minimizar o surgimento de situações que desestabilizem a frágil organização interna dessa criança. Tais cuidados são fundamentais para que se garanta um melhor rendimento acadêmico e convívio social, evitando que a criança com Asperger se feche perigosamente numa bolha.

 

Crianças com Autismo Serão Adultos com Autismo

Indivíduos com autismo leve enfrentam inúmeras dificuldades no dia a dia. Como tais adversidades não são óbvias, eles acabam passando longe do radar diagnóstico, e muitos nunca chegam a receber um. Não é incomum que até mesmo as pessoas de convívio próximo sequer imaginem que aquele indivíduo esteja no espectro autista, e, muitas vezes, a própria pessoa, já adulta, desconhece sua condição.

Essas pessoas não diagnosticadas são, com frequência, taxadas de excêntricas, complicadas, estranhas, alienadas, emocionalmente instáveis, imaturas, desorganizadas, desatentas, distantes, frias, rudes, preguiçosas, antissociais, egoístas ou “cheias de frescura”, e mais uma infinidade de outros rótulos morais injustos gerados pela incompreensão, intolerância e falta de informação. As dificuldades são muitas: empregos e relacionamentos são afetados, a sensação de isolamento e não pertencimento oprime, a batalha contra os transtornos de ansiedade é árdua, o sentimento de culpa, desconforto, insatisfação crônica e depressão são desafios constantes.

O indivíduo que tem autismo leve vive um paradoxo, uma contradição, pois o fato de sua condição não ser evidente para os demais gera uma faca de dois gumes: por um lado, a não obviedade dos sintomas certamente tem suas vantagens; por outro, o sofrimento que ele pode vir a enfrentar, especialmente se não tiver o apoio necessário, certamente não deverá ser classificado como leve.

Como seus problemas não são facilmente percebidos pelos outros, este indivíduo poderá não contar com a compreensão alheia quando tanto precisa. Será cobrado por um desempenho típico (de pessoas sem um transtorno) e julgado – em vez de compreendido – por seus aspectos atípicos e consequente dificuldade no cumprimento dos papéis que lhe são atribuídos.

O mesmo vale para as crianças, que antes de se tornarem esses adultos, sofrem com as questões pertinentes à sua faixa etária. São deixadas chorando por horas na escola, não têm suas peculiaridades respeitadas ou mesmo percebidas, são chamadas de mimadas e frescas (principalmente quanto à alimentação, pois crianças com autismo têm acentuada seletividade alimentar, o que dificulta aceitarem variedades de alimentos ou modos de preparo), são forçadas a situações difíceis – especialmente as sociais – , como recreios em pátios lotados e barulhentos (duas coisas que assustam bastante a criança com Asperger) ou aulas de educação física, tornando seu dia-a-dia um terror sem fim, o que pode ser muito perigoso, pois o risco de agravamento dos problemas aumenta exponencialmente.

Esse material tem como principal objetivo contribuir para a divulgação de informação, pois uma sociedade mais justa, desenvolvida e que acolha seus integrantes depende sobretudo do conhecimento, pois entendimento gera empatia, e empatia gera amor, respeito e tolerância, que são as coisas que mais necessitamos nos dias atuais.

Pessoas com autismo merecem ser compreendidas, não somente por serem humanos assim como nós, com suas forças e fraquezas, mas também por que geralmente são pessoas que têm bondade no coração, que são capazes de sentir amor e compaixão, e que são, quase sempre, incompreendidas e vítimas de julgamentos injustos.

“Pessoas com autismo certamente têm muito a ensinar ao nosso conceito de ‘normalidade social’. ”  Audrey Bueno

Enquanto indivíduos com autismo foram descritos como “vivendo em um mundo próprio”, como se outros não existissem, aqueles com Asperger foram descritos como “vivendo em nosso mundo, à sua maneira”. (Extraído do livro “Aprendizagem, Comportamento e Emoções na Infância e na Adolescência – Uma Visão Transdisciplinar” – Elisabete Castelon Konkiewitz (Org.) editora UFGD, 2013)