Estratégias para Facilitar o Desempenho Escolar de Crianças no Espectro do Autismo

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Introdução e Tradução de Audrey Bueno – Graduada em Psicologia e Tradutora nas áreas de Psicologia, Psiquiatria e Neurociências.

O texto a seguir é a tradução livre de um trecho do livro THE AUTISM DISCUSSION PAGE: ON ANXIETY, BEHAVIOR, SCHOOL AND PARENTING STRATEGIES (PÁGINA DE DISCUSSÃO DO AUTISMO: ANSIEDADE, COMPORTAMENTO, ESCOLA E ESTRATÉGIAS PARA OS PAIS), de Bill Nason. (p. 250-252)

As estratégias trazidas pelo autor são direcionadas aos professores, bem como aos pais, que costumam oferecer apoio importante no aprendizado dos filhos. Embora o texto tenha sido desenvolvido para crianças no espectro do autismo, acredito que as dicas aqui contidas possam beneficiar também crianças sem autismo que apresentem TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada), TOD (Transtorno Opositor Desafiador) ou dificuldades de aprendizado diversas, o que inclui crianças com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), lembrando que todas essas condições são comorbidades frequentes no TEA (Transtorno do Espectro do Autismo). Para saber mais sobre as comorbidades no autismo, clique aqui.


Aumentando motivação e aprendizado

Por Bill Nason

Tradução de Audrey Bueno

Uma das maiores frustrações para professores e pais é tentar ensinar crianças que tenham pouca motivação para o aprendizado. Elas geralmente parecem não ter a motivação natural em aprender como a da maioria das crianças neurotípicas. Na realidade, não falta motivação para aquilo que elas valorizam. A maioria das crianças neurotípicas é motivada pelo elogio dos outros, levando-as a aprender para agradarem as outras pessoas, para as imitarem e serem como elas. O aprendizado é muito socialmente embasado e socialmente motivado. Para muitas crianças no espectro, o conceito de agradar o outro é geralmente estranho a elas. Ou, caso se sintam motivadas por elogios, elas têm dificuldade em associar o que fazer para consegui-los.  Elas são geralmente mais motivadas por coisas que tenham valor concreto, do que em aprender algo porque uma outra pessoa deseja que o façam. Então, ao ensinar, precisamos ser concretos sobre como esse aprendizado se aplica a estas crianças e o que elas valorizam.

Para maximizar a motivação e o aprendizado:

  1. Use seus interesses intrínsecos. Tente construir novos conceitos em torno dos interesses atuais da criança (lego, vídeos, histórias, trens, etc.). Quando se trata de seus interesses específicos, elas são motivadas e focadas.
  2. Construa o aprendizado a partir de seus pontos fortes. Como todas as outras crianças, elas se sentirão mais motivadas se você começar a partir dos pontos fortes delas. Geralmente, focando em seus pontos fortes em vez dos fracos, o ensino se torna mais fácil, elas se sentem mais competentes e o aprendizado se torna interessante. Se a criança é boa em desenhar, então proponha que ela desenhe muitos dos conceitos que você está tentando ensinar.
  3. Faça o novo aprendizado diretamente conectado ao aprendizado anterior. Sempre construa o aprendizado a partir do que a criança já conhece, para que ela possa facilmente associar o material a conceitos já estabelecidos. A criança se sentirá menos motivada em aprender material que não tenha importância ou referência sólida para ela. Se não for material que valorizem, estas crianças terão muita dificuldade em enxergar a relevância e o porquê de terem que aprender aquilo. Então, sempre amarre conceitos mais abstratos a pontos concretos de referência que tenham significado para elas. Não pressuponha que façam tal conexão por si mesmas.
  4. Contextualize o novo aprendizado de forma que possam vê-lo com clareza. Ao incorporar um novo conceito a uma atividade, é preciso destacar o novo aprendizado de modo que a criança possa enxergá-lo. Não suponha que a criança o capte por si só. Se eu estiver tentando ensinar “similar, mas diferente”, então eu preciso salientar como algo é similar, ou como é diferente, de modo que fique evidente para que vejam.
  5. Deixe a criança liderar, e a ajude enquanto isso. Algumas crianças no espectro têm ansiedade muito elevada quanto a seguir o controle de outra pessoa. Elas precisam liderar e controlar a atividade para que se sintam confortáveis. Para essas crianças, deixe-as liderar ao mesmo tempo em que oferece apoio ao contextualizar e ir indicando os passos da atividade para ressaltar o novo aprendizado.
  6. Deixe que a criança determine o ritmo da atividade ou novo aprendizado. Crianças no espectro resistirão à informação ou tarefa que lhes esteja sendo direcionada muito rapidamente. Muitas têm dificuldade de processamento e se sentem sobrecarregadas se a informação ou as ações vierem depressa demais. Reduza o passo, quebre a tarefa em mais partes, e deixe que sigam no tempo delas.
  7. Adapte sua forma de ensinar ao estilo de aprendizado da criança. Se forem aprendizes mais visuais, então proporcione informações visualmente (por escrito ou com figuras que ajudem na demonstração). Se forem mais cinestésicas (precisam que seja fisicamente palpável, concreto), então use projetos manuais para ensinar o novo conteúdo. Muitas crianças no espectro do autismo têm problemas de processamento auditivo, então instruções verbais costumam ser difíceis para elas.
  8. Evite colocá-las em evidência. Muitas crianças no espectro têm forte ansiedade de realização de tarefas e resistem a quaisquer atividades que as coloquem em posição de destaque/observação enquanto as desempenham. Para estas crianças, você pode reduzir esta ansiedade ao fazer a tarefa junto com elas, guiando-as enquanto também participa da atividade, para otimizar suas chances de sucesso. Aprender a realizar as tarefas para elas consiste em ir gradualmente decrescendo a assistência. (Portanto, situações-teste com frases como “Agora faz você sozinho para eu ver se você sabe”, “Tente fazer sozinho primeiro e depois eu venho te ajudar no que você não souber” (tendem a nem querer tentar e podem desenvolver fobia da atividade) ou “Conte pros colegas o que você fez outro dia” não são boas opções; em contrapartida, dizer coisas como “Você me ajuda a fazer essa atividade?”, “Será que consigo fazer sozinha?” ou “Obrigada por me ajudar!”, quando o professor ‘simula’ não saber tanto assim e dá à criança a sensação de liderança, podem ser opções úteis; nota do tradutor.)
  9. Recompense o novo aprendizado. Para atividades que tenham pouco valor dentro dos interesses da criança, construa recompensas adicionais. Por exemplo, dê à criança acesso a uma atividade preferida após a tarefa de novo aprendizado; primeiro complete esta folha e então você poderá brincar no computador. Para o ambiente escolar, gosto de utilizar um “quebra-cabeças motivador” (“reinforcer puzzle”, no original em inglês). Se a criança gosta de brincar no computador, eu corto a foto de um computador em quatro pedaços. Para cada atividade que ela completar, ela recebe um pedaço da figura do computador. Uma vez que ela ganhe as quatro partes da foto (completou 4 atividades), ela ganhou tempo para brincar no computador. (Lembrando que cada etapa não deve ser excessivamente longa, ou seja, cada atividade não deve levar mais de 5 minutos, em média, para ser concluída, assim como a foto não deve ser cortada em 6 ou 8 partes, pois a ansiedade da criança aumentaria muito e a demora em conseguir o “prêmio” a desmotivaria e/ou causaria stress, crise e oposição por perceber o prêmio como inalcançável; o tempo de 5 minutos é apenas uma estimativa do que seria considerada uma atividade de longa duração para crianças no espectro e/ou com quadros ansiosos que tenham entre 5 e 8 anos de idade – com exceção ao fato de estarem gostando da tarefa – , tempo esse que pode ser aumentado gradativamente conforme a idade; nota do tradutor.)

Em resumo, crianças no espectro do autismo são motivadas por fatores diferentes em comparação a muitas crianças neurotípicas (sem autismo). Enquanto crianças sem autismo são geralmente motivadas por agradar e imitar os outros, muitas crianças no espectro são motivadas por coisas que satisfaçam desejos mais intrínsecos (sensoriais, interesses preferidos, etc.). Crianças no espectro do autismo têm muita dificuldade em conseguirem motivar-se/concentrar-se em aprendizado que tenha pouco valor concreto para elas. O novo aprendizado precisa ter esse valor para que se sintam atraídas em aprender. Consequentemente, temos que tornar o aprendizado relevante para aquilo em que a criança encontre sentido. A nova informação precisa estar conectada ou ser associada a conceitos que já façam sentido para a criança. Se o novo material tiver valor para a criança (do ponto de vista dela), estiver centrado em torno dos seus pontos fortes e interesses, estiver de acordo com seu estilo de aprendizado (visual, tátil, etc.), e tiver incrementos reforçadores para a criança, ela se tornará mais motivada em aprender. Então, se você estiver tendo dificuldades em motivar alunos no espectro do autismo, considere uma ou mais das sugestões acima.

[Destaques em negrito feitos pelo tradutor.]


Sobre o autor:

Bill Nason, psicólogo especializado em autismo, trabalha há mais de 35 anos com indivíduos com distúrbios do espectro autista; há onze anos desenvolve programas para crianças e jovens adultos com autismo ou síndrome de Asperger na Universidade Oakland, em Michigan, Estados Unidos. É o mediador de uma página de discussão sobre o assunto no Facebook, com mais de 75.000 pessoas, e autor de dois livros sobre estratégias de tratamento para pessoas com autismo.

 

SUGESTÕES PARA PAIS E PROFESSORES

Caros pais, a sugestão deste blog é que vocês imprimam cópias desse artigo e entreguem aos professores e coordenação/direção do estabelecimento de ensino do seu filho no início do ano letivo, ou que forneçam à escola o link de acesso, recomendando a leitura especializada para melhor atender as necessidades da criança com autismo.

Caso você, leitor, seja professor, parabéns pela iniciativa de buscar apoio adequado para seu aluno com necessidades especiais, e convide outros professores a se informarem também. 

Um comentário sobre “Estratégias para Facilitar o Desempenho Escolar de Crianças no Espectro do Autismo

  1. Pingback: PASSO A PASSO DA ADAPTAÇÃO ESCOLAR PARA CRIANÇAS COM SÍNDROME DE ASPERGER | Síndrome de Asperger

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