PASSO A PASSO DA ADAPTAÇÃO ESCOLAR PARA CRIANÇAS COM SÍNDROME DE ASPERGER

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Por Audrey Bueno

A autora é psicóloga e pesquisadora da síndrome de Asperger

Preparação antes do início das aulas

A adaptação de crianças com a síndrome de Asperger começa no ato da matrícula.

É importante ter em mãos um breve resumo das principais dificuldades e necessidades de adaptação da criança para descrever à direção da escola, para checar se eles podem oferecer aquilo que seu filho irá precisar no ano letivo.

Informe-os que o que vocês mais precisam é de um ambiente e professor acolhedor, disposto a estabelecer um diálogo contínuo com vocês até que a criança finalmente esteja ajustada à escola e a escola a ela. Diga que as questões sensoriais e de socialização são as coisas mais importantes de serem observadas, além de alguma adaptação e flexibilização que se faça necessária, como, por exemplo, não aplicar castigos do tipo ‘cantinho do pensamento’, flexibilizar a lição de casa e dispensar a criança de atividades em grupo tais como apresentações em datas comemorativas, educação física ou gincanas. Muito resumidamente, esse é o panorama geral de adaptações que uma criança com Asperger irá requerer.

A dispensa das atividades deve sempre ser conversada com a criança antes e, se for o caso, deve-se mostrar a ela como é a atividade, informando-a que pode escolher se deseja participar ou não. A escolha da criança deve ser acatada sem insistências para que mude de ideia.

Infelizmente, é verdade que algumas escolas recuam e, mesmo sendo contra a lei, criam empecilhos e dificuldades, ou dizem que estão sem vagas no momento, mas que entrarão em contato se surgir uma – pois não querem arcar com o trabalho ou responsabilidade adicional comuns no atendimento de alunos com necessidades especiais, quaisquer que sejam elas.

Se por um lado esse pai ou essa mãe ficam com receio de perder a vaga a partir do momento em que relatam as necessidades especiais do filho, por outro isso serve como um filtro para testar a real disposição da escola em acolher aquela criança, sendo muitas vezes melhor perder a vaga em uma escola que já se mostra pouco interessada no valor humano da relação e que busca um aluno que ‘não dê trabalho’ e garanta, assim, o máximo de lucro, com o mínimo de ônus, do que descobrir apenas mais tarde, em meio a situações de crise em que a criança é a principal vítima, que a escola não tem feito e nem fará o necessário para acolher devidamente aquele aluno. Instituições assim são melhores longe dos nossos filhos, quer tenham uma necessidade especial ou não. Assim, não revelar as dificuldades da criança num primeiro contato, pode custar muito caro depois. A escola dirá que não sabia de tais necessidades quando da matrícula, e que se soubesse teria explicado melhor aos pais o que estava ao alcance da instituição oferecer. Ou seja, é preciso que haja um acordo ético entre as partes, em que tanto pais quanto escola sejam transparentes o bastante para decidirem juntos se serão bons parceiros ou não.

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Concluída a etapa da matrícula, os pais devem solicitar uma reunião com a futura professora para explicar as dificuldades do filho e como ela poderá ajudar. É fundamental que os pais conversem com a professora e expliquem o caso do filho antes do início das aulas. Nessa reunião, é importante entregar à professora algum material explicativo sobre a síndrome, pois muitos professores nunca terão ouvido falar sobre Asperger e, se conhecerem algo sobre autismo, será geralmente um tipo de autismo diferente, não somente pelo fato do autismo ter muitas variações, como também muitos níveis de severidade, mas também porque cada indivíduo tem sua particularidade, ou seja, ninguém é igual ao outro, nem pessoas sem autismo, nem pessoas com autismo.

Na verdade, o ideal seria conhecer o professor antes de efetuar a matrícula, talvez pedindo para assistir uma aula quando for conhecer a escola, e dizer que gostaria de assistir a aula na turma da pessoa que será a futura professora do seu filho. Esse primeiro contato, onde certamente haverá algum diálogo rápido entre pais e professora, servirá para que os pais percebam o nível de abertura e disposição da professora em ajudar, e até mesmo características de personalidade que possam contribuir positiva ou negativamente. Muitas vezes quem faz a escola é o professor, e ele será a figura de apoio do seu filho na maior parte do tempo em que a criança estiver na escola. A menos que não haja outra opção de escola, o que significaria que não iria adiantar muito ‘aprovar’ o professor ou não, a recomendação é tornar o professor uma figura central no peso da decisão por qual escola escolher, embora o outro grande elemento na balança a se considerar seja a metodologia.

Efetuada a matrícula, pode-se combinar com a escola o agendamento de 1 a 3 visitas da criança ao novo ambiente escolar, de modo que o futuro professor esteja presente e disponível para passar o tempo da visita com a criança. É importante que tais visitas ocorram com a seguinte antecedência ao início das aulas: 1 mês, 15 dias e 1 semana. Não sendo possível agendar 3 visitas, ao menos 1 visita cerca de 20 dias antes do início das aulas já ajudará bastante, mas tente conseguir pelo menos duas visitas (com 1 mês e 15 dias de antecedência).

Essas visitas não precisam ser muito longas, de 30 minutos a 1 hora são suficientes. Durante a visita, é importante que a escola esteja calma e silenciosa, ou seja, sem alunos ou atividades, pois a ideia inicial é que a criança se habitue à professora e ao espaço físico primeiro. Quando já houver maior familiaridade com esses dois fatores, então passa-se para o espaço com os colegas, que serão o maior desafio da criança com Asperger, não só pela interação social, como pelo barulho e agitação do ambiente.  Essa familiaridade anterior com professor e escola é essencial e servirá para diminuir a enxurrada de novidades e apreensões no primeiro dia de aula, além de funcionar como ponto extra de apoio e segurança para quando o grande desafio surgir.

Durante essas visitas, após um passeio pelos locais a que a criança terá acesso na escola, permanecer na sala de aula que já será a da criança e mostrar a ela o local em que irá se sentar são duas coisas muito importantes. É essencial que o lugar onde a criança vai se sentar jamais seja alterado e que a professora se assegure de que nenhuma criança esteja sentada nesse local quando a criança com Asperger entrar na sala no primeiro dia de aula. Se houver alguma criança sentada nesse lugar, a preferência será mudar essa criança para outra carteira, cedendo o lugar para a criança com Asperger, como previamente combinado, pelo simples fato de que isso não será um problema para a outra criança como será para a criança com Asperger.

Na sala, na mesa da criança, o professor já pode deixar algum objeto de interesse da criança (que a mãe já terá informado na reunião anterior). É importante sempre confirmar com a mãe quais as preferências e aversões da criança e seguir as dicas dela, para garantir a melhor primeira impressão possível, pois se o professor aplicar seu senso comum sobre “coisas que toda criança gosta”, poderá ter uma surpresa negativa logo num primeiro contato com esse aluno, onde o objetivo seria justamente o oposto. Vejamos uma situação como exemplo: A mãe informou o professor que a criança gosta de “tubos de cola”, mas o professor, aplicando sua própria interpretação pessoal, achou esse gosto um tanto “estranho e sem graça” e decidiu deixar massa de modelar em cima da mesa da criança para ela brincar em sua primeira visita, afinal, seu senso comum sobre como são as crianças em geral lhe disse que “toda criança gosta de massa de modelar”. Então, no momento da visita, quando a criança vê a massa de modelar em sua mesa ao mesmo tempo em que lhe informam que é ali que irá se sentar, manifesta uma reação inesperada e de difícil compreensão para o professor (mas esperada e de fácil compreensão para a mãe), negando-se enfaticamente a sentar ali, “fugindo” da mesa e da massa de modelar. É então que a mãe informa que a criança tem aversão à massa de modelar e a qualquer coisa mole que ponha a mão (isso, aliás, é comum devido às sensibilidades sensoriais de crianças com autismo).

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Bolo imitando frango cru: nem todo mundo sente nojo, o que prova que a aversão é algo muito pessoal. Mesmo que muitos dividam uma mesma opinião sobre algo (por exemplo, imaginamos que a maioria das pessoas no Brasil não ache esse bolo apetitoso), geralmente influenciados pela cultura em que estamos inseridos, a realidade é que a perspectiva é diferente para cada um de nós. Sempre haverá aquela pessoa com água na boca ao ver esse bolo. – Fonte da imagem: aqui.

Se o professor tivesse organizado uma atividade considerando o assunto de interesse informado pela mãe, como um trabalhinho de colagem, por exemplo, onde ele poderia deixar colas coloridas ou mesmo dois ou três tubos diferentes de cola na mesa, esse primeiro momento teria sido um sucesso. Portanto, os professores devem compreender a importância de ouvir os pais. Se isso já é importante para crianças em geral, é fundamental para as com autismo. E, além disso, os professores precisam compreender que a criança com autismo é muito diferente da criança sem o transtorno. Seus interesses e forma de pensar serão completamente diversos, de modo que generalizações do tipo “que criança não iria querer isso” ou “toda criança gosta daquilo” não só não são eficazes, como, muitas vezes, são até mesmo prejudiciais. Muitas crianças com Asperger não gostam de brinquedos e preferem objetos “estranhos”, não gostam de festas, de cantar músicas em grupo, de brincadeiras como pega-pega ou esconde-esconde ou dos personagens que as outras crianças geralmente apreciam, tais como Homem-Aranha, Capitão América, etc. Em vez disso, crianças com Asperger podem se interessar por planetas, luminárias, relógios, clips de papel e tampas de garrafas. Isso precisa ficar claro para o professor, pois boa parte dos problemas de adaptação escolar ocorrem justamente porque o professor não consegue enxergar a criança com Asperger como atípica em relação ao modelo infantil que já está tão enraizado em sua mente experiente de professor, que foi moldada com base nos 99% de alunos típicos ou com alguma questão especial diferente, que muito provavelmente não incluía alunos com Asperger. Para acolher uma criança com Asperger, é preciso rever padrões.

Os pais – ou a mãe, que costuma ser quem acompanha a criança – podem dar dicas antecipadas dos assuntos que a criança gosta, oferecendo ao professor uma lista de tópicos motivadores e interessantes que possam ser utilizados conforme a necessidade de entreter, cativar ou premiar a criança por algum esforço ou tarefa cumprida (recurso muito usual com crianças autistas).

Portanto, num primeiro contato/reunião com o professor, os pais devem entregar a ele três coisas:

  • Resumo informativo: “O que é a síndrome de Asperger?” – aqui
  • Texto: “Lista de dicas de convívio e manejo de crianças com síndrome de Asperger – para a escola, professores, pais e familiares – aqui
  • Anotações feitas pelos próprios pais com dicas dos principais assuntos de interesse e das principais aversões do seu filho

 

DICA EXTRA: Fotos

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Ter uma foto da sala de aula e outra da professora e fixá-las em algum lugar da casa que esteja à altura dos olhos da criança pode ser uma ótima ideia; isso fará com que a criança vá se habituando, ainda que inconscientemente, ao novo ambiente e às pessoas nele. Fotos de lugares novos são uma boa medida para reduzir a ansiedade antes da criança ir àquele local pela primeira vez (essa é uma boa dica também para viagens, consultórios médicos, etc.). Se puder ter essas fotos antes mesmo da criança fazer a primeira visita programada à escola, melhor ainda. Aproveite para tirá-las quando fizer a primeira reunião com a professora. Atenção: certifique-se de que a foto seja agradável, por exemplo, com boa iluminação (acender as luzes da sala antes de tirar a foto!), num bom ângulo (pegando mais o cantinho aconchegante da carteira onde a criança vai ficar e uma parte da lousa, mesa da professora e a porta aberta (para que a criança não fantasie que ficará presa ali), e não aquela foto à distância tirada no fundo da sala, ou da porta, que mostra a sala inteira imensa e assustadora). Faça fotos separadas, uma da sala (ou de partes da sala) e outra da professora, e não da professora na sala, pois crianças com Asperger costumam “categorizar” informações, ou seja, categoria “objetos, lugares”, categoria “pessoas”. As fotos podem ser distribuídas como num painel, juntamente com fotos de outras coisas que a criança goste (luminárias, dinossauros, etc.), montando uma espécie de “painel do cantinho feliz”. Um exemplo seria o painel da ilustração acima (não usar tachinhas e cortiça se a criança for pequena). Isso indiretamente sugere à criança que relacione coisas boas com as fotos/ambiente da escola.

 

Primeiro dia de aula

A escola precisa estar ciente das necessidades da criança com Asperger e a pessoa que for receber os alunos na portaria precisa ser informada sobre quais crianças requerem atenção específica e como isso se dará. Por exemplo, se a criança com Asperger apresenta relutância em entrar ou ficar na escola, é recomendado – e, na verdade, imprescindível – que a mãe fique dentro do ambiente escolar com a criança nos primeiros dias de aula, retirando-se gradualmente com o passar dos dias, e isso implica num primeiro ponto, que é não ser barrada pela tia da escola que controla a entrada de alunos no portão. Isso por si só já causaria pânico inicial a uma criança que está, naquele momento de total apreensão, à flor da pele de ansiedade. A “adaptação” comum (entre aspas, pois não existe adaptação) de deixar a criança na porta da escola no primeiro dia de aula e ir buscá-la no final do período, que já não funciona para crianças típicas mais sensíveis, funcionará ainda menos para a criança com Asperger, que pode desenvolver pânico e aversão do ambiente escolar logo de cara, de modo que na maioria das vezes não seja possível reverter esse quadro depois e a criança acabe perdendo o ano letivo. Não raro, após sucessivas situações desesperadoras envolvendo o ambiente escolar, a criança pode nem mesmo conseguir frequentar escola alguma no futuro.

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Cena comum no primeiro dia de aula – só de olhar, não dá para saber qual criança superará o medo sem maiores consequências e qual não o fará;  também não dá para saber o tamanho desse medo. Independentemente de haver ou não um diagnóstico, se as escolas planejassem um programa de adaptação mais humano, que envolvesse mais as famílias, o processo seria muito menos assustador – para todos. – Fonte da Imagem: aqui.

A forte tendência de crianças com Asperger desenvolverem fobia social e escolar já foi observada na literatura internacional sobre a síndrome, mas muitas escolas, pela desinformação e uma espécie de certeza em saber como as coisas se dão com crianças típicas, ou seja, sem transtornos, entendem a preocupação da mãe como excesso de superproteção e dificultam o acesso dessa mãe à escola justamente quando seria ela a maior aliada em relação a dicas essenciais no convívio com aquela criança, e num período crítico da adaptação.

Isso é especialmente verdade em relação ao autismo, pois é sabido que essas crianças têm sensibilidades diversas que geralmente apenas os cuidadores conhecem bem, e como essas crianças não conseguem enfrentar uma quebra em certos padrões, se estes não forem conhecidos e respeitados por quem convive com elas, estas crianças poderão não conseguir permanecer no ambiente escolar. Por exemplo, se a criança tem sensibilidade acentuada a abraços e cheiros e a professora organiza uma brincadeira de um abraçar o outro para estimular a socialização, e depois outra atividade para explorarem os cheiros das coisas, ou mesmo escolhe utilizar um material em sala que possui cheiro significativo, essa criança com Asperger se sentirá no pior lugar do mundo, completamente ameaçada em suas fragilidades. Muitas não conseguem dizer na hora o que as incomodou, e permanecem paralisadas pelo pânico da situação, ao que a professora vai interpretar como “Está tudo bem” ou “Ele é tímido”, sem saber que, muitas vezes, crianças com Asperger não simplesmente choram ou riem quando se espera que o façam e que manifestam suas emoções de modo bastante fora do padrão; quando triste ou incomodada, em vez de chorar, a criança com Asperger pode, por exemplo, apenas engajar num comportamento repetitivo, que para quem olha de fora não parece nada demais, mas quem a conhece sabe que na sequência virão explosões emocionais e desregulação interna, que muitas vezes acabam sendo expressas apenas quando a criança chega no ambiente seguro do lar; essas desregulações costumam criar efeitos mais duradouros que o que normalmente se vê numa criança sem Asperger, e atingem o sono, alimentação e funções orgânicas, além de serem o início de um processo fóbico que se manifestará sempre que a criança for exposta às situações que inicialmente causaram stress.

Outras crianças com Asperger poderão explodir aquilo que estavam represando ainda na escola, mas ao virem a borracha delas cair no chão, por exemplo, e não no momento em que se esperaria que demonstrassem o desconforto, ou seja, mediante situações aparentemente sem importância e desproporcionais para a intensidade da explosão emocional observada; a professora vai achar que a explosão emocional foi devida à borracha, ou, se não viu a borracha cair, nem vai saber o porquê do início da agitação intensa, repetindo a atividade do abraço e dos cheiros no dia seguinte!  Se a mãe estivesse presente, ela logo sinalizaria à professora que aquelas atividades seriam problemáticas, evitando transtornos e ajudando a criança a se adaptar, ao mesmo tempo em que iria ajudando a professora a conhecer melhor aquele aluno. O caminho para evitar o surgimento de fobia social e escolar é conhecer as particularidades e fragilidades da criança e respeitá-las.

A escola precisará estar disposta a pensar criativamente em soluções para aquelas atividades que não possam ser feitas na presença da criança. Pode parecer complicado no início, mas as coisas sempre se ajeitam quando existe boa vontade e parceria de ambos os lados, pais e escola. Por exemplo, o professor pode combinar com os pais de virem buscar a criança mais cedo em determinados dias da semana, 1 hora mais cedo às terças e quintas, por exemplo, deixando as atividades que são problemáticas para a criança com Asperger para serem feitas com os demais alunos após a saída da criança com Asperger nesses dias específicos, atendendo às necessidades de todos: respeitam-se as necessidades especiais da criança com a síndrome ao mesmo tempo em que os colegas não serão privados de certas brincadeiras ou atividades das quais gostem. Outros exemplos de soluções substitutivas seriam: trocar a massa de modelar com cheiro pela sem cheiro, flexibilizar a demanda das tarefas (por exemplo, não exigindo que a criança pinte o desenho), informar o pessoal da limpeza para não usar produtos de cheiro forte, como cândida, no ambiente, manter as persianas um pouco mais fechadas em vez de totalmente abertas para controlar o excesso de luminosidade, certificar-se de ter consertado o ventilador que fazia barulho, etc. Enfim, são ações que não custam tanto assim e fazem uma enorme diferença na vida dessa criança.

Como a mãe não costuma estar presente no recinto escolar, o que geralmente acontece, aproveitando nosso exemplo acima, é que a professora volta a dar aquela atividade incômoda às sensibilidades sensoriais da criança com Asperger (do abraço e dos cheiros), além de outras atividades igualmente invasivas. A criança com Asperger chega em casa, não consegue verbalizar de forma clara o que houve, algo muito comum na síndrome, e a mãe fica sem entender o que está havendo e porque a recusa em ir para a escola aumenta a cada dia. Ao conversar com a professora, esta lhe diz com sinceridade que não imagina o que possa estar havendo, pois o aluno parece sempre quieto em aula, ao que ela interpreta como sinal de que tudo esteja “tranquilo”, ou se chorou foi por algo que ‘acontece’, não configurando um grande problema aos olhos do professor, como um lápis quebrado ou perdido. Sem a mãe no ambiente observando o primeiro mês de aula da criança que ela conhece bem, nem a mãe conseguirá identificar qual foi o problema fundamental, nem a professora desconfiará, afinal, nem passará pela cabeça dela que aquela brincadeira da qual as outras crianças na sala tanto gostaram, foi um problema para a criança com Asperger, ou até mesmo que aquele lápis em especial fosse um objeto ligado à obsessão da criança, e obsessões na síndrome de Asperger são coisas potentes, que o professor precisa compreender. Essa ineficácia de informação só cresce, culminando na instalação de fobia escolar e consequente saída da criança da escola, lembrando que essa mesma fobia iniciada numa escola pode perdurar por toda a vida escolar da criança.

O índice de crianças com Asperger que acabam abandonando a escola é alto e a causa é quase sempre o despreparo das escolas e dificuldade em acatar e ouvir o que os pais têm a dizer.

Por isso, o ideal seria que, a partir do momento em que as escolas passarem a conhecer melhor o autismo, adotem essa prática da presença da mãe na escola no primeiro mês como recurso essencial para o sucesso da adaptação escolar. À medida em que a professora for passando a compreender seu aluno, a mãe vai se tornando cada vez menos necessária. É como se alguém precisasse aprender a usar um sistema novo: se a pessoa que já o conhece te explicar como funciona, a chance de travar o sistema e causar uma pane será bastante reduzida. A analogia só não é melhor porque crianças não são sistemas. São pessoas de carne e osso, com sentimentos e pensamentos próprios, e que deverão, portanto, ser tratadas com o dobro de atenção que se daria ao sistema do exemplo. Não se pode simplesmente ir apertando qualquer botão para ver o que acontece e é isso que as escolas precisam compreender. Diferentemente do sistema, não é possível reiniciar pessoas.

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Mãe com o filho em escola no exterior – na França, Dinamarca e Alemanha, a participação ativa dos pais no ambiente escolar é bem-vinda, além de ser prática comum para a escola como um todo, e não apenas para crianças com alguma necessidade especial. Havendo necessidades específicas, então, esse apoio e presença dos pais deveria ser indiscutível. Na Dinamarca, o envolvimento dos pais na escola nos filhos é visto como um direito democrático. Fonte informativa; fonte da imagem.

Assim, no primeiro dia de aula, a criança com Asperger deve ser acompanhada pela mãe até a sala de aula, e não ser deixada no portão externo da escola. Lá, a professora deve receber a criança com discrição, dando apenas um “olá” discreto, em tom de voz baixo, porém cordial, e sem muitas “demonstrações de socialização e afeto”, como beijo, abraço ou ficar perguntando coisas à criança. A única pergunta que ela deve fazer é: “Você gostaria que sua mãe ficasse com você aqui hoje?”. Certamente, a criança dirá que sim, ao que a professora poderá dizer: “Tudo bem. Então mostre à sua mãe o lugar em que você vai sentar. Você se lembra onde é?” A criança já terá conhecido o lugar em que irá se sentar nas visitas ocorridas antes do início das aulas. Se não lembrar, mostre o lugar.

Isso dará à criança uma sensação inicial de acolhimento, de pertencimento (eu tenho um lugar reservado para mim), de poder e participação (ela é quem leva a mãe ao local certo), de confiança na professora (que não foi invasiva e acatou uma vontade da criança), além de uma baixa inicial do medo e ansiedade elevados naquele momento de transição e novidade (duas coisas muito difíceis para pessoas com autismo), em que adentra uma sala com tanta gente e com tantas crianças falando ao mesmo tempo (que é outra coisa muito assustadora para pessoas no espectro do autismo).

A mãe deve permanecer sentada numa cadeira dentro da sala de aula, ao lado da criança (cadeira esta que já deve estar ali posicionada ao lado da carteira da criança, pois ficar indo procurar uma nessa hora seria um fator estressor a mais para uma criança ansiosa e insegura quanto a tudo o que vai acontecer ali; certos detalhes fazem toda a diferença em se tratando de crianças com Asperger). A estadia recomendada da criança na escola no primeiro dia é de 60 a 90 minutos.

Dica importante para crianças maiores: a presença óbvia da mãe em sala de aula não é recomendada para crianças após os 8 anos de idade, pois isso daria margem a bullying e diferenciação evidente da criança; nesse caso, o ideal seria que a mãe conversasse com a professora por 10 minutos após cada fim de aula, em particular, levando um parente para ficar com a criança enquanto elas conversam), para fazer um apanhado rápido do dia e ir dando possíveis dicas, além de colher informações sobre as atividades e ocorrências para que tenha melhores condições de orientar o filho em casa. Caso a criança requisitasse insistentemente a presença da mãe, esta poderia combinar de ficar em alguma sala ou espaço um pouco afastado da sala de aula, de modo que os outros alunos não soubessem que a criança com Asperger foi procurar a mãe caso precise. A professora combinaria com a criança de apenas dizer “Preciso sair”. Se os colegas questionarem algo, uma sugestão seria a professora dizer que ele tem algumas questões de saúde e precisa sair de vez em quando para fazer algumas coisas, dando o assunto por encerrado.

No segundo dia, a mãe entra na sala, se senta ao lado da criança e após 15 minutos, informa a criança que irá se sentar no fundo da sala dentro de alguns minutos, explicando que “é onde as mamães têm que ficar”. Observe que o aviso é antecipado à mudança de cadeira em si, ou seja, nunca faça nada de repente, avise tudo antes.

Aguardando alguns minutos, a mãe então diz: “Agora vou me sentar ali no fundo da sala. Você pode ir lá falar comigo quando precisar.” Estar preparada para protestos e medo da criança é importante, pois muito provavelmente eles irão acontecer. Oferecer um prêmio concreto pode ser necessário e talvez a única coisa que funcione efetivamente para motivar crianças com autismo. Pode-se dizer que se ela ficar no lugar dela 10 minutos, ganhará uma bala (ou algo que a interesse). Esse tempo para posterior premiação vai gradualmente sendo aumentado. A própria professora pode combinar o prêmio.

Se a criança insistir em ficar com a mãe no fundo da sala, uma opção seria a mãe dizer algo assim: “Se você não ficar na sua cadeira, perto da professora, eu não poderei mais ficar na escola com você, pois se tiver mãe aqui na sala, ela precisa sentar ali, e não aqui. Estarei logo ali, não se preocupe.” Se não der certo, apele para a premiação acima citada. A mãe pode chamar a professora e dar a dica: “Filho, a professora quer combinar um prêmio com você.” E deixe a professora falar.

A ideia é que a mãe seja observadora e funcione como um guia do comportamento da criança para a professora, como uma intérprete, mas que permaneça sempre numa postura passiva na escola, de modo a nunca interferir ou resolver algo pela professora.

A criança deve perceber que a professora é quem resolve as coisas na escola, de modo que a presença da mãe se torne dispensável com o passar dos dias. Se não for assim, a criança nunca ficará na escola sem a mãe. A mãe pode, inclusive, caso tenha a ideia de fazer algo, mostrar que se deve pedir autorização à professora, para que a criança aprenda a direcionar suas necessidades à professora e não à mãe. Por exemplo, a criança está agitada e a mãe vê um livro com um assunto que a criança gosta na prateleira. Em vez dela própria ir lá pegar o livro e dar a criança, ela diz à criança assim: “Por que você não pede para a professora para ver aquele livro?” À medida em que a professora vai atendendo as necessidades da criança, esta passará a confiar nela.

A professora precisa sempre estar atenta e se antecipar sempre que possível. Por exemplo, no caso do livro, ela pode facilitar as coisas para a criança (que pode ter dificuldade em pedir) e perguntar: “Você quer ver aquele livro?“.

Frases de conforto ditas pela professora tais como: “Na escola, eu ajudo a sua mãe a cuidar de você. Me peça o que precisar, ok?” são importantes.

É igualmente vital que o professor cumpra o que disse, ou seja, protegendo a criança dos colegas mais agitados e nunca se ausentando sem aviso ou por um longo tempo. Seria  bom que alguma tia da escola também se familiarizasse com a situação, para que a criança se habituasse a ela também, nos momentos em que a professora precisasse sair um pouco da sala. É importante instruir essa tia a se posicionar sempre perto da criança com Asperger quando estiver olhando a turma na ausência da professora e orientá-la a não deixar que o barulho na sala aumente, que ela própria não grite, e que vá dando avisos de que a professora já vai voltar.

Nunca se deve deixar a criança com Asperger sozinha na sala com os colegas sem a presença de um adulto.

O tempo sugerido de permanência da criança no segundo dia é de cerca de meia hora a mais que no dia anterior. Os objetivos das estratégias sobre onde a mãe devera sentar são os seguintes:

No primeiro dia: a mãe sentada ao lado da criança dá a sensação de proteção nesse ambiente novo e assustador justamente no primeiro contato da criança com ele; é importante que a professora tenha separado algum material ou atividade de que a criança goste (que já terá sido previamente informado pela mãe) e aproveite o momento para se fazer presente. Ela precisa ter cuidado para não falar muito ou ficar fazendo muitas perguntas, tentando ‘puxar conversa’; dar objetos em silêncio é o melhor modo de criar vínculo com crianças no espectro do autismo, mostrando à criança que não é só a mãe quem cuida dela ou ‘provê’ coisas, mas a professora também.

No segundo dia: a mãe passa a sentar-se no fundo da sala e isso causará uma agitação inicial à criança (e novamente a professora deverá ter na manga uma série de coisas interessantes – previamente informadas pela mãe – para oferecer à criança; com a mudança da mãe para o fundo da sala, a criança irá se acostumando gradualmente a não mais ter a mãe em seu campo de visão; embora a criança provavelmente vá virar muitas vezes para trás para se certificar da presença da mãe, a tendência é que ela vá aos poucos deixando de fazer isso e vá até se esquecendo da presença da mãe em alguns momentos.

A professora deve permitir que a criança vá falar com a mãe sempre que precisar.

Na segunda semana, se tudo tiver corrido relativamente bem, ou seja, se a criança estiver concordando em ficar em sala, a mãe pode, então, passar a sentar-se do lado de fora da sala, mas na parede lateral da porta, de modo que continue não ficando no campo de visão da criança, que irá querer sair algumas vezes da sala para se certificar da presença da mãe ali.

E ali a mãe deverá permanecer durante toda a segunda semana (a menos, é claro, que a criança dê sinais de estar mais tranquila e adaptada do que se supunha). É importante que pais e escola tenham clareza de que o tempo necessário para que a mãe permaneça na escola não será determinado pelos pais ou escola, e sim pelo comportamento da própria criança, que a mãe ajudará a decifrar.

Para a mãe, uma dica particular é que esteja sempre ocupada e dê pouca atenção à criança quando esta for procurá-la, falando brevemente do que importa e dizendo que enquanto estão na escola, “mamãe trabalha, criança fica na sala com a professora” (não diga “com os colegas”). Assim, a criança vai perceber que nada de “legal” acontece quando ela procura a mãe enquanto estão na escola. Ela não ganha um afago, atenção, nada. A mãe deverá levar um livro para ler, um laptop ou qualquer outra coisa que faça parecer que está ocupada fazendo algo importante naquele momento, pois isso também vai mostrando à criança que a escola é um local de trabalho (onde, obviamente, o estudo é o trabalho da criança).

 

Uma sugestão de carga horária para o período de adaptação:

1º. Dia: a criança permanece de 60 a 90 minutos na escola;

2º. Dia: a criança permanece 2 horas na escola;

3º. Dia: a criança permanece 2 horas e meia na escola;

E assim sucessivamente, aumentando-se meia hora a cada dia, até que a criança consiga ficar o período todo.

É claro que é preciso sensibilidade a cada caso e, mais uma vez, a mãe pode ajudar a determinar o grau de stress em que a criança se encontra, de modo que o período de estadia acima seja apenas uma ideia geral, que deverá ser adaptada para cada criança e situação.

Por exemplo, se a criança, no primeiro dia, ficou meia hora na escola e já está aflita para ir embora, deve-se levá-la embora, sempre informando que voltarão no dia seguinte. Forçar a estadia é a pior coisa a ser feita, pois isso automaticamente gerará na criança a sensação de perigo em relação àquele ambiente, pois a mensagem passada será a de ela está presa ali, acuada como um bichinho silvestre numa jaula. Aliás, essa metáfora do bicho silvestre é muito adequada às crianças com Asperger: elas são como passarinhos na floresta. Se chegarmos muito de repente, falando alto e fazendo mil coisas, nós as espantaremos e elas voarão para longe. Porém, se formos deixando as migalhinhas de pão pelo caminho, e esperarmos que o passarinho venha, ele chegará bem mais perto de nós. Se tentarmos segurá-lo, ele voará.

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Essas migalhas de pão seriam as atividades de interesse da criança, um local quieto num cantinho, objetos de que goste, nossa presença não invasiva, dentre outras coisas que iremos observar dentro das particularidades daquela criança. A propósito, existe um livro sobre uma menina com Asperger, da autora Kathryn Erskine, cujo título é “Passarinha”. Não foi por acaso que a autora pensou nesse título.

A criança deve perceber que as pessoas ali respeitam suas necessidades e dificuldades, acatando o que ela diz em vez de julgarem as requisições da criança como ‘manha’ e as tratando como tal. Nada é mais nocivo para uma criança assustada e hipersensível como a criança com Asperger. O professor precisa treinar a capacidade de se colocar no lugar da criança do ponto de vista da criança, e não do adulto sem a síndrome. Esse é o erro mais comum das pessoas que lidam com as crianças com Asperger e não as compreendem.

Se, após 1 ou 2 semanas, a criança ainda não estiver querendo ficar na escola, novas estratégias precisarão ser criadas. Para isso, no entanto, será necessário identificar o que tem causado desconforto na criança, e, mais uma vez, a mãe pode ajudar nesse ‘trabalho de detetive’. Pode ser um cheiro, a proximidade com crianças mais agitadas, o barulho do ambiente, o tipo de atividade proposta ou a forma com que a professora propõe a atividade ou fala com ela, pode ser o tema da estória que a professora contou, o tipo de brincadeiras, o tom de voz alto da professora, enfim, quase sempre só quem conhece a criança mais a fundo é que vai perceber.

 

Sugestão de leitura para pais e professores: PAIS: UMA CONTRIBUIÇÃO FUNDAMENTAL NO PROCESSO DE INCLUSÃO ESCOLAR DA CRIANÇA COM AUTISMO – clique aqui

 

Outras considerações

Escolhendo uma escola

Ao escolher uma escola, a preferência deve ser por escolas pequenas (quanto menos alunos, melhor!), menos tradicionais ou conteudistas. O foco dos pais de uma criança com Asperger (e deveria ser assim para qualquer criança aliás, mas para as com Asperger isso é vital) e da equipe escolar deve ser o bem-estar da criança, e não a quantidade de ensinamentos que ela acumula. Desenvolver o gosto por aprender vale muito mais e nos leva muito mais longe. E essa será uma habilidade de vida importantíssima para crianças com Asperger.

Pessoas com Asperger são vigorosamente seletivas e irão se rebelar contra qualquer imposição de valores ou interesses contrários aos seus. Por isso, o ideal é que a escola siga uma metodologia mais livre, mais espontânea, mais flexível, que valorize o ser humano em primeiro lugar e o conteúdo apenas depois disso. A tendência é que a criança com Asperger acabe se especializando num assunto de interesse e ignorando, por vezes completamente, outros assuntos. Aceitar isso não significa considerar essa postura adequada, afinal, todo extremismo pode ser negativo, mas significa que compreendemos que o funcionamento dela é esse e que dificilmente mudará.

E para pais mais tradicionais e preocupados, fiquem tranquilos, pois tem havido um esforço crescente em reformar o sistema de ensino pelo mundo, e a tendência da escola do futuro, seguindo modelos de países de primeiro mundo como a Finlândia, é reestruturar tudo o que se entende por ‘escola’, mostrando que sacrificar-se em aprender todas as matérias atualmente presentes nas escolas não só não tem sido produtivo, como não é, de fato, necessário. Na Finlândia, tem havido um movimento recente de reforma educacional, onde a intenção é abolir as matérias-base das escolas, dando espaço a um sistema de aprendizado mais aberto, holístico e interdisciplinar (Fonte de dados: Collective Evolution, um site internacional de noticias sobre a área da educação e inovações pelo mundo). E instituições educacionais que começam a trilhar esse caminho já existem no Brasil, como é o caso da escola Montessoriana. Não foi à toa que o filho da monarquia britânica foi matriculado numa escola desse tipo. O importante é que ele, como futuro governante, aprenda a pensar, e não a seguir ordens e submeter-se cegamente, como acontece no sistema tradicional de ensino.

Apenas esclarecendo, para quem não conhece, a escola Montessoriana é destinada às crianças em geral, tenham elas algum distúrbio ou não.

Por isso, uma metodologia mais livre dará à criança com Asperger a oportunidade e a liberdade de investir em seu campo de interesse e aptidão natural, sem se estressar além da conta sobre as matérias das quais um conhecimento raso já seria suficiente. Assim, muitas dessas crianças podem vir a tornar-se verdadeiras especialistas em seus campos de interesse, muitas vezes transformando-os em profissão, diferentemente de metodologias tradicionais que determinam o que, como e o quanto a criança deve aprender, oprimindo as manifestações naturais de potencial que elas apresentem.

A criança com Asperger precisa dessa abertura para descobrir e explorar o seu potencial, caso contrário poderá acabar perdida, sem rumo pessoal e profissional, por nunca ter tido a chance de desenvolver aquilo que nasceu sendo boa em fazer. Escolas como a Montessoriana e a Waldorf costumam ter mais esse perfil. Escolas como o Anglo e o Objetivo, por exemplo, costumam ser mais tradicionais.

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Escola Montessoriana

A adaptação também é necessária com a mudança de ano letivo

As sugestões descritas aqui podem, com as devidas adaptações, ser aplicadas a crianças com Asperger que iniciam um novo ano escolar, e não apenas às que iniciam numa nova escola. Com a mudança de ano letivo, o professor muda, a sala muda, o lugar de sentar-se muda e até alguns colegas mudam. De tudo isso, a mudança de professor costuma ser o maior problema e um grande desafio, e o mesmo trabalho de pré-adaptação e contato antecipado com esse professor (e sala de aula) antes do início das aulas, de conscientização e informação, que foi desenvolvido com o professor do ano anterior, deve ser feito com o novo professor. As escolas Waldorf e algumas escolas de países de primeiro mundo não mudam seus professores durante os primeiros anos de ensino e alcançam excelentes vantagens e aumento de produtividade com essa prática.

Uma dica interessante é que o coordenador da escola acompanhe as reuniões informativas para que possa auxiliar o professor atual e também os professores vindouros com a informação necessária. Reforço a importância da família encontrar um psicólogo que possa acompanhar o trajeto escolar do aluno com Asperger, inclusive para que vá providenciando relatórios, fazendo visitas de observação e representando os pais nas reuniões iniciais de esclarecimento do quadro ao novo professor ou em outras reuniões que se façam necessárias.

O professor bem-informado

É fundamental que o professor tenha informação sobre a síndrome de Asperger; além de entregar em mãos uma cópia impressa do texto (neste blog, link acima e novamente a seguir) “Lista de dicas de convívio e manejo de crianças com síndrome de Asperger – para a escola, professores, pais e familiares” – clique aqui, outra ideia é deixar o endereço de locais na Internet em que a mãe já saiba de antemão que o professor poderá encontrar informação confiável. Este blog, por exemplo, oferece um apanhado geral de todos os principais tópicos envolvendo a síndrome de Asperger, numa linguagem bastante acessível e com embasamento teórico de especialistas no assunto. Escrever o endereço do blog (sindromedeasperger.blog) no topo da cópia do texto entregue ao professor e direção/coordenação, pode incentivar e facilitar o acesso à informação.

Infelizmente, não existem muitos blogs em português com informação realmente fidedigna sobre a síndrome de Asperger, mas existe um blog muito bom sobre autismo clássico, que é o Lagarta Vira Pupa, da jornalista Andrea Werner. Em caso de indicação desse endereço também,  não deixar de informar o tipo de autismo que cada um aborda.

Falta do professor

Em caso de falta do professor, o recomendado é que o aluno com Asperger também não vá nesse dia; pedir para que o professor avise a mãe pessoalmente, se for uma falta que não havia sido prevista, garantindo que o professor tenha os dados de contato pessoal dos pais (telefone, whatsapp, e-mail), pois quando a falta é de última hora, a escola pode não ter tempo de avisar os pais.

Se a mãe trabalha e não tem como ficar com a criança nesse dia, infelizmente há grandes chances de problemas, uma vez que a criança vá ficar com tias ou professores substitutos que não estejam acostumados ou inteirados das particularidades da criança. É melhor que um parente fique com a criança nesse dia em vez de mandar a criança para a escola, pois na casa de um familiar a criança ao menos estará num ambiente mais tranquilo e menos tumultuado (teoricamente). Além disso, ir para a escola num dia caótico pode aumentar a ansiedade em relação à escola, pois pode surgir o medo de ir depois por nunca saber se aquele será o dia em que a professora não vai estar.

Se não houver meio da mãe ou familiar se ausentar no trabalho ou não houver um parente que possa ficar com a criança nesse dia, e ela tiver que ser mandada para a escola, uma alternativa para tentar ao menos suavizar as coisas seria conversar com a coordenação e pedir que oferecessem um ambiente tranquilo para a criança ficar, na companhia de algum adulto que pudesse oferecer atividades do interesse da criança, pois crianças com Asperger costumam se sentir melhor com adultos do que com outras crianças, ainda mais se forem crianças alvoroçadas pela falta do professor e caos na rotina de sala de aula.

O que a mãe pode fazer dentro da sala de aula

Enquanto a mãe estiver em sala de aula, a sugestão é de que vá sempre anotando por escrito numa folha de papel o conteúdo de observações e dicas ao professor naquele dia (pode ser útil ter um caderninho). O professor irá juntando e lendo esses bilhetes diariamente e, com isso, evita-se que a mãe fique falando sobre a criança na frente da própria criança (algo que deve sempre ser evitado), e as dicas dadas no mesmo dia de alguma situação ocorrida serão muito mais eficazes para ensinarem o professor sobre algum ponto importante acerca daquele aluno do que se dias se passarem e a situação acabar caindo no esquecimento e não mais servirem como exemplo.

Após um certo número de dias, o professor já terá angariado uma ampla gama de informações úteis e essenciais no trato com aquela criança. Por exemplo, o professor pede que o aluno faça um desenho e pinte. A mãe sabe que o aluno odeia pintar, mas o professor não sabe. O aluno faz o desenho e não pinta. O professor insiste. O aluno se irrita, corre para a mãe, quer ir ao banheiro várias vezes, começa a querer ir embora, fica agitado. Se a mãe escrever ao professor “Ele não gosta de pintar e é melhor nunca insistir com crianças com Asperger”, a postura do professor será diferente no dia seguinte. Às vezes, é possível cochichar isso para o professor logo que o problema surge, mas se não for possível, um bilhete ajuda muito.

Depois, se o professor for interessado, ele vai descobrir que a mãe não está simplesmente “incentivando os caprichos da criança”, pensamento usual com crianças em geral, e que na verdade crianças com Asperger têm mesmo uma dificuldade neurológica com a coordenação motora fina, de modo que lhes seja até fisicamente doloroso pintar ou escrever muito, segurando e coordenando o lápis em movimento de pinça por muito tempo. Pinturas a lápis e aulas de caligrafia podem ser demasiadamente exaustivas e penosas. Muitas escolas internacionais autorizam, inclusive, que o portador da síndrome de Asperger tenha consigo um laptop ou outro recurso de informática para digitar as anotações de aula ou mesmo tirar uma foto do quadro negro em vez de copiá-lo. Esse sofrimento e dificuldade na escrita é, aliás, é um dos vários motivos pelos quais a criança se recusa a fazer a lição de casa. E não somente por isso, mas ainda por outros motivos, autores renomados e especialistas em Síndrome de Asperger, como é o caso de Tony Attwood, recomendam que a criança com Asperger não tenha lição de casa.  Um desses motivos é a sobrecarga de stress psíquico e emocional que crianças com autismo têm em relação às crianças sem o transtorno. Elas precisam de mais tempo para recarregarem suas energias, de modo que estender a escola para dentro do espaço sagrado do lar pode ser intolerável. Existem outros motivos ainda, mas falaremos disso numa outra oportunidade.

E assim o professor vai aprendendo a confiar nas dicas da mãe, mesmo que na hora nem ele nem ela saibam o embasamento teórico disso, afinal não são especialistas, embora os pais geralmente se tornem verdadeiros pesquisadores da síndrome, de modo que seu conhecimento deve sempre ser aproveitado e nunca ignorado.  Além disso, viver a síndrome dentro da própria casa dá um conhecimento de causa considerável para os pais. Sobretudo, se a mãe dá uma determinada dica, é porque isso facilita o convívio e bem-estar da criança, e isso por si só já deve bastar. 

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A Finlândia (acima) tem um dos melhores sistemas de ensino do mundo. Há diferenças interessantes entre o sistema deles e o nosso: as crianças entram na escola apenas aos 7 anos, têm férias mais longas e não têm lição de casa. Foi isso mesmo o que você leu: as escolas finlandesas não dão lição de casa aos seus alunos. O Brasil precisa rever seus conceitos na área da educação e os professores devem ser os primeiros a fazer isso. Fonte da informação: CNN – October, 14 – 2014

 

Nunca julgue um livro pela capa: a síndrome de Asperger é muito mais complexa do que parece

O conteúdo desse plano de adaptação pode parecer excessivamente detalhista e cuidadoso num primeiro momento, mas é preciso lembrar que a vida interna de uma criança com Asperger é feita de milhões de detalhes essenciais do ponto de vista dela, e os detalhes aqui presentes não correspondem sequer a 10% do total de coisas que passarão pela cabeça dessa criança num dos momentos e lugares mais desafiadores da vida dela, lembrando que a escola costuma ser o pior pesadelo da vida dessas crianças.

Além disso, cada detalhe aqui descrito foi cuidadosamente pensado do ponto de vista psicológico e do embasamento técnico-científico sobre a síndrome, além de agregar informações sobre experiências reais de várias mães de crianças com Asperger, de modo que olhar para estas crianças pensando em crianças típicas não fará o mesmo sentido que fará quando pensarmos na complexidade da síndrome de Asperger. Não entendemos as leis da física completamente, mas estamos fortemente sujeitos a elas. Podemos não saber calcular a gravidade, mas sentimos o seu peso todos os dias. É preciso humildade e boa vontade para lidarmos com as coisas que não conhecemos bem.

 

É melhor pecar pelo excesso do que pela falta, pois o excesso pode converter-se em reserva para os momentos de escassez, enquanto a falta pode ser devastadora.

Audrey Bueno

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