Crianças com Asperger: dupla personalidade?

Resultado de imagem para oppositeFonte da Imagem

Uma cena muito comum para pais de crianças com a Síndrome de Asperger é não receberem crédito pelo que dizem sobre o comportamento e as dificuldades de seus filhos, sendo julgados como exagerados e até mesmo mentirosos, pois a criança costuma parecer tranquila e boazinha em contatos mais superficiais. Além disso, sua inteligência geralmente acima da média, alta funcionalidade em relação a casos de autismo clássico e fala, por vezes, um tanto rebuscada para a idade costumam impressionar os adultos, que desviam a atenção das dificuldades da criança, minimizando-as em excesso pela impressão externa obtida, o que também ocorre por não conviverem de forma mais próxima com a criança, onde as verdadeiras questões se revelam.

É muito comum que a criança, quando na presença de outras pessoas com quem tenha menos intimidade, não manifeste muitos dos comportamentos problemáticos que os pais presenciam em casa diariamente. Quando esses pais passeiam com o filho, é comum que as pessoas fiquem encantadas com os maneirismos diferentes da criança, esboçando enorme surpresa ao ouvirem, por exemplo,  um pequeno de 4 anos dizer “Infelizmente, acho que não poderei falar agora”, ler os nomes dos produtos numa loja ou montar quebra-cabeças muito complexos para a idade.

Embora todos os pais gostem de ter seus filhos elogiados, pais de crianças com Asperger vivem uma realidade um pouco diferente, cheia de conflitos: se, por um lado, é prazeroso receber o elogio de um filho, por outro, o excesso de admiração e frases do tipo “Como ele é meigo, que legal ele ter tanto interesse assim…” pode soar como um lembrete da angústia frequente de que a criança que os outros veem é bem diferente da criança real que eles têm em casa e da solidão que sentem quando ninguém valida o que dizem. Embora nenhum de nós seja na vida privada exatamente o que somos fora dela, no caso da presença de uma síndrome como Asperger, tudo acaba sendo excessivo, seguindo o próprio padrão mental do transtorno de ‘tudo ou nada’.

A síndrome de Asperger traz um funcionamento repleto de contradições. O comportamento dessas crianças costuma ser composto tanto de coisas admiráveis, como de coisas muito difíceis de se lidar no dia a dia. Infelizmente, o lado ‘abrasivo’ é um tanto frequente e excessivo e, na maioria das vezes, torna o convívio desgastante de um modo geral. Nem todas as crianças com Asperger são agressivas, mas boa parte o é. Muitas são excessivamente irritadiças e frequentemente agridem – mais verbal que fisicamente – em seus muitos momentos de descontrole emocional e impaciência, quase sempre por coisas aparentemente insignificantes aos olhos dos demais.

A leitura da maioria das pessoas, e isso inclui alguns psicólogos, é a de que crianças tão novas, em idades como 3, 4 ou 5 anos, não podem ter esse nível de capacidade para “escolher e determinar” como agir num ambiente e em outro não (entendido como ‘comportamento dissimulado’), ou seja, não pensam que uma criança tão jovem seja capaz de já fazer uso de uma “persona”, termo da psicologia para a máscara social que usamos em público e retiramos na vida privada, a que algumas pessoas popularmente se referem como ‘dupla personalidade’ (o transtorno real de dupla personalidade é um pouco diferente do que a opinião leiga supõe).

Soma-se a isso o fato de que crianças com o autismo do tipo clássico em geral não fazem a mesma distinção do ambiente em que estão para que manifestem ou não seus comportamentos típicos, enquanto as crianças com o autismo do tipo Asperger o fazem, especialmente devido ao fator QI, geralmente elevado para portadores dessa síndrome, e quanto mais alto ele for, mais capaz de diferenciar e represar certos comportamentos a criança será. Diferentemente das crianças com autismo clássico, a criança com Asperger participa do ambiente e não se aliena a ele na mesma proporção ou do mesmo modo que a criança com autismo clássico. Quando existe alienação, e a criança fica imersa em seu próprio mundo, não há razão para se preocupar com o entorno, ou seja, não se teme a reação do outro por não haver consciência dela. Com crianças com Asperger, isso é diferente. Embora estejam também inseridas no espectro do autismo, estão conscientes de muito mais fatores no ambiente do que crianças com autismo clássico costumam estar, e sua natureza analítica, que é a mesma observada em superdotados, faz com que criem verdadeiros mapas mentais de funcionamento social, inclusive para darem conta de seus déficits. A pessoa com Asperger tenta compensar racionalmente o que lhe falta intuitivamente no âmbito das relações interpessoais e noções de mundo, processo este substancialmente oposto ao da pessoa neurotípica (sem autismo).

No autismo, o motivo para que haja uma persona é geralmente diferente do motivo de pessoas sem autismo, ou seja, antes de qualquer dissimulação intencional e premeditada, o que existe é medo e confusão, pois temem a reação alheia e não são capazes de intuí-la ou compreendê-la satisfatoriamente e, portanto, prevê-la suficientemente. Isso melhora com a idade, pois a cada nova experiência social, a criança “computa” a informação e vai criando o mapa mental mencionado no parágrafo anterior.

Porém, seres humanos são entidades complexas. É impossível ‘quantificar’ com exatidão o quanto há de traços neurotípicos e neuroatípicos nas pessoas e delimitar onde começa um e termina o outro, até mesmo pela noção deficiente e subjetiva de normalidade que a sociedade possui, de modo que quadros mais leves de autismo, ou seja, que estejam mais próximos da divisa entre típico-atípico (autista borderline), possam eventualmente mesclar as deficiências comuns de sua condição com uma ou outra habilidade mais próxima do funcionamento neurotípico, gerando níveis variados de consciência do que fazem e do impacto de suas ações nos outros. Assim, embora uma síndrome diga muito do funcionamento do sujeito e ofereça informações essenciais para a compreensão adequada de seus comportamentos, jamais será capaz de defini-lo inteiramente.

Tony Attwood, em seu livro The Complete Guide to Asperger’s Syndrome (O Guia Completo da Síndrome de Asperger), diz que:

“Crianças pequenas que tenham os sintomas da Síndrome de Asperger podem ser capazes de usar estratégias de ajustamento e de formas construtivas de lidar com os problemas para camuflar seus déficits de interação social e comunicação. Elas podem atingir sucesso social ao observar e imitar os outros, criando uma “persona alternativa”, ou escapando para um mundo de imaginação através da brincadeira solitária de fantasia, leituras de ficção ou estando com animais em vez de colegas. Esses mecanismos podem mascarar as características da Síndrome de Asperger por algum tempo, de tal modo que a criança possa inclusive escapar do radar diagnóstico durante os primeiros anos da infância. Contudo, há um custo psicológico que pode acabar se tornando muito aparente mais tarde, geralmente na adolescência. É emocionalmente exaustivo constantemente observar e analisar o comportamento social, tentando não cometer um erro social ou ser percebido como diferente. Adotar uma persona alternativa também pode levar à confusão quanto à própria identidade e baixa autoestima. O stress, tensão e exaustão podem levar ao desenvolvimento de depressão clínica. […]” (Attwood, 2015 – p. 16)


O texto a seguir é a tradução de um artigo escrito pelo psicoterapeuta americano Mark Hutten, em seu site: My Aspergers Child – HELP FOR PARENTS OF CHILDREN WITH ASPERGER’S & HIGH-FUNCTIONING AUTISM (Meu filho com Asperger – AJUDA PARA PAIS DE CRIANÇAS COM ASPERGER & AUTISMO DE ALTO-FUNCIONAMENTO). O autor é especializado em crianças com Asperger, terapia e aconselhamento de pais. Ele costuma desenvolver seus artigos a partir de perguntas feitas pelos pais.

 

Crianças com Asperger e Dupla Personalidade

Resultado de imagem para split personality

“É comum para uma criança com Asperger ter dupla personalidade? Minha filha é uma criança muito boazinha na escola, mas o completo oposto em casa. Isso é normal?”

Asperger (autismo de alto funcionamento) é conhecido por manifestar-se de diferentes formas em diferentes crianças. Além disso, crianças com Asperger podem reagir diferentemente dependendo de suas personalidades individuais. Elas podem se sentir mais confortáveis com o ambiente familiar do lar, e sentirem-se mais livres para expressarem suas emoções do que em público, onde estejam cercadas de estranhos num ambiente igualmente estranho.

O stress da escola pode ser aliviado por uma “crise” ou outro comportamento difícil em casa. Essa é uma ocorrência comum¹. Um bom número de crianças com Asperger são santas na escola, mas descarregam sua angústia sobre os familiares quando chegam em casa. [¹ Grifo do tradutor.]

A Síndrome de Asperger costuma ser tratada de duas formas, e ambas ajudam a administrar a ansiedade que acompanha a desordem. A primeira forma de tratamento é através da psicologia cognitiva, e a segunda é através de medicação. A primeira coisa que você precisa fazer para ajudar sua filha é encontrar um psiquiatra ou psicólogo² especializado em Asperger. Este especialista irá ajudar você e à sua filha a identificar as razões por trás das mudanças comportamentais. [² A realidade do autor é a de que existem muito mais psicólogos especializados em autismo nos Estados Unidos do que aqui no Brasil, portanto, na nossa realidade, o mais recomendado é que se procure um psiquiatra em primeiro lugar e que só se procure um psicólogo que realmente entenda de autismo, geralmente para um trabalho conjunto depois, uma vez que a ansiedade e a agressividade comumente presentes no TEA dificilmente conseguem ser controladas sem medicação e esta acaba inclusive sendo uma ferramenta necessária para um melhor aproveitamento da psicoterapia].

Além disso, um especialista ajudará em duas outras coisas:

1. Modificar a situação ou ambiente em que sua filha vive de modo a reduzir o comportamento difícil.
2. Criar intervenções para manejar a ansiedade dela.

Por favor, não se intimide. As mudanças não precisam ser complexas ou impraticáveis. As mudanças necessárias podem ser apenas regular a intensidade da luz da sala para algo mais brando, ajustar o nível de barulho em casa ou criar uma nova rotina.

Se as intervenções iniciais não forem suficientes, um psiquiatra pode prescrever medicação para ajudar sua filha no que ela precisa. É importante observar que um psicotrópico (alterador de humor) como Zoloft ou Prozac podem ajudar as crianças, mas não estão livres de causar efeitos colaterais significativos. Se o psiquiatra prescreve medicação, tenha certeza da dosagem e pergunte sobre os possíveis efeitos colaterais.

[…]

Alguns comentários de leitores do artigo original em inglês, extraídos do site My Aspergers Child

Anônimo disse…

Ela provavelmente se sente hiperestimulada e toda a tensão por ser tão boa o dia todo a está estressando demais e ela descarrega num ambiente onde se sente segura. Meu filho era do mesmo jeito, então passamos a mandá-lo para a escola de manhã e a deixá-lo em casa à tarde para que ele tivesse mais sossego. Tem funcionado bem com a gente, mas não funciona para todos é claro.

Anônimo disse…

Meu filho sempre foi assim. Eles dão tão duro para se segurarem na escola que quando chegam em casa eles desabam. Eu prefiro que seja em casa do que na escola ou em outro lugar, mas isso nos desgasta muito depois de um tempo. Eu tenho pânico das 15:30 da tarde nos dias de escola! Aguente firme.

Anônimo disse…

Meu filho é um Asperger passivo. Ele fica bem na escola e quando chega em casa tem crise. O problema quando vão bem na escola é que os professores não notam o Asperger.

Anônimo disse…

Sinto muito. Meu filho agora tem 8 anos, mas só foi diagnosticado ano passado. Isso me custou anos de luta, muitas exclusões escolares, até mesmo em carga horária de meio período. Eles me culpavam, dizendo que o problema era a minha criação!

 

Anônimo disse…

Muito obrigada pelos conselhos. Estou num buraco e parece que não consigo sair. Irei ao médico na segunda. É tão frustrante.

 

Anônimo disse…

Segui as recomendações, anotei tudo por 2 meses. Me mandaram para um curso de pais que não ajudou e apenas tornou o comportamento dele pior.

 

Anônimo disse…

Isso não deveria ser uma luta. Estou cansada de tentar provar as coisas como se eu quisesse isso tudo. Só quero que meu filho seja calmo e feliz.

 

Anônimo disse…

Meu neto era o contrário. Ele se comportava mal na escola e muito melhor em casa. Descobri que rotina é a chave. É uma batalha que nunca termina. Agora que a escola está em recesso, ele voltou a se comportar mal em casa.

 

Anônimo disse…

Meu filho tem 11 anos e acabamos de descobrir que ele tem Asperger. Eu sempre soube que ele era diferente e sempre lutei com seu humor temperamental e dificuldades em casa. Também odeio como alguns parentes acham que é nosso estilo de criação que causa isso! Me parte o coração, pois tudo o que queremos é que nossos filhos sejam felizes. Estou muito feliz em ter encontrado esse site.

 

Anônimo disse…

Eu acho que muitas vezes nossos filhos se esforçam tanto para se segurarem que quando se sentem à vontade, em casa, explodem. Toda a ansiedade e frustração fica engarrafada e a tampa é aberta em casa.

Anônimo disse…

Sim, isso é muito comum.

 

 

 

5 comentários sobre “Crianças com Asperger: dupla personalidade?

    • Sim, a área da educação é absolutamente precária em informação e a psicologia não fica muito atrás quanto o assunto é autismo. É para isso que trabalho: para difundir conhecimento, pois através dele podemos mudar o mundo! Obrigada pelo comentário.

      Curtir

  1. Muito legal e informativo o seu texto. O tema é muito interessante, uma área a ser explorada. Estudo psicologia e esse assunto não é muito comentado nas matérias da grade curricular, e é assim na maioria das instituições. Geralmente são cursos de pós que focam mais em temas do tipo. Por isso o seu texto é muito informativo e importante.
    Abraço.

    Curtir

    • Obrigada pelo comentário, Alan. Como psicóloga, sei bem o que você quer dizer. Acredito que isso deva começar a mudar, pois o conhecimento de neuropsiquiatria (e psicofarmacologia) é fundamental para que um psicólogo exerça adequadamente a profissão, e as questões da sociedade têm nos mostrado bem isso. Fico feliz em saber que você se interessa e busca suprir as lacunas da formação. Psicólogos são fundamentais na vida das pessoas, precisam se capacitar sempre para ajudá-las verdadeiramente. Imagino que você vá se tornar um excelente profissional. Seja sempre bem-vindo por aqui!

      Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s