Dicas de auxílio e convívio com crianças com a síndrome de Asperger – para a escola, professores, outros profissionais, pais e familiares

Revisado pela última vez em: 01/10/2020.

O material abaixo foi desenvolvido inicialmente para professores e escola, como recurso que facilite o entendimento do perfil e das necessidades especiais da criança com síndrome de Asperger (síndrome que também é referida como autismo leve, autismo nível 1 ou autismo de alto funcionamento). No entanto, embora os pais sejam aqueles que sabem em primeira mão como é a realidade do dia a dia com a criança, inclusive eles podem se beneficiar das informações a seguir, para ampliar sua compreensão técnica do quadro e colher mais dicas, que podem facilitar significativamente a qualidade de vida de todos. A utilização desse material se estende, ainda, a familiares, amigos, médicos, terapeutas e todos aqueles que precisem compreender melhor o funcionamento da criança que esteja no espectro do autismo.

A introdução é composta da tradução do trecho de um livro cujo autor é autoridade no assunto, seguida de uma lista prática (elaborada pela autora do blog, psicóloga e pesquisadora do tema) com dicas de como lidar e o que observar na interação com a criança com Asperger, com exemplos que facilitem a compreensão das situações comumente encontradas no dia a dia.

Uma ideia aos pais é que compartilhem esse material com o professor sempre antes do início do ano letivo, e o utilizem como ferramenta de apoio para conversar com a escola sobre as necessidades da criança com Asperger.

Conhecer as características da síndrome de Asperger e suas dificuldades é de fundamental importância, especialmente na escola, que costuma ser o ambiente que concentra o maior nível de dificuldade e sofrimento para a criança no espectro do autismo. Um problema muito comum é que o professor fique admirado com a inteligência e fala desenvolvida da criança, e conclua que o quadro não requer maiores cuidados, afinal, a impressão geral é a de uma criança com boa desenvoltura e aparentemente sem grandes dificuldades.

Esse “relaxamento” do professor, quando não vê na criança as dificuldades que imaginou que veria quando foi informado de que receberia um aluno com autismo na turma, ou mesmo a comparação que faz em relação aos casos de autismo mais severos com os quais já teve contato, costuma ser uma cilada, pois, ao ignorar suas necessidades especiais não óbvias e oferecer à criança exatamente a mesma aula e tratamento que  funcionaria com a maioria das crianças, que são típicas (sem autismo), o que acaba acontecendo é que a criança passa a manifestar recusa em ir para a escola, em permanecer em sala de aula ou em fazer as tarefas, e os comportamentos típicos do quadro se evidenciam, tais como: desorganização interna, crises, ansiedade muito elevada (especialmente danosa para o sistema nervoso frágil da pessoa autista – para saber mais, clique aqui), oposição, agressividade ou aumento dos interesses obsessivos (fechando-se ainda mais em relação à participação das atividades da escola), com o risco bastante real de instalação de fobia social ou escolar que podem perdurar por anos, impactando seriamente a vida da criança.

É importante desenvolver no professor a consciência do que seja um transtorno que afeta a mente e o comportamento, pois eles não são profissionais de saúde mental e, infelizmente, a área de formação deles (que geralmente é pedagogia), não oferece qualquer ensinamento ou treinamento nesse sentido. Com a nova realidade de inclusão escolar de crianças com as mais variadas condições, cursos mais recentes de pedagogia incluem algumas noções gerais sobre alunos com necessidades especiais no currículo, mas o alcance dessa informação acaba sendo muito superficial e, portanto, insuficiente, ou, o que é pior, acaba ensinando estereótipos e generalizações simplistas e perigosas. A figura do professor não pode ser dissociada da figura de um terapeuta, uma vez que ele tenha uma responsabilidade equiparável sobre aquele ser humano em formação que a ele se submete.

Uma noção central que todo aquele que lida com pessoas precisa ter é que, quando falamos de transtornos que ocorrem na mente, estes não serão óbvios na maioria dos casos, mas poderão crescer em silêncio dentro do indivíduo como uma verdadeira bomba relógio se nenhum auxílio for oferecido. É preciso um bom nível de informação e percepção para identificar e compreender as condições que afetam a mente. A tendência natural das pessoas em achar que o que é perceptível é sempre mais grave do que o que não é perceptível, é um grande engano, pois, muitas vezes, é justamente o que não podemos ver que gera os maiores danos. Por exemplo, é frequente que um quadro de depressão passe despercebido até levar ao suicídio (algo mais comum na população Asperger que na população geral). A esquizofrenia e o transtorno bipolar são outros exemplos, podendo causar danos irreversíveis à vida das pessoas acometidas. Até mesmo um vírus, completamente imperceptível, pode causar mais danos que um acidente onde se fraturam várias partes do corpo, por exemplo.

Por isso, a responsabilidade de quem lida com pessoas, em especial em profissões-chave, como o médico, o terapeuta e o professor, é informar-se sempre, levando a sério orientações e alertas não somente de profissionais, mas também da família, que costuma ser quem mais tem percepção detalhada e cotidiana acerca das limitações da criança, que às vezes nem um profissional da saúde tem (por não conviver ou não ser especialista na condição em questão). A informação sobre o perfil da criança e o acolhimento das orientações essenciais será a diferença entre agir como fonte de apoio ou de agravamento das dificuldades. Sendo o professor o profissional que passa mais tempo com a criança, e o principal ponto de apoio num dos ambientes mais complicados para uma criança autista estar, que é a escola, seu papel é de vital importância.

No caso do autismo, duas das características do quadro, em especial, podem aumentar o potencial de agravamento de um problema: uma é a perseveração (tendência a permanecer por tempo indeterminado, que pode ser de meses ou anos, num mesmo assunto, dificuldade ou ação) e o outro é a rigidez mental (dificuldade de flexibilizar regras, opiniões, pontos de vista, percepções). Supondo, por exemplo, que um aluno autista tenha uma experiência traumática (do ponto de vista dele, não do nosso!) num dia escolar, a chance de fixar o ocorrido como “regra para aquele ambiente” e não conseguir “deixar pra lá” e seguir em frente (que é o que a maioria das pessoas faz) é muito maior que na população sem autismo.

Se o problema no ambiente escolar persiste, ocorrendo em aulas consecutivas, o que é comum quando o professor desconhece o quadro e insiste na atitude errada com a criança autista, isso fortalecerá cada vez mais o agravamento do problema, até que se converta em fobia, sendo extremamente difícil de reverter depois. A criança poderá carregar a fobia que se instalou por anos de sua vida, comprometendo sua vida pessoal e escolar. Se, por exemplo, o professor desconhece o fato de que crianças autistas costumam ter algum grau de prejuízo na ação motora, o que, no caso da ação motora fina, pode tornar o processo de desenvolvimento da escrita muito mais doloroso e difícil que para os colegas de mesma idade que não sejam autistas, esse professor poderá interpretar a resistência da criança como ‘manha’ ou ‘preguiça’ e querer forçá-la a cópias, escrita de longos textos e término de longas atividades, nivelando a dificuldade dela pela maioria dos alunos (não autistas!), condenando a criança ao desespero, pânico da escola ou de atividades escolares, aversão à escrita e baixo rendimento escolar. Dicas sobre como proceder nesse caso específico, muito comum no ambiente escolar, poderão ser encontradas no decorrer da leitura, mas uma regra de ouro ao lidar com crianças no espectro do autismo é: nunca force. Se a ideia de forçar algo já é questionável em se tratando de crianças em geral, no caso das com autismo este é o pior caminho a seguir.


Trecho do livro: THE AUTISM DISCUSSION PAGE: ON ANXIETY, BEHAVIOR, SCHOOL AND PARENTING STRATEGIES (PÁGINA DE DISCUSSÃO DO AUTISMO: SOBRE ANSIEDADE, COMPORTAMENTO, ESCOLA E ESTRATÉGIAS PARA OS PAIS), de Bill Nason

Imagem relacionada

“A ajuda começa e termina com entendimento. A coisa mais importante que um professor pode fazer para ajudar uma criança com a Síndrome de Asperger é aprender sobre a desordem, para que os comportamentos em sala de aula e problemas durante o aprendizado sejam compreendidos e não mal interpretados. Assim como a honestidade direta típica em Asperger pode ser interpretada como rudeza, também as ações pouco usuais de uma criança com a síndrome podem ser interpretadas como comportamento disruptivo.

É importante lembrar que uma criança com Asperger não tem a mesma capacidade de verbalizar/comunicar suas necessidades como o faz uma criança típica, então o professor deve poder ajudar essa criança a identificar o problema subjacente, que poderia ser um barulho ou cheiro incômodo (incluindo aqueles que nem sempre percebemos), uma frase ou palavra com associações negativas, frustração quanto a algo que não funcione perfeitamente, algum tipo de roupa que incomode, etc.

Os problemas de comportamento de crianças do espectro autista podem se apresentar de muitas formas, incluindo birras, andar ou correr pela sala, desatenção, pular, gritar ou fazer sons estranhos, atividades de autoagressão, cobrir o rosto, olhos, boca ou ouvidos, jogar coisas no chão ou pela sala, falar consigo mesmas, colocar ou tirar peças de roupa, engajar em atividades ou movimentos repetitivos, dentre outras coisas. Pacientemente avaliar a situação e tentar encontrar o foco do incômodo é a chave, e manter registros de comportamentos inadequados pode ser muito útil para ajudar a identificar os gatilhos de ansiedade (hora do dia, tipo de atividade, local, etc.).

Entender a situação ajudará o professor a modificar seu comportamento de forma a evitar problemas em potencial. Por exemplo, estar ciente de que crianças com Asperger geralmente são literais e buscam “exatidão, perfeccionismo”, é importante. Para uma criança que pensa dessa forma, imagine as dificuldades que podem surgir se o professor disser: “Não se mexam até eu voltar” ou “Pinte esse quadro da mesma cor da parede”. Gírias são um problema.

Aceitar o “mais ou menos, o conceito aproximado” das coisas permite que a maioria das pessoas siga adiante e complete as tarefas. Para uma criança com Asperger, no entanto, tais instruções podem levar à frustração: não poder se mexer por um tempo mais longo será impossível, as cores dos lápis não são exatamente da cor da parede. Assim, a frustração levará à raiva e ao comportamento disruptivo, não por más intenções, mas por uma tentativa honesta de seguir uma demanda impossível.

Crianças que estejam inseridas no espectro do autismo têm estilos de aprendizagem que, muitas vezes, diferem do que geralmente funciona para alunos sem o transtorno. É importante que o professor conheça o funcionamento dessas crianças, para que as estratégias de ensino surtam efeito e para que sejam avaliadas adequadamente.

A criança com Síndrome de Asperger pode se sentir mais à vontade para participar de atividades acadêmicas do que para brincar (o recreio pode ser fonte de profundo stress e não raro preferirão passá-lo na companhia do professor). Pode ser mais fácil lidar com a estrutura explícita de uma tarefa de aprendizagem, desde que não seja essencial a interação social com outras crianças (certamente preferirá trabalhos individuais e apresentará stress e inabilidade em atividades de grupo).

Devido à natureza sutil e penetrante da limitação, o professor também precisará atuar num nível igualmente sutil e penetrante, para estar presente na construção do dia da criança, exercendo, quase sempre, a função de tradutor, intermediário e amigo, para além do seu papel clássico de professor.

É importante que exista um diálogo entre o professor e os profissionais da saúde que estejam acompanhando a criança, bem como com a família, que geralmente funciona como recurso informativo importante sobre o funcionamento da criança”. (Bill Nason, 2014)


De modo prático e resumido, o quadro a seguir apresenta uma lista dos principais cuidados que o professor que lida com crianças do espectro autista precisa observar:

PARA O PROFESSOR

CHECKLIST DE CUIDADOS ESSENCIAIS COM ALUNOS NO ESPECTRO AUTISTA, COM FOCO NA SÍNDROME DE ASPERGER

Por Audrey Bueno

Imagem relacionada

1 – Um dos principais fatores causadores de ansiedade e desorganização interna em crianças do espectro autista é o fator sensorial: barulhos, muitas vozes juntas, insistir em continuar falando com a criança quando ela já demonstra sinais de ansiedade, tocá-la, segurá-la, abraçar forte ou pegar no colo, esbarrar nela, puxá-la pela mão ou braço, luzes fortes, cheiros (certos perfumes, produtos químicos, alimentos), ambiente agitado com muita conversa ou gritaria, impossibilidade de retirar-se para um local mais calmo e longe do grupo quando necessitar, roupas ou acessórios de vestimenta incômodos, temperatura do ambiente, tudo isso pode causar uma hiperestimulação sensorial que descompensa a criança, aumentando muito seu nível de stress e ansiedade, levando à exacerbação das dificuldades do espectro: fechar-se em si mesma, desligar-se das atividades do ambiente, falar sozinha, focar a atenção em algum objeto ou brincadeira repetitiva, gritar, ficar fazendo alguns tipos de sons vocais, tornar-se irritadiça ou agressiva (às vezes, auto agressiva, ou seja, ferindo a si mesma), dentre outros sinais de ansiedade típicos do autismo, conforme item 6 dessa lista.

2 – Outro fator central causador de ansiedade é a interação social. Momentos que são geralmente agradáveis para crianças típicas podem ser um pesadelo para crianças com Asperger. Dentre esses momentos estão o recreio, as brincadeiras em grupo, festas ou o caos da hora da entrada e saída da escola. Estas crianças preferem a estruturação e calma da sala de aula, em períodos de atividades pedagógicas, pois são momentos mais previsíveis, tranquilos, com barulho e agitação reduzidos e sem a necessidade de lidar com as surpresas e incertezas da interação social. O próprio fator sensorial contribui para um maior retraimento social, pois grupos, principalmente de crianças, tendem a ser barulhentos, além da natureza das brincadeiras ser mais agressiva e física, coisas que incomodam e assustam a criança com Asperger.

3 – O fator surpresa deve ser evitado: mudança e falta de previsibilidade causam ansiedade e pânico. Se a criança for pega de surpresa diversas vezes, ainda mais por atividades ou situações difíceis para ela, pode acabar não querendo mais frequentar a escola pela insegurança de nunca saber ao certo o que vai acontecer por lá. É preciso explicar cada coisa diferente que for ocorrer antes de ocorrer, trabalhando mudanças sempre de forma gradual, preparando a criança de modo que ela saiba o que esperar. Não partir do pressuposto de que a criança sabe o que vai acontecer apenas por uma introdução sem maiores detalhes. Por exemplo, a criança até concordou em participar dos ensaios para a apresentação de uma data festiva na escola. Durante os ensaios, estão presentes poucas pessoas – professor e colegas – , o ambiente está vazio, tranquilo, e a música é tocada mais baixa, inclusive porque o professor já foi alertado quanto à sensibilidade auditiva da criança e, respeitando isso, toma o cuidado de pôr a música num volume mais ameno. Então, perguntam à criança: ‘Você vai querer dançar no dia da apresentação?’ A criança responde que sim, afinal, no entendimento literal dela, todo dia de ensaio tem sido ‘dia de apresentação’. A dança e a música tem sido sempre iguais, portanto, por que não participar, certo? Errado. Os detalhes de cada evento, brincadeira ou nova atividade devem sempre ser explicados. No exemplo, o que não foi explicado a essa criança é que o ‘dia da apresentação’ é um dia DIFERENTE, em que haverá muito mais gente, que são pessoas que ela não conhece (os pais e familiares dos colegas), a música estará mais alta, o ambiente estará lotado e barulhento, haverá uma salva de palmas calorosa (crianças com Asperger costumam ter pavor de palmas e grupos cantando juntos, por isso, é frequente que tenham desespero de cantar parabéns em festas de aniversário) e ela não vai poder parar tudo para fazer outra coisa na hora da apresentação.

E, como já podemos imaginar, ela provavelmente dirá que não quer participar, o que deve ser respeitado e jamais se deve insistir. Dar à criança voz para dizer o que a incomoda é uma estratégia importante de sobrevivência que ela vai precisar desenvolver na vida, e ela só a desenvolverá se ouvirmos e respeitarmos suas escolhas. Isso significa para escola e pais que terão que abrir mão de certas convenções ou expectativas sociais, que não terão aquela filmagem bonitinha de apresentação do “Dia do Índio”, que serão alvo de olhares ou perguntas dos outros pais, mas é importante lembrar o que é mais importante: sacrificar o bem-estar da criança e expô-la ao pânico para cumprir com as expectativas dos outros, ou respeitar e acolher sua fragilidade, aceitando-a como ela é e ensinando-a a abraçar sua individualidade e ter orgulho de si mesma?

Festas são geralmente motivo de forte ansiedade para as crianças do espectro autista, pois são uma combinação de fatores sensoriais bastante estressantes para elas, dentre eles: barulho, muitas pessoas juntas (falando, se mexendo, gritando), toques, esbarrões, pessoas lhes dirigindo a palavra e esperando respostas sobre assuntos que ela não compreende muito bem, configurando a expectativa de interação social e pressão constante, agito e sensação de não ter um local calmo e seguro para se retirar quando o stress estiver intenso. Além disso, as festas com temas podem conter elementos surpresa que costumam ser assustadores para estas crianças: podem haver balões sendo estourados, crianças brincando de forma intensa (correria, gritaria, empurra-empurra, etc., principalmente quando há jogos ou competições, como em festas juninas ou gincanas), Papai Noel chegando de surpresa, Coelho da Páscoa pulando na frente da criança, palhaço puxando a criança pela mão ou levantando a criança no colo, brincadeiras populares como “Olha a Cobra” (todos gritam e se assustam), Dança de Quadrilha em Festa Junina (passar num túnel de gente pode ser assustador), etc. É preciso compreender que a criança autista pode não gostar do mesmo formato de festa que as outras pessoas e que, muitas vezes, o conceito de festa, para ela, é um ambiente calmo, com pouca gente e pouco barulho.

Aniversários: é bastante comum que crianças no espectro do autismo tenham aversão ao momento de cantar ‘parabéns pra você’ em festas de aniversário (delas mesmas ou de outras pessoas). Por isso, para a criança autista, o aniversário ideal pode significar pular essa parte das convenções sociais. O que acabam preferindo é acender a velinha, assoprar (o grupo já terá sido instruído a não fazer escarcéu nessa hora – assobios, vaias, gritos) e a alma compreensiva organizadora da festa, geralmente a mãe, já parte rápido para o “É isso aí, então vamos cortar o bolo!“, evitando crises e problemas diversos.)

4 – Dar sempre à criança a opção de não participar se não quiser, para que sinta a segurança de saber que não será obrigada a permanecer em situações estressantes demais para ela. Só essa medida já é um importante redutor de ansiedade. Uma estratégia recomendada é sempre explicar em detalhes à criança o que vai acontecer e perguntar se ela deseja ou não participar, dando sempre duas opções claras e concretas para ela escolher, por exemplo: “Agora, todos irão fazer uma brincadeira de bola na quadra. Vamos jogar a bola uns para os outros, correr e fazer exercícios. Você quer participar da brincadeira de bola na quadra OU quer ficar com a Professora “X” no lugar “Y”?” – Pode-se perguntar: “Você gostaria de apenas assistir para ver se gosta?” E, em caso de respostas negativas, deve-se sempre dizer: “Tudo bem, não tem problema se você não quer participar. Você vai ficar com a professora “X” no lugar”Y” e, se mudar de ideia, é só pedir à professora para te levar na quadra, tudo bem?” – O tom neutro e a escolha das palavras (as sugeridas são ideais) ao perguntar se a criança deseja participar são muito importantes, pois não pode haver insistência. Crianças inseguras e ansiosas podem concordar em participar sem que de fato queiram, por medo de contrariar o adulto que fala com elas em tom de poder, insistência e com elevação de voz. Isso é muito perigoso, pois uma fobia escolar e social pode realmente se instalar. É importante lembrar que esse tipo de fobia é especialmente comum em crianças com Asperger, portanto, todo cuidado é pouco. Uma analogia que pode ajudar a entender como deve ser o trato com crianças com Asperger é imaginar que sejam como “passarinhos silvestres”: se falar alto, apertar, gargalhar, tentar pegar, o passarinho voa para longe, assustado. Se deixar as migalhas de pão (as oportunidades de participar) disponíveis para quando o passarinho se sentir confiante para ele mesmo pegar, há maiores chances dele se aproximar. Por isso, é preciso cuidado com frases do tipo:

– “Vamos lá! Todo mundo!” (a criança pode se sentir acuada e entender o “todo mundo” literal, ou seja, já que “todos” irão, ela terá forçadamente que estar no meio);
– “E se a gente for só hoje?” (insistência)
– “Ah, mas você vai perder a brincadeira de bola???” (tom que indica que a criança está fazendo algo errado)
– “Meninos, para a quadra!” (tom de ordem e que, novamente, além de deixar a criança acuada, também a deixa confusa, se ela for um menino, por exemplo)

5 – Aplicar estratégias de “descompressão” do stress: o silêncio é sempre a melhor medida, mas sabemos que nem sempre é algo possível num ambiente coletivo como a escola; é preciso poder identificar quando há ansiedade e oferecer à criança recursos para relaxar, como ter um canto tranquilo em que possa se recolher sempre que precisar, suavizar demandas e dar a opção de fazer novamente uma atividade mais tarde se quiser, simplificar/modificar orientações e tarefas, encurtar o tempo em que se continua solicitando uma mesma coisa em que a criança já demonstra relutância, alternar exigências com atividades livres, controlar barulhos e agitação do ambiente, estar atento à temperatura, cheiros, iluminação no local, sempre lembrando de oferecer um outro lugar mais tranquilo à criança caso o ambiente não tenha como ser controlado naquele momento, o que é comum quando as crianças estão participando de alguma atividade mais agitada, como jogos, atividades físicas, etc. Permitir que a criança tenha acesso a um objeto preferido, como um paninho, chupeta ou brinquedo especial, também pode ajudar bastante.

Um recurso simples e que pode funcionar bem ao propósito desse item é ter um espaço com almofadas diversas (dependendo da infraestrutura, pode até ser num cantinho da própria sala de aula, atrás de uma estante de livros para dar alguma privacidade, por exemplo), e estabelecer uma regra geral de que caso alguém se sinta cansado, pode ir deitar um pouquinho na almofada, mas que se for lá é preciso ficar quieto e fazer silêncio, pois é uma área de descanso. Apresentar o novo cantinho das almofadas como regra de acesso geral ajuda a criança com Asperger a não se sentir alvo dos olhares dos colegas, pois as almofadas são para todos, ajuda as outras crianças a não se sentirem enciumadas por entenderem o novo espaço como algo criado apenas para “uma criança” e, ainda, todos podem se beneficiar do clima de acolhimento e respeito às necessidades de cada um e a sala ganha um ar mais aconchegante e humano.

Na vida, o convívio com pessoas mais sensíveis nos ajuda a desenvolver nossa própria sensibilidade e humanidade. Uma criança com Asperger pode ter muito a contribuir nesse aspecto, nos ensinando a valorizar pequenas coisas e a atribuir-lhes grandes significados. São um convite da vida para que aprendamos a ser solidários e cuidadosos ao adentrar o espaço do outro. Instituições que sigam um padrão sempre rígido e coletivo de funcionamento, incapaz de abraçar a individualidade, não são escolas que exercem valores humanitários, não sendo recomendadas a quaisquer crianças, e menos ainda às que tenham quaisquer tipos de sensibilidades extras, incluindo as com síndrome de Asperger.

6 – Aprender a reconhecer os sinais de ansiedade e desconforto, que são, muitas vezes, demonstrados pela criança de forma diferente do padrão encontrado em crianças sem o transtorno. A criança no espectro autista costuma ter dificuldade em expressar o que está sentindo. Isso significa que em vez de chorar e falar diretamente que não gostou ou que quer algo, esta criança pode simplesmente ficar paralisada, engajar em atividades repetitivas, estereotipias (movimentos repetitivos das mãos, falas ou sons repetidos, etc.), falar sozinha ou dizer coisas sem muito sentido, parecer desatenta (fechada em si mesma), focar a atenção em algo simples e mecânico, como um objeto que abre e fecha, texturas de alguma coisa do ambiente ou brincadeiras simples e geralmente manuais. Podem ainda gritar, pular ou falar sem parar como se estivessem hiperativas ou exageradamente felizes, bem como querer ir muito ao banheiro ou tomar muita água, geralmente como estratégia para se ausentar do local ou interromper uma atividade, afastando-se dos agentes estressores do ambiente. Elas nem sempre têm consciência do que as incomodam e podem “culpar” outras coisas ou pessoas que nada têm a ver com a questão, muitas vezes de forma rude, quanto maior for o nível de ansiedade (esse é um dos motivos pelos quais controlar a ansiedade é importante, para evitar que a situação escale para esses momentos de descontrole e para permitir que a criança esteja no seu melhor funcionamento). Podem, por exemplo, estar incomodadas com o cheiro da massinha em sala de aula e, em vez de comunicarem isso, podem dizer que o colega ‘está fedendo’. Ou podem começar a pular e fazer sons repetitivos, sem atender aos comandos e chamados da professora, porque seu sistema sensorial sobrecarregou o sistema nervoso não está dando conta de processar outros estímulos no ambiente (como a voz e conversa da professora). É preciso compreensão nesse momento, lembrando que tal atitude não é intencional e não deve ser levada para o lado pessoal. Não adianta querer conversar e argumentar nessas horas. O ideal é oferecer um ambiente calmo e o mais neutro possível à criança, até que ela se recupere. Saber de algo que ela tenha interesse especial ajuda, pois o objeto ou atividade podem ser oferecidos a ela nessas horas.


A seguir, outras dicas e considerações importantes

Sonhar com pássaro na mão: o que significa? É bom ou ruim?

Fonte da Imagem

• Antecipar o que irá causar ansiedade e fazer as alterações necessárias. A melhor medida é sempre preventiva, ou seja, evitar a ansiedade sempre que possível para tentar impedir que os problemas apareçam. Achar que a criança ‘precisa aprender a lidar com isso’ – o que é uma postura comum de educadores com crianças típicas – e, portanto, expô-la à situação difícil para que ‘enfrente’ o problema, pode ser muito perigoso. Em vez de enfrentar a situação, a criança com Asperger pode desenvolver uma fobia debilitante. O tempo da criança deve sempre ser respeitado. O enfrentamento deve ser estimulado de modo muito gradual, ou seja, em pequenas doses de cada vez, sempre perguntando à criança se ela deseja participar e sempre informando previamente o que irá acontecer, como já descrito no item 4 da lista acima. Também é importante que tentativas de treinamento de novas habilidades sejam no momento certo, que nunca é quando algum stress anterior tiver recém-ocorrido ou após um longo dia. Se, por exemplo, a criança já esteve exposta ao barulho e agitação do recreio, um colega a empurrou ou uma pessoa estranha veio fazer uma palestra na escola, este certamente não será um bom dia para querer que a criança enfrente o seu medo de festas, querendo que participe de uma logo mais, afinal, seu sistema nervoso já estará suficientemente sobrecarregado pelos eventos anteriores.

• Compreender a capacidade limitada da criança para entender o funcionamento social, psicológico e emocional das outras pessoas e sempre explicar o que aconteceu, por mais óbvio que possa parecer. Por exemplo, ela pode não compreender o conceito de “foi sem querer” e bater no colega que havia apenas esbarrado nela, por ter entendido aquele esbarrão como agressão. Se, nessa hora, o professor ficar dizendo “Peça desculpas! Foi sem querer!”, a criança pode se recusar a pedir desculpas porque, no entendimento dela, ‘sem querer’ não significa nada, já que ela não sabe o que isso quer dizer. O ideal é sempre falar as coisas dando várias explicações sinônimas. Por exemplo, o professor poderia ter dito: “O colega não viu você, por isso encostou em você, foi sem querer. Podemos pedir desculpa por ter batido nele?” Ser tolerante com o fato de que ela pode não entender mesmo após a explicação, além de maleável, não forçando a criança a pedir desculpas se não entendeu o porquê naquele momento, já que se estiver estressada, sua capacidade de análise dos fatos estará reduzida. Haverá momentos futuros em que poderá fazê-lo. Pode-se dizer ao colega que ficou sem o pedido de desculpas algo do tipo: “O Paulo está nervoso e não consegue pedir desculpas agora, vamos esperar que se acalme primeiro.”, já afastando as crianças uma da outra ‘disfarçadamente’, para que a briga não recomece.

• Não insistir para que a criança dê “oi” e “tchau”. O adulto deve sempre servir de modelo, cumprimentando e se despedindo, mesmo que não obtenha resposta, mas de forma breve, leve, sem insistir para a criança fazer o mesmo, mudando logo o foco, até que um dia, por imitação, a própria criança resolva começar a fazê-lo por si só, o que pode levar anos em comparação às crianças sem o transtorno.

• Intermediar e direcionar a interação da criança com os colegas de sala, como forma de contornar a ‘falta de tato’ comum em crianças com Asperger, além de aproveitar a oportunidade para ensinar o comportamento apropriado. Esse, aliás, é mais um motivo pelo qual manter a criança com Asperger sentada sempre na carteira mais próxima possível do professor é importante, caso esteja numa escola que siga um método de ensino mais tradicional. Isso também ajuda o professor a monitorar bullying. É importante ajudá-las a estruturar as frases, e muitas vezes será o caso dar modelos de frases prontas a elas. Só dizer “Isso não foi gentil.’, esperando que ela saiba o que dizer, não adianta. A ajuda deve ser mais concreta, dirigida, por exemplo: o Paulo (que tem Asperger) quer a borracha do colega e diz “Dá aqui essa borracha!”, ao que o professor intervém dizendo ao colega: ‘O que o Paulo está querendo dizer é que está pedindo sua borracha emprestada, não é Paulo? Então, Paulo, diga assim para o seu colega: ‘Você pode me emprestar a sua borracha, por favor?’ (= modelo de frase pronta). Não se deve esperar que a criança reproduza a frase que acaba de ser ensinada imediatamente, pois ela precisará de tempo para processar a informação, além do que qualquer foco de olhares ou expectativa sobre ela a deixará ansiosa o suficiente para não só não conseguir reproduzir aquela frase naquele momento, como ainda pode fazer com que piore a situação. Essa estratégia de não focar muito o olhar ou atenção na criança que fez algo inadequado serve, inclusive, para crianças com quadros de ansiedade em geral, e não somente para as com Asperger.

• Interpretar situações para a criança. Por exemplo, ela tropeça no pé do colega e acha que o colega ‘quis’ derrubá-la, precisando de auxílio para compreender o que houve realmente. Crianças com Asperger tendem a ser persecutórias, às vezes, porque sentem que as pessoas reprovam certas ações ou falas delas sem que entendam o motivo. Assim, ficam na defensiva. Outro ponto que contribui para um estilo de personalidade persecutório em crianças com a síndrome de Asperger é a dificuldade de compreensão da dinâmica social, das intenções e emoções das pessoas, de modo que interpretem brincadeiras, esbarrões ou risos como coisas negativas e agressivas, muitas vezes. Conforme ficam mais velhas, tudo isso vai melhorando, mas leva um longo tempo em comparação a pessoas não autistas.

• Compreender as dificuldades sutis de comunicação. Crianças do espectro autista têm dificuldade em falar sobre si mesmas ou em formular opiniões sobre outras pessoas, têm dificuldade em compreender os turnos na conversa, ou seja, quando é a vez de quem falar, e podem interromper ou começar a falar quando deveriam fazer silêncio, por exemplo). Nunca puni-las ou expô-las socialmente, recriminando de forma ríspida ou cobrando que digam logo uma resposta. O ideal é tirar logo o foco de atenção de cima da criança e propor outra coisa ou que ela participe depois, se quiser e, quanto ao comportamento inadequado, abordar genericamente com o tom de voz mais neutro e calmo possível, sempre instruindo e não criticando: “Pessoal, quando um colega estiver falando, a gente espera ele acabar primeiro, ok?” Essa dificuldade de compreensão da perspectiva do outro também interfere na correta oferta de informação. Geralmente, falta uma introdução e frases soltas fora de contexto podem ser problemáticas. Por isso, frases que gerem algum estranhamento ou alerta nunca devem ser tomadas ao pé da letra. Sempre pergunte mais, investigue antes, para ter certeza da situação por trás da frase. Por exemplo, a criança pode dizer “Meu tio arrancou o olho do gato!” Ao tentar compreender melhor o que houve, descobre-se que o que realmente aconteceu foi que a criança tinha um gato de pelúcia e quando o tio o pegou na mão, o olho se desprendeu, e a criança achou que o tio tinha propositadamente arrancado o olho do gato… de pelúcia!

• Crianças no espectro do autismo também têm um pouco mais de dificuldade para assimilar o conceito de ‘eu’ e ‘você’. Assim, podem atribuir sentimentos ou ações próprias a outras pessoas, como se projetassem o que sentem no exterior. Por exemplo, elas querem tomar sorvete e dizem para você: ‘Você quer muito tomar sorvete, não é?’. Podem trocar pronomes (‘meu’ e ‘seu’, ‘eu’ e ‘você’, por exemplo), ou palavras que reflitam a troca entre ‘eu’ e ‘outro’, como dizer ‘Pergunte!’, enquanto o que queriam dizer de verdade seria: ‘Responda!’.

• Não insistir para que a criança responda uma pergunta a que já tenha demonstrado alguma relutância inicial. Perguntas pessoais são muito difíceis para essas crianças, como, por exemplo, o que fizeram no fim de semana, qual a idade ou o nome delas. Quanto mais familiaridade e intimidade com a pessoa elas desenvolvem, maiores as chances de responderem melhor, mas, mesmo assim, nem sempre o farão. Uma dica para estabelecer um bom vínculo com crianças com Asperger, aliás, é nunca fazer muitas perguntas e, caso faça, foque em perguntas sobre coisas e objetos com mais frequência.

• Compreender as origens e função da rigidez e obsessão no comportamento da criança, geralmente expressa na forma de rituais, que são comportamentos repetitivos, popularmente chamados de ‘manias’ (o termo ‘mania’ na psiquiatria tem outro significado). Para quem não compreende o transtorno, muita coisa acaba sendo interpretada como “manha”, quando na verdade não é. Assim, a criança geralmente não consegue ter controle sobre a insistência de cumprir o comportamento repetitivo em questão. Se ela, por exemplo, insiste em tomar água somente num determinado copo ou tem que fazer um mesmo desenho toda vez antes de sair de casa ou da sala de aula, é por que tal comportamento serve para ajudá-la a lidar com alguma ansiedade específica para a qual ela ainda não desenvolveu recursos internos suficientes que lhe permitissem lidar com a situação de outro modo, ou seja, nesse momento da vida, o cérebro dela só codifica essa forma de resolução de problemas. Assim, é preciso compreender que o não cumprimento da ação pode acarretar em descompensação psíquica e emocional¹ bastante nociva para a frágil regulação interna da criança. Esse tipo de mania obsessiva tende a melhorar com o uso de medicamentos, mas dificilmente sumirá por completo.

¹ A descompensação emocional se parece muito com uma birra típica, o que gera a interpretação equivocada das pessoas de que o comportamento se trate apenas de ‘manha’, mas, no caso dessas crianças, existem certas particularidades em como essa birra se manifesta e qual a função dela. Enquanto uma criança típica faz birra por que quer um brinquedo ou não quer ir embora do parque, a criança com Asperger faz birra porque o paninho dela está na cadeira da direita em vez da esquerda ou porque alguém encostou a mão no livro que ela estava lendo. Os motivos do que ocasionou a birra nem sempre ficam claros para os outros e algo aparentemente insignificante toma proporções gigantescas, pois crianças autistas são muito focadas nos detalhes. As birras de crianças autistas são mais intensas e duradouras, e os efeitos do stress podem se estender por dias após o ocorrido, desregulando o sono, o apetite e as funções gastrointestinais, além de intensificar os comportamentos negativos do autismo, como se bater, se fechar ao contato social, ou passar o dia brincando ou falando apenas de uma única coisa. Dependendo da situação, uma fobia pode se instalar.

• Analisar ou simplificar as atividades que causem alarme.

• Prestar apoio à criança nas atividades físicas, caso haja problemas de destreza, como vestir-se ou limpar-se. Como costuma haver alguma alteração motora, deve-se ter atenção a locais potenciais para quedas ou acidentes, uma vez que essa criança tende a tropeçar bastante e bater o corpo/a cabeça em quinas ou paredes. É frequente a percepção de que a criança parece desastrada e que derruba muito as coisas.

• Estar preparado para os períodos de ansiedade com atividades adequadas de redução da tensão, como, por exemplo, alternar atividades de atenção com outras livres, propor alguma atividade ligada a algum tema de interesse da criança, oferecer a opção de um local mais tranquilo ou acesso a um objeto preferido. Perguntar aos pais o que é possível fazer nesses momentos, ou seja, o que ajuda nessas horas, é fundamental.

• Prestar apoio na ligação casa/escola e registrar os progressos e informar acontecimentos cotidianos, tanto para informar os pais sobre alguma ocorrência nas dependências da escola, para que estes pais possam melhor compreender alguma alteração de comportamento da criança em casa, como para eventuais relatórios que tenham que ser emitidos aos profissionais que acompanham a criança.

• Além do tom de voz, observar a maneira com que interage fisicamente com a criança, e o excesso de estimulação sonora, visual, tátil, olfativa ou de paladar, lembrando que essas crianças têm sensibilidades sensoriais. Quanto mais calma e delicadeza a criança perceber no trato com ela, mas acessível ela se mostrará e maior a confiança dela no professor. Beijos “estalados” perto do ouvido, abraçar a criança enquanto fala (o que acarreta em estar falando com ela com a boca muito próxima do ouvido sensível que elas têm), tirar a blusa da criança com pressa (a blusa pode passar apertada pelas orelhas e nariz, e causar alarme), pentear o cabelo, escovar os dentes dela, subir demais o zíper da blusa de forma que “enforque” o pescoço, pôr a meia e puxá-la muito (o que aperta mais os dedos na frente), meias com costuras grossas podem machucar os dedos, enfim, tudo deve ser sempre com delicadeza e atenção aos detalhes referentes aos 5 sentidos do corpo humano.

• Respeitar a necessidade de isolamento da criança quando houver estímulo social em excesso (nunca forçando-a a interagir ou permanecer numa atividade de grupo), compreender o receio da criança em fazer parte de situações que a coloquem como “centro das atenções” ou exponham suas dificuldades (apresentações, perguntas para a classe toda ouvir, etc.), pois elas percebem que são diferentes e podem se retrair ainda mais socialmente se sentirem rejeição, vergonha ou cobrança excessiva sem apoio emocional, em especial pelo adulto que têm como fonte de referência e segurança no ambiente escolar, que geralmente é o professor. Castigos que expõem a criança publicamente, como chamar a atenção ou perguntar por que ela fez algo na frente de todos, ir para o canto da sala “pensar” ou escrever algo na lousa NUNCA devem ser ações adotadas.

• Solicitar ajuda e respaldo técnico sempre que sentir necessidade, estabelecendo comunicação com pais, coordenação ou outros profissionais que estejam trabalhando com a criança no momento, afinal, embora lidar com crianças que fujam ao desenvolvimento típico traga benefícios, como um aumento considerável de experiência e conhecimentos acerca do desenvolvimento humano e as vitórias e sentimento de dever cumprido ao acompanhar os progressos do dia a dia, estas crianças trazem, também, um desafio que pode gerar confusão, stress e sobrecarga no professor, assim como em todos aqueles que convivam mais intensa e diariamente com a criança e estejam em posição de amparar e suprir suas necessidades. Lembrar que os pais são os que conhecem toda essa realidade em primeira mão, especialmente porque cada criança tem suas particularidades, independentemente do diagnóstico, enriquece bastante o aprendizado e o progresso de todos.

Por fim, fica a sugestão da leitura de um pequeno, porém importante, artigo (aqui  mesmo texto referido no link sobre bullying) escrito por Adriana Campos, psicóloga que vivencia a síndrome em sua prática clínica, cujo trecho trago abaixo:

“O contato com estas crianças, com quem habitualmente estabeleço uma excelente relação, leva-me a concordar plenamente com a opinião de Tony Attwood, psicólogo clínico especialista mundial em síndrome de Asperger, relativamente às capacidades e talentos dos portadores desta síndrome. A capacidade para estabelecerem relações de grande lealdade, o discurso isento de falsidades, a conversação objetiva e sem manipulação, a perspectiva original de resolução de problemas e a clareza de valores fazem deles pessoas muito especiais. Como diria este especialista, “Precisamos de pessoas com Asperger, uma vez que são mais criativos do que a população em geral. A cura para o cancro será provavelmente descoberta por alguém com Asperger!”(Attwood, T. (1998), A Síndrome de Asperger: Um Guia para Pais e Profissionais, Editorial Verbo, Lisboa., apud Adriana Campos).

Nota: trecho adaptado do português europeu para o brasileiro.

Você encontra mais sobre isso no texto: “O que o professor precisa saber sobre autismo“, no portal do programa da TV Cultura “Papo de Mãe”.

E no YouTube você também encontra a gravação completa do programa “Papo de Mãe” cujo tema foi SÍNDROME DE ASPERGER. É um programa menos “técnico”, mas repleto de informações úteis e que traz mães falando sobre a síndrome em seus filhos, com a participação de duas profissionais sobre o assunto, uma neuropediatra e uma psiquiatra infantil. Este programa oferece uma visão que pode ser bastante interessante para a escola.

 

Dicas extras de leitura:

Passo a Passo da Adaptação Escolar para Crianças com a Síndrome de Asperger

Resumo Informativo – O que é a síndrome de Asperger 

3 comentários sobre “Dicas de auxílio e convívio com crianças com a síndrome de Asperger – para a escola, professores, outros profissionais, pais e familiares

  1. Pingback: PASSO A PASSO DA ADAPTAÇÃO ESCOLAR PARA CRIANÇAS COM SÍNDROME DE ASPERGER | Síndrome de Asperger

  2. Pingback: Autismo: por que a escola não entende o que o meu filho tem? | Síndrome de Asperger

  3. Pingback: Características de Crianças com Síndrome de Asperger | Síndrome de Asperger

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s