Desafios na Escola

O texto a seguir é a tradução de um trecho resumido do livro THE AUTISM DISCUSSION PAGE: ON ANXIETY, BEHAVIOR, SCHOOL AND PARENTING STRATEGIES (PÁGINA DE DISCUSSÃO DO AUTISMO: ANSIEDADE, COMPORTAMENTO, ESCOLA E ESTRATÉGIAS PARA OS PAIS), de Bill Nason.


Sobre o autor:

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Bill Nason

Bill Nason, psicólogo especializado em autismo, tem 35 anos de experiência trabalhando com indivíduos com distúrbios do espectro autista; há onze anos desenvolve programas para crianças e jovens adultos com autismo ou síndrome de Asperger na Universidade Oakland, em Michigan, Estados Unidos. É o mediador de uma página de discussão sobre o assunto no Facebook, com mais de 75.000 pessoas, e autor de dois livros sobre estratégias de tratamento para pessoas com autismo.

 


Tradução: Audrey Bueno

“Sempre tenha em mente que um dia na escola pode ser muito exaustivo e causar enorme sobrecarga em crianças do espectro autista. O bombardeio sensorial, a tensão social e as demandas acadêmicas podem sobrecarregar um sistema nervoso já vulnerável. Nosso mundo apresenta muita coisa, muito rápido, e muito intensamente para muitos no espectro. Muitas dessas pessoas têm atrasos de processamento que tornam o dia a dia mais dispendioso. Elas têm que pensar conscientemente em muito do que pessoas sem autismo processam de forma subconsciente e fluída, com mínimo uso de energia mental. A reserva de energia das pessoas no espectro autista se esvai muito depressa, é preciso lhes fornecer pausas, momentos mais tranquilos e tempo sozinhos para se restabelecerem. Não pressione, não insista, não force. Deixe que eles sigam no ritmo deles. Dê-lhes uma voz para que possam dizer “não” e “preciso de ajuda”. Como professor, ajude-os a se sentirem seguros em sua presença, oferecendo compreensão. Em meio ao caos, eles precisam se sentir seguros e aceitos, e saber que podem contar com você.

Mude as condições primeiro, antes de tentar mudar a criança. Quando a criança não está se comportando apropriadamente ou não progride como esperado, é muito tentador culpar a criança. A primeira tendência é esperar que a criança mude para atender às nossas expectativas, em vez de mudarmos nossas expectativas para que estejam mais de acordo com as possibilidades da criança. Nós assumimos que a culpa é da criança se não consegue corresponder às nossas expectativas e que, portanto, a responsabilidade é da criança em mudar. Isso pode ser muito danoso para as crianças, uma vez que elas geralmente não dispõem de recursos internos ou habilidades para promover tais mudanças.

Para evitar essa armadilha, devemos começar com a seguinte premissa: pense que a criança está fazendo o melhor que pode, dada a situação em que está inserida, e seu atual nível de habilidade em lidar com tudo isso. Muitas vezes, se a criança está se comportando de maneira inapropriada e não correspondendo às expectativas, é porque as demandas sobre ela são maiores do que as habilidades que ela possui. Quando nossas demandas correspondem às possibilidades da criança, ela vai aprender e se desenvolver.

Primeiro, observe o espaço físico em que a criança está (sala de aula, refeitório, corredores, pátios, etc.). Há muito barulho, muita atividade, muita estimulação sensorial que sobrecarrega ou distrai a criança? Segundo, as demandas são muito intensas? Há muito o que fazer ou a apresentação das tarefas está inadequada? Existem mais recursos visuais que possam ser utilizados para facilitar o entendimento e ajudá-la a não se perder durante a execução das tarefas? A criança dispõe de energia suficiente durante o período das atividades pedagógicas? Passou por situações especialmente estressantes antes do início das atividades em sala de aula? Uma vez que a energia mental dessa criança tenha sido exaurida, ela se sobrecarregará rapidamente e tenderá a se fechar.

Observe suas interações com a criança. Ela sente que você a apoia e respeita em suas necessidades? Ou você está exigindo demais? A criança se sente aceita e competente com você? Se a criança está insegura, amedrontada ou ansiosa com a modo como a abordamos, ela tentará ainda mais escapar e evitar nossa orientação. Muitas das questões de comportamento estão relacionadas a como o adulto interage com a criança. A qual estilo de interação a criança responde melhor (devagar e quieto, ativo e animado, etc.)? O estilo de interação terá muito a ver com sentir-se seguro e com o aprender.

Tente manter uma rotina previsível para o dia. Quadros visuais ajudam a criança a se situar em relação ao que vem depois do quê, o que reduz a ansiedade. Estas crianças geralmente têm problemas com a noção de tempo e organização. Quanto mais concreta, visual e previsível a rotina da criança, melhor. A incerteza é uma grande inimiga de crianças no espectro autista.

Crianças com autismo podem ser muito diferentes quanto ao desejo de interagir. Elas podem ser indiferentes e desinteressadas e precisarem de estímulo, ou podem ser muito sociais e verbais, sem saber quando parar. As mais sociais geralmente irão interromper, falar sem parar sobre um assunto de interesse, dominar a conversa e podem sobrecarregar os colegas com isso. Elas não sabem como seu comportamento afeta as outras crianças e precisarão de muita ajuda para compreenderem isso.

Foque em seus pontos fortes e interesses. Crianças no espectro geralmente têm excelente atenção ao detalhe e um ou dois interesses muito fortes. Elas podem ter uma excelente memória para fatos e detalhes, mas não “pegarem fácil” o tom das coisas. Identifique quais são os pontos fortes e interesses delas, e tente aproveitá-los nas lições. Como qualquer criança, sempre que focarmos em seus pontos fortes e acolhermos seus pontos fracos, elas se desenvolverão.

Tenha em mente que crianças no espectro podem ter problemas organizacionais similares aos encontrados em crianças com transtornos de déficits de atenção.
Não presuma. Serem muito verbais não significa que entendem tudo o que é dito. Estas crianças são muito literais e têm dificuldade em compreender múltiplos significados ou linguagem vaga. Explicar da forma mais literal possível e checar se entenderam, pedindo que repitam o que você explicou é uma boa forma de checar erros de interpretação. Não pense que a criança esteja propositadamente entendendo errado. Raramente é esse o caso. Contudo, não espere ser capaz de antecipar todos os problemas, pois ninguém consegue tal façanha.

O pensamento dessas crianças é muito preto no branco, tudo ou nada. Quanto maior a ansiedade, mais rígido e inflexível o pensamento. Elas podem ficar incomodadas com regras ou expectativas vagas, e tornarem-se ansiosas, demonstrando isso através de comportamentos obsessivo-compulsivos ou desafiadores. Quanto mais ansiosos, mais perfeccionistas e irrealistas quanto às expectativas sobre o próprio desempenho e desempenho dos outros. Estas crianças podem ter um medo exagerado de errar e precisam ter certeza de que fizeram certo.

Geralmente, os momentos de maior ansiedade no dia serão durante os períodos de atividades não estruturadas, como recreios, lanche, intervalos entre aulas, corredores, etc. É importante sempre observar se a criança não está sendo vítima de bullying dos colegas, pois elas precisarão de ajuda para impedir isso.

Para crianças que sofrem de quadros de ansiedade, como a grande maioria das crianças no espectro, as substâncias químicas liberadas pelo corpo em resposta ao stress se acumularão no organismo ao longo do dia. Por isso, é importante que estas crianças tenham intervalos frequentes para que possam se reorganizar e restabelecer parte da energia. Se tiverem sofrido algum stress maior no dia anterior, podem ainda não ter conseguido recuperar as energias, nem mesmo depois de uma boa noite de sono.

Crianças no espectro dirão que algo é estúpido ou chato quando se sentirem inseguras ou incompetentes. Lembre-se: quanto mais opositora a criança se apresentar, mais inadequada, insegura e ansiosa estará se sentindo.

Por conta de suas dificuldades organizacionais, essas crianças podem parecer preguiçosas, opositoras ou com atitudes ruins. Por terem boas habilidades verbais, as dificuldades sociais e emocionais são geralmente menos perceptíveis e o problema parece muito menor para quem olha de fora. Estas crianças não são manipuladoras e opositoras por natureza, e sim como um meio de lidar com as incertezas.

Quando a criança se sobrecarrega e explode em comportamentos indesejados, não puna, não se torne controlador ou exigente. Nesses momentos elas não têm poder de controle ou pensamento crítico ativo. Retire as demandas e reduza a estimulação (inclusive sensorial, falando o menos possível, e baixo). Ofereça assistência, mas tenha consciência que muitas dessas crianças precisam de tempo a sós para se reorganizarem. Uma boa ideia é criar um local seguro para onde elas possam ir quando precisarem desse tempo.

Até que desenvolvam estratégias para lidar com o stress, o que é um processo de anos, estas crianças precisarão de apoio, entendimento e esforços da nossa parte para adaptar o ambiente de forma a reduzir a ansiedade antes que esta escale para explosões emocionais e comportamento inadequado. Isso não significa que a criança vá ser autorizada a ter sempre o que quer ou que não vá arcar com as consequências dos maus comportamentos, mas significa que devemos ser especialmente flexíveis e compreender o momento de ensinar qual o comportamento esperado, que nunca são os momentos de ansiedade, explosões e descompensação interna elevada, e devemos focar nossos esforços em minimizar a ocorrência dos gatilhos geradores do problema mais do que em punir o problema em si. Punições mais eficazes são a retirada de algum benefício, como TV ou um brinquedo (mas nunca retirar um item a que a criança seja especialmente ligada como forma de apoio emocional, como um paninho de conforto, por exemplo). E nunca punir a criança expondo-a em contexto social.

Em transições entre atividades, é importante dar avisos gradualmente antes de mudar de uma coisa para outra, por exemplo: “Em cinco minutos, vamos guardar os lápis e as folhas e pegar nosso livro”, seguido por lembretes de 3 e 1 minuto.

Outro ponto importante é lembrar que crianças no espectro geralmente precisam de mais tempo para completarem algumas atividades, pois tendem a ter menor competência executiva, distraem-se com mais facilidade e dedicam uma atenção aos detalhes e perfeccionismo maior, o que consome mais tempo. É por isso que as escolas oferecem uma hora a mais para a realização de provas para alunos com a síndrome de Asperger. Local isolado para fazer a prova é outra adaptação comum para os portadores da síndrome.

Certifique-se de que a criança saiba como pedir ajuda, pois mesmo sendo muito verbais, podem não se sentir seguras em fazê-lo.

Independentemente do quão inteligentes estas crianças possam ser, elas podem achar as demandas normais do dia a dia e da sala de aula mais estressantes que as outras crianças. Participar das interações normais com as outras crianças e professor exigirá um esforço consciente a mais em relação aos seus pares.

Os pais podem providenciar uma lista dos interesses, medos e sensibilidades do filho, bem como dicas do que geralmente ajuda para que se sintam seguros, aceitos e tranquilos, para ajudar o professor a compreender melhor a criança e propiciar os ajustes necessários.

Focar a atenção no que se quer que a criança faça e reduzir a atenção sobre o que ela esteja fazendo errado poderá ajudá-la a se sentir mais competente, segura e motivada.
Ajudar crianças do espectro autista a se sentirem seguras, aceitas e competentes na escola irá requer adaptações no ambiente físico, nas demandas, estratégias de ensino e maneiras de interagir com a criança. Muitas vezes, será preciso um longo período, de meses ou mesmo anos, para que se consiga analisar e criar mudanças que garantam um ambiente escolar bem-sucedido”. (Bill Nason, p. 239 – 245)

4 comentários sobre “Desafios na Escola

    • Não há de quê! Como diz um outro autor internacional muito conhecido no mundo Asperger, Tony Attwood: “A ajuda começa e termina com entendimento.” Se seu filho estiver em fase escolar, pode ser útil compartilhar o blog com a coordenadora e professora, pois o que essas crianças mais precisam é que as pessoas que convivem com elas as compreendam. Obrigada pelo comentário!

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    • O autor, Bill Nason, é um dos maiores especialistas em Asperger atualmente. Ele e Tony Attwood são dois dos maiores autores sobre o assunto na atualidade. Infelizmente, seus livros ainda não foram traduzidos para o português. A literatura (e pesquisa) estrangeira está anos à frente no conhecimento da síndrome. Obrigada pelo comentário!

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