Aprofundar-se em filosofia pode apaziguar a depressão existencial

 

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“Um ser humano é uma parte do todo que chamamos de universo, uma parte limitada no tempo e espaço.”

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Embora esse artigo tenha sido inicialmente pensado para um público específico, o das pessoas com a síndrome de Asperger, com o objetivo de lançar alguma luz apaziguadora em relação a duas das comorbidades mais frequentes no quadro, que são a Ansiedade e a Depressão, geralmente aumentadas em comparação à população sem o transtorno, o conteúdo aqui descrito não se limita a um único grupo de pessoas, pois trata de um tema e de problemas que permeiam a humanidade como um todo.  Assim, todo ser humano que vivencie depressão poderá se beneficiar do texto a seguir.

 

Por Audrey Bueno

Pessoas com a síndrome de Asperger são, antes de mais nada, pessoas. O diagnóstico é, sobretudo, um conjunto de características de funcionamento que alguém observou e catalogou. No entanto, a partir do momento em que você assume um diagnóstico como “sua nova identidade”, você aceita uma “coisificação” de você. “Coisa” é uma palavra autolimitada, que explica algo, de DEFINE algo. A partir do momento em que nos definimos, nos limitamos, pois nos tornamos uma “coisa”. Porém, nenhum diagnóstico ou definição existente jamais dará conta da totalidade do nosso ser, nos nossos anseios, sonhos, sentimentos, motivações, potenciais, variações de personalidade, ou seja, definir quem somos só é possível em parte, pois não “somos”, e sim, “estamos sendo” o tempo todo ao longo de toda uma jornada de vida.

Essa necessidade de definição, tão presente na cultura ocidental, vem da angústia do incerto, do não conhecido, do medo que os homens aprenderam a ter do que era desconhecido desde a pré-história. Por isso, ao qualificar, quantificar, explicar, definir, surge a falsa sensação de controle, de que sabemos o que algo seja, diminuindo, portanto, o medo de sermos surpreendidos por algo que não se conhece. Nossa mente racional e instinto de autopreservação nos diz que o inimigo que não podemos ver é sempre mais perigoso, afinal, tira de você a possibilidade de atingi-lo para se defender. Talvez esse seja um dos motivos pelos quais a sociedade atual valoriza tanto um diagnóstico. É claro que o diagnóstico em si traz diversos benefícios, como oferecer à pessoa a chance de compreender melhor seu funcionamento e buscar ajuda mais adequadamente direcionada às suas dificuldades, mas não pode ser entendido como a determinação exata e suprema do funcionamento de alguém.

Martin Heidegger, um filósofo alemão, explorou a questão existencial do ser humano. Ele contrapôs a ideia clássica da filosofia, que perguntava “O que é ser humano?”, questionando, em vez disso, “COMO é ser humano?”. Ele propôs que ao responder a primeira pergunta é possível “coisificar”, ou seja, encontrar um meio de explicar o que é ser humano de forma mais objetiva e finita, isto é, vai haver um momento em que a definição de “ser humano” enquanto “entidade biológica pensante” terá fim, irá se esgotar, e tudo o que se podia explicar já terá sido explicado e a definição estará completa, finita. Porém, ao tentarmos responder a segunda pergunta, não conseguiremos jamais chegar a uma definição completa, finita, por que a palavra “como” define algo que ocorre, que está ocorrendo, que está em PROCESSO. Assim, definir COMO É SER humano torna-se impossível, pois SER é algo que ocorre enquanto há vida, enquanto estamos justamente “sendo”. Definir como é ser humano, viver como humano, só seria possível após a morte e, ainda assim, de forma isolada e parcial, afinal, toda a variação que existe na nossa espécie gera infinitas combinações para que a definição de um humano seja plenamente satisfatória para definir o outro. E, para os que considerarem as teorias que falam a favor da pluralidade das existências e imortalidade do espírito, nem com a morte seria possível tal definição. Estaríamos sempre “sendo” algo num universo infinito.

Heidegger usa o termo DASEIN, do alemão, que significa “ser aí”, ou melhor, “ser onde se está”. Ele usa esse termo para se referir ao conceito de que “somos” sempre mediante a um contexto histórico, político, onde a nossa condição de “ser”, de “estar sendo”, depende do lugar onde estamos inseridos. Kadu Santos, cujo canal no YouTube explora de forma mais didática e objetiva os conceitos da filosofia, tem vídeos interessantes sobre o assunto, e, num desses vídeos (aqui), sobre os conceitos-base de Heidegger, ele usa um exemplo interessante: se nascemos com o dom da arte, mas o contexto que nos cerca não acolhe esse tipo de dom, ficamos como peixes fora d’água, tendo que nos afastar do nosso eu real para “sermos nesse ambiente que nos cerca”, tendo que interagir com esse meio de forma a existir nele. Se esse contexto em que estamos inseridos diz que não se pode viver de arte, somos obrigados a procurar um recurso disponível nesse meio para nossa existência, sobrevivência. Precisaremos, por exemplo, buscar um emprego numa outra área, estudar uma outra coisa, fazer uma faculdade para que nos aceitem nesse emprego, enfim, nos afastamos cada vez mais da nossa essência real ao cumprir os tantos papéis sociais que, tendo sido externamente projetados, não levam em consideração a substância de que é feita a nossa alma. Heidegger diz que é esse afastamento de quem somos realmente o que causa depressão, angústia existencial, sendo a ideação suicida o ápice do afastamento de nós mesmos, mas sendo esse também o grande ponto de impacto, ou seja, o auge do quanto podemos suportar ser quem não somos, e é precisamente aí que mora a grande decisão: parte-se rumo à jornada do autoconhecimento para que se possa buscar sua real essência, a fim de vivê-la plenamente, ou põe-se um fim ao processo de “ser”, com a morte do corpo. Porém, há aí um grande equívoco: o desejo de morte de uma situação não deve ser confundido com a necessidade de morrer “organicamente falando”; o desejo de morte não costuma ser o da extinção de si mesmo, e sim do falso-eu que se criou. Heidegger fala do “eu-inautêntico”.

Portanto, sendo o desejo de morte o ápice da inautenticidade da própria vida, o movimento inteligente seria o de rever o caminho, usando o conceito de morte como um recurso de finitude do que não se deseja mais ser, e não da própria vida de fato. Se o indivíduo chega ao ponto em que nada mais importa, é por que não encontrou sua real essência, ou não se permitiu vivê-la, sucumbindo às pressões externas e a ilusões advindas do meio, tais como desejos de grandeza, status ou de estilos idealizados de vida que, na verdade, são construções embasadas no externo, nos valores que a sociedade determina como desejáveis, nos enredando de tal modo que perdemos a referência do nosso próprio “eu”. Se chega-se a um ponto em que nada mais faz sentido, que nada mais tem valor, a única chance restante de se atingir algum alívio e bem-estar seria lançar-se em novas direções, arriscando coisas novas na coragem de quem nada mais tem a perder, em vez de sucumbir na dor inerte e impedir o processo do que poderia vir a ser. A única ressalva nesse processo do ‘vale-tudo’ em busca do que realmente se quer deveria ser apenas o de cuidar para seguir o próprio caminho sem causar prejuízo ao caminho do outro, pois esse é o único limite que a ética da existência nos pede, afinal, é o mínimo compromisso que cada um de nós precisa ter para usufruir do direito de existir num determinado espaço-tempo. A caminhada humana é dolorosa para todos, de modo que a compaixão com a nossa própria espécie seja o único compromisso que realmente nos salva da nossa própria miséria.

Se surgimos nesse mundo num determinado momento histórico, dentro do grupo que nos cerca, das crenças e valores que a sociedade nos apresenta, gerando as questões existências com as quais temos que lidar, é por que o movimento do universo funciona dessa forma para que transmutemos nossa essência em determinada direção, de modo que exista uma probabilidade muito grande de que a morte provocada sobre o próprio corpo não encerre esse processo, e sirva apenas como areia no caminho que só atrasa e dificulta o percurso da expansão espiritual. O conceito de espírito a que me refiro não vem de qualquer religião, e sim da física: o espírito é uma energia – e, inclusive, já há indícios de comprovação cientifica da existência do espírito – e energia não acaba, apenas se move de um ponto a outro no universo. É como a energia elétrica, se não acende uma lâmpada aqui, acenderá outra lá. Nosso espírito seria essa energia elétrica animando nosso corpo e, quando esse corpo morrer, essa mesma energia poderá manter sua unidade de consciência e até mesmo animar algum outro tipo de corpo em outro lugar.

A ciência aponta que o universo está em constante expansão. E tudo o que nele habita, portanto, segue a mesma lei.

Compreender “como” somos, de fato, e buscar meios de viver nosso ‘eu’ verdadeiro será o ponto-chave para vencer a depressão da alma, do espírito, pois é onde ela habita em primeira instância, para só então adoecer o corpo. Depressão é “falta de sentido”. Dobrar-se às convenções sociais e expectativas alheias aprisiona a alma, pois nos força a viver a realidade do outro, e não a nossa. É importante lembrar que a as cobranças e convenções sociais atuais também são sintomas de uma doença mental que ainda segue sem diagnóstico. É como diz uma ilustre frase há muito difundida na cultura geral: “De perto, ninguém é normal”. Aliás, defina “normal” e verá as incongruências e absurdidades envolvidas nesse conceito.

 

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Pessoas com Asperger são, sobretudo, pessoas que apresentam um padrão mental específico que difere do contexto social vivenciado pela maioria das pessoas. Estudos mostram que existe forte conexão entre autismo e inteligência humana, e é comum que pessoas com Asperger sejam portadores de alto QI, também referido como AH (Altas Habilidades). Se pensarmos nas questões existenciais vivenciadas pelos superdotados, veremos quanta coisa existe em comum com o perfil da síndrome de Asperger. Portanto, é absolutamente relevante pensarmos nas diferenças e angústias existenciais que pessoas com um QI mais elevado enfrentam, observando que quanto mais elevada a inteligência, maior a capacidade de percepção e pensamento crítico, maior a capacidade de sentir do organismo e maior a probabilidade de afastamento dos padrões sociais estabelecidos pela massa, pois para que se consiga seguir o padrão social vigente, é preciso refletir pouco e aceitar muito. E é isso o que pessoas com cognição mais desenvolvida naturalmente terão dificuldade em fazer, pois seus funcionamentos são opostos: refletem muito e, colateralmente, aceitam pouco.

Portanto, a síndrome de Asperger é um nome que pessoas diferentes desse perfil deram àqueles que percebiam como “atípicos”, na tentativa de definir o que não se define na sua totalidade. O diagnóstico é sim, um nome útil para diversos fins, pois, como já dito,  possibilita maior compreensão de certas dificuldades e acesso a diversos recursos de apoio, mas não podemos perder de vista que um diagnóstico é um conjunto de características de funcionamento comum às pessoas que compartilham o mesmo quadro, mas jamais a totalidade descritiva do ser.

 

Sugestão de filme (baseado numa história real): Into the Wild, em português: “Na Natureza Selvagem” (veja o trailer aqui).

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