Lista de Traços em Mulheres com a Síndrome de Asperger, por Samantha Craft

Texto original escrito por Samantha Craft

Tradução de Audrey Bueno

Fonte da Imagem

Mulheres com Asperger – Checklist não-oficial

Esta lista foi elaborada após nove anos de leituras, pesquisa e experiência associada à síndrome de Asperger.

Este é um checklist não oficial criado por uma mulher adulta com Síndrome de Asperger, que tem um filho também com a síndrome. Samantha Craft tem mestrado em Educação. Ela não tem formação em Psiquiatria ou Psicologia. Suas credenciais nesse assunto foram obtidas pela própria experiência e por ser mãe de uma criança com Asperger.

Ela criou essa lista na tentativa de assessorar os profissionais de saúde a reconhecerem a síndrome de Asperger em mulheres, pois os traços diferem significativamente da Síndrome de Asperger em homens, e sua expressão geralmente é mais branda e menos óbvia, o que dificulta um diagnóstico.

Mais informações podem ser encontradas no seguinte endereço: http://aspergersgirls.wordpress.com © Everyday Aspergers, 2012. Esse checklist não oficial pode ser impresso para terapeutas, psiquiatras, psicólogos, professores e parentes, desde que o nome e contato de Samantha Craft seja citado.

Uso sugerido: se cerca de 75-80% dos itens forem assinalados¹, pode haver considerável probabilidade de que a mulher seja portadora da síndrome de Asperger.

 

¹ 75-80% corresponde a um resultado entre 108-115 itens assinalados, dos 144 existentes nesta lista. Dada a forte probabilidade desse resultado ser indicativo da presença da síndrome de Asperger, sugere-se procurar uma avaliação profissional mais detalhada. Variações próximas da “nota de corte” (entre 65% e 75%, ou seja, entre 93 e 108 itens assinalados) podem indicar a presença de traços da síndrome, comum nos casos de FAA, de modo que avaliação profissional também seja recomendada; nota do tradutor.

 

Seção A: Pensamento Profundo

  1. Pensa profundamente
  2. Boa escritora, inclinada à poesia
  3. Muito inteligente
  4. Vê as coisas em múltiplos níveis
  5. Analisa a existência, o significado da vida, e tudo em torno continuamente
  6. Séria e honesta quanto ao que acha de algo ou alguém
  7. Não presume as coisas como certas²
  8. Não simplifica, tudo é complexo
  9. Geralmente se perde nos próprios pensamentos e tem brancos, lapsos, ausências (olhar parado no infinito)

² A autora se refere ao hábito frequente de muitas pessoas em darem as coisas como certas quando, na verdade, podem ou não acontecer. Por exemplo: efetuar uma compra contando com um dinheiro que ainda não foi recebido e que pode – ou não – vir.

 

Seção B: Inocência

  1. Ingênua
  2. Honesta
  3. Não consegue mentir
  4. Acha difícil entender manipulação e falsidade
  5. Acha difícil entender comportamento violento
  6. Facilmente enganada
  7. Abusada ou lhe tiraram vantagem na infância, mas não contou a ninguém

 

Seção C: Escape e Amizade

  1. Sobrevive às emoções intensas através do pensamento ou ação³
  2. Escapa regularmente através de fixações, obsessões e interesse intenso em certos assuntos
  3. Escapa rotineiramente através da imaginação, fantasia e do sonhar acordada
  4. Escapa através de racionalização
  5. Filosofa continuamente
  6. Teve amigos imaginários na infância ou juventude
  7. Imita pessoas de filmes ou da TV
  8. Tratava os amigos como “peões” na segunda metade da infância, que serviam para o preenchimento de papéis
  9. Faz amizades com pessoas fora do seu círculo de idade, ou mais velhos, ou mais novos
  10. Imita amigos em estilo, vestimenta ou modos
  11. Coleciona e organiza objetos obsessivamente
  12. Domina a arte da imitação
  13. Escapa ouvindo a mesma música muitas e muitas vezes
  14. Escapa através de algum relacionamento (real ou imaginário)
  15. Gosta de lidar com números
  16. Escapa através de contagens, categorizações, organizações, reformulações
  17. Se isola em cantos ou outras salas em festas
  18. Não consegue descansar ou relaxar devido aos pensamentos sem fim
  19. Tudo tem um propósito4

³ A autora se refere a não dar vazão total aos sentimentos num primeiro momento, bloqueando-os ou dosando sua manifestação ao longo de vários dias, ou liberando-os apenas após algum tempo da situação estressora ocorrida, como forma de sobreviver à intensidade emocional, geralmente buscando alguma atividade para “descarregar” a angústia ou apresentando excesso de racionalização da situação.

4 A autora se refere ao fato de buscar explicação para tudo, de sempre buscar a verdade por trás dos fatos, de não sentir tranquilidade com afirmações do tipo “Não adianta pensar nisso”, “É assim por que as coisas são assim e pronto”, “É assim por que Deus quer”.

 

Secão D: Comorbidades

  1. TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo)
  2. Questões sensoriais (visão, som, textura, cheiro, gosto)
  3. AG (Ansiedade Generalizada)
  4. Sensação de perigo à espreita ou condenação, ruína
  5. Sentimentos opostos intensos (depressão/super alegria; frieza/super sensível)
  6. Tônus muscular pobre, juntas muito flexíveis ou falta de coordenação; deixa cair objetos com frequência
  7. Desordens alimentares, obsessões com comida e/ou preocupação com o que se come
  8. SRI (Síndrome do Intestino Irritável) ou problemas gastrointestinais
  9. Fadiga crônica ou problemas com o sistema imunológico
  10. Não diagnosticada ou diagnosticada incorretamente com outros transtornos mentais ou hipocondria
  11. Questiona muito seu lugar no mundo
  12. Se pergunta quem é e o que esperam dela
  13. Busca pelo certo e o errado5
  14. Desde a puberdade, tem picos de depressão
  15. Esfrega as unhas ou as mãos uma na outra, tem o hábito de sentar sobre as mãos ou coloca-las entre as pernas, tem algum tique ou parece ter pigarro com frequência

5 Geralmente de modo rígido, 8 ou 80, ou seja, algo ou alguém é bom ou não é, não existe “mais ou menos”.

 

Seção E: Interação Social

  1. Amigos desapareceram de repente sem que se ficasse sabendo o motivo
  2. Tendência a compartilhar demais da sua vida pessoal
  3. Deixa escapar detalhes de sua vida pessoal a estranhos
  4. Levantava muito a mão nas aulas ou nunca participava
  5. Pouco controle do que falava quando mais jovem
  6. Monopoliza a conversa com frequência
  7. Traz o assunto da conversa de volta para as próprias questões
  8. É percebida, às vezes, como narcisista e controladora (embora não seja narcisista)
  9. Soa afobada, ansiosa e hiper zelosa às vezes
  10. Segura muitos pensamentos, ideias e sentimentos dentro de si
  11. Sente como se estivesse tentando se comunicar corretamente
  12. Fica obcecada com um relacionamento em potencial, principalmente romântico
  13. Confusa quanto a como agir em termos de contato ocular, tom de voz, proximidade corporal ou postura numa conversa
  14. A conversa pode ser exaustiva
  15. Questiona as ações e comportamento de si mesma e dos outros continuamente
  16. Sente como se faltasse o “gene” da conversação ou um “filtro” mental
  17. Estudou as interações sociais através de leituras, observação ou cursos a respeito
  18. Visualiza e pratica como vai falar ou agir com os outros antes de fazê-lo
  19. Pratica mentalmente o que vai dizer ao outro antes de entrar na sala
  20. Dificuldade em filtrar o barulho de fundo quando falando com as pessoas
  21. Tem um diálogo interno mental contínuo sobre o que vai dizer ou como vai agir em situações sociais
  22. O senso de humor às vezes parece estranho ou atípico
  23. Quando criança, tinha dificuldade em saber quando era sua vez de falar
  24. Acha as normas de conversação confusas

 

Seção F: Encontra Refúgio Quando Sozinha

  1. Sente extremo alívio quando não tem que ir a lugar nenhum, falar com ninguém, fazer ligações
  2. Uma visita em casa pode ser percebida como ameaça
  3. Saber pela lógica que uma visita não é ameaça não ajuda a aliviar a ansiedade
  4. Sentimentos de medo, angústia, extrema ansiedade quanto a eventos ou compromissos cuja data se aproxima
  5. Saber que precisa sair de casa causa ansiedade desde o momento em que acorda
  6. Todos os passos para sair de casa são esmagadoramente exaustivos de se pensar
  7. Técnicas de falar consigo mesma positivamente não aliviam a ansiedade
  8. Requer grande quantidade de tempo sozinha
  9. Sente-se culpada após passar muito tempo envolvida em algum de seus interesses especiais
  10. Sente-se bastante desconfortável em banheiros públicos ou vestiários
  11. Sente-se mal em lugares cheios de pessoas

 

Seção G: Sensibilidade

  1. Sensível aos sons, texturas, temperatura ou cheiros, em especial quando está tentando dormir
  2. Emprega energia e esforço adaptando o ambiente na tentativa de obter o máximo de conforto
  3. Os sonhos tendem a ser vívidos, com conteúdo repleto de ansiedade, complexos e às vezes até premonitórios
  4. Altamente intuitiva quanto aos sentimentos dos outros
  5. Não entende como não levar críticas para lado pessoal
  6. Anseia por ser vista, ouvida e compreendida
  7. Sempre se pergunta se é uma pessoa “normal”
  8. Bastante suscetível aos pontos de vista e opiniões dos outros
  9. Por vezes, adapta sua visão de mundo ou ações com base nas opiniões e palavras das outras pessoas
  10. Reconhece suas limitações em muitas áreas diariamente
  11. Teme a opinião, crítica e julgamento alheio
  12. Abomina palavras, brincadeiras ou eventos que machuquem animais ou pessoas
  13. Resgata e abriga animais abandonados (principalmente na infância)
  14. Extrema compaixão pelo sofrimento
  15. Sensível a substâncias (medicamentos, toxinas, comida, álcool, etc.)
  16. Geralmente tenta ajudar, oferece conselho que não foi pedido, ou mesmo se antecipa em planos e ações
  17. Questiona o propósito da vida e como ser uma pessoa melhor com frequência
  18. Procura avidamente compreender habilidades ou talentos que possua

 

Seção H: Sentido de Si Mesma

  1. Sente-se aprisionada, em eterno conflito, por querer ser ela mesma e querer se enquadrar
  2. Imita os outros sem perceber
  3. Sufoca seus reais desejos
  4. Exibe comportamento codependente6
  5. Rejeita ou questiona normas sociais
  6. Tem sentimentos de extremo isolamento
  7. Sentimentos de não se encaixar em lugar algum, como se fosse de outro planeta
  8. Tem sentimentos de confusão e de sobrecarga
  9. Sentir-se bem quanto a si mesma geralmente é difícil
  10. Muda de preferências com base no ambiente e nas outras pessoas
  11. Não se importava com aparência, roupas ou higiene até a puberdade ou até que alguém tenha apontado isso para ela
  12. A voz pode soar muito jovem para a idade cronológica
  13. Problemas em perceber como é fisicamente e/ou leve prosopagnosia (dificuldade em reconhecer ou se lembrar de rostos)

6 Codependência: é um termo da área de saúde usado para se referir a pessoas fortemente ligadas emocionalmente a uma pessoa com séria dependência física e/ou psicológica;  codependente é uma pessoa que tem deixado o comportamento de outra afetá-la, e é obcecada em controlar o comportamento dessa outra pessoa. O codependente acredita que sua felicidade depende da pessoa que tenta ajudar, e assim se torna dependente dela emocionalmente, sendo excessivamente permissivo, tolerante e compreensivo com os abusos do outro, mesmo que este seja excessivamente controlador, perfeccionista e autoritário. É comum que o codependente coloque as necessidades do outro, acima de suas próprias. É comum que desenvolvam duplo vínculo6.1.. 6.1 – Duplo vínculo: é um conceito da psicologia para se referir a relacionamentos contraditórios onde são expressados comportamentos de afeto e agressão simultaneamente. (Fonte: Wikipedia, acessado em 10/10/2017)

 

Seção I: Confusão

  1. Sofreu e demorou para aprender que os outros não são honestos
  2. Os sentimentos parecem confusos, ilógicos ou imprevisíveis (de si mesma e dos outros)
  3. Confunde datas e horários de compromissos, números ou outras datas diversas
  4. Fala franca e literal (especialmente quando mais jovem)
  5. Dificuldade em entender piadas ou gírias, geralmente tem entendimento literal
  6. Não compreende quando os outros isolam alguém num grupo, demonstram preconceito, ignoram, enganam ou apunhalam pelas costas
  7. Problemas em identificar sentimentos a menos que sejam extremos
  8. Sentimentos pessoais de raiva, ultraje, amor intenso ou medo parecem mais fáceis de serem identificados que sentimentos de alegria, satisfação e serenidade
  9. Situações e conversas são muitas vezes percebidas como 8 ou 80
  10. Experimenta sentimentos intensos por coisas aparentemente pequenas

 

Seção J: Palavras e Padrões

  1. Gosta de saber a origem das palavras
  2. Confusa quando há mais de um significado para uma palavra
  3. Alto interesse em músicas e letras de músicas
  4. Nota padrões com frequência
  5. Lembra-se de coisas em padrões visuais
  6. Tem excelente memória para certos detalhes
  7. Escreve ou cria para aliviar ansiedade
  8. Tem certos “sentimentos e emoções” quanto a certas palavras
  9. Palavras trazem uma sensação de conforto e paz

 

Seção K: Função Executiva (esta área nem sempre é tão evidente quanto as outras)

  1. Tarefas simples podem ser muito problemáticas
  2. Aprender a dirigir pode ser muito difícil
  3. Lugares novos geram sempre ansiedade
  4. Qualquer coisa que requeira procedimentos que devam ser seguidos em passos, precisão ou tecnicidade podem gerar pânico
  5. O pensamento de consertar ou procurar algo pode causar ansiedade
  6. Tarefas corriqueiras são fortemente evitadas
  7. A tarefa doméstica de limpeza pode ser insuportável às vezes
  8. Pode sair de casa com meias trocadas, roupa do avesso, camisa abotoada incorretamente
  9. Pode ter problemas em copiar passos de dança ou ginástica

 

 

25 comentários sobre “Lista de Traços em Mulheres com a Síndrome de Asperger, por Samantha Craft

  1. Eu não sei em qual dos casos seria pior ser aspie: sendo homem ou sendo mulher. De qualquer forma, apesar de eu ter muitas (muitíssimas) críticas à minha condição, sei que os aspies são muito especiais e eu não teria problema em me relacionar com uma mulher que tenha a síndrome. Só não sei se os neurotípicos pensam da mesma forma. Enfim… Parabéns novamente pelo seu texto e muito obrigado por trazer essa informação tão importante em português.

    Curtido por 1 pessoa

    • Na verdade, certas coisas são uma questão de perspectiva. Ser Aspie no Brasil é muito mais difícil que ser Aspie na Inglaterra, por exemplo. No Brasil, a cultura é “excessivamente neurotípica”, ou seja, também existe um desequilíbrio, quase como se houvesse uma “síndrome neurotípica”, o que aumenta ainda mais a distância entre um e outro perfil. Além disso, se mais pessoas fossem Aspies do que não, o padrão de normalidade seria outro, ou seja, quem nunca se enquadraria seriam os neurotípicos. Tem uma frase da Morticia Addams bem bacana: “Normal é uma ilusão. O que é normal para a aranha, é o caos para a mosca.” Obrigada por suas ricas contribuições e por seguir o blog!

      Curtido por 2 pessoas

    • Procure um que realmente entenda de Asperger e/ou autismo de alto funcionamento. Leia bastante e informe-se antes da consulta, para saber se o médico entende mesmo do quadro quando ele começar a falar com você. Seja bem vinda ao blog!

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    • Eu sugeriria que você procurasse um psiquiatra ou neurologista para avaliação formal, mas é importante que o profissional escolhido entenda de Asperger e/ou autismo de alto funcionamento. Leia bastante e informe-se antes da consulta, para saber se o médico entende mesmo do quadro quando ele começar a falar com você, pois infelizmente ainda há muitos profissionais equivocados e cheios de estereótipos quanto ao que seja, de fato, o autismo. Seja bem vinda ao blog!

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    • Olá. Um psiquiatra. Neurologistas podem ser também uma opção. Se você for a um profissional que não valide suas suspeitas ou não lhe dê uma explicação plausível do motivo dele achar que você tem Asperger ou não, procure outro. Há profissionais pouco informados em todos os lugares, inclusive nas áreas em que esperaríamos que eles devessem saber de tudo isso muito bem, pois o transtorno de Asperger ainda é relativamente novo, não há muita coisa em português, e é mais desconhecido ainda quanto se trata de mulheres com o quadro. Com essa numeração, acima de 80%, certamente existem muitos traços em você. Sugiro que se informe bem sobre a síndrome antes da consulta para poder conversar melhor com o médico e avaliar se o que ele diz faz sentido também. Muitos dos mesmos traços de Asperger estão presentes em homens, mulheres e crianças, então conhecendo a síndrome de um modo geral, mesmo que a informação não seja exclusivamente para mulheres, já lhe permitirá compreender o essencial. Boa sorte.

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