Autismo: por que a escola não entende o que o meu filho tem?

Tópicos dessa publicação: Necessidade de Apoio à Criança e aos Pais – Dificuldade de Compreensão e Empatia por Terceiros [Sociedade, Familiares, Amigos, Escola, Profissionais da Saúde] – Sugestões para Pais e Escola

 

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Por Audrey Bueno

Graduada em Psicologia e tradutora nas áreas de neurociências, psicologia e psiquiatria.

 

Essa Criança Não Parece Autista

Quando os pais retratam as dificuldades, a descompensação emocional, as explosões, o mau comportamento e a agressividade de seus filhos quando estes chegam em casa após a escola, após uma festa ou por terem recebido visitas, costumam ser julgados como excessivos, exagerados e até mesmo mentirosos, afinal, pensam as pessoas, como pode essa criança que ‘ficou tão bem’ aqui agir de forma tão desajustada depois? Outras vezes, a criança pode externar seu comportamento de descompensação emocional (birras, atitudes agressivas, do contra, etc.) na escola mesmo, o que indica um desespero ainda maior nessa criança ou o fato dela já ter se acostumado ao ambiente da escola o suficiente – geralmente tendo encontrado uma pessoa de apoio emocional no local – para permitir que toda a gama de sentimentos e reações venha à tona. O comportamento de “segurar a angústia numa panela de pressão que somente será aberta em casa” é muito comum no espectro do autismo, especialmente quando se trata de autismo de alto funcionamento, ou seja, o lado mais leve do espectro, que é onde a síndrome de Asperger se insere.

Não nos enganemos, porém, quanto à palavra “leve”, pois ela apenas significa que os comprometimentos da pessoa autista são mais leves em comparação a outras pessoas com autismo, e não em comparação a pessoas sem o transtorno. Se não houvesse prejuízo considerável de uma série de áreas importantes na vida do indivíduo, não haveria todo um estudo médico-científico embasando tais comprometimentos como pertencentes a portadores de necessidades especiais.

Além disso, lembrando que o autismo tem três níveis de severidade (leve, moderado e severo), precisamos compreender que, em níveis leves do espectro, a natureza das dificuldades pode não ser óbvia, mas tem o potencial de causar considerável prejuízo para o desenvolvimento da criança se não houver amparo apropriado; é preciso lembrar que muitos problemas sérios não são evidentes “só de olhar para a pessoa”, por exemplo: diabetes, esquizofrenia, hipertensão, lúpus, transtorno bipolar, problemas cardíacos, renais, hepatite, câncer, etc.  – nada disso é visível “só de olhar”, mas não são menos graves por isso. Portanto, antes de dizer coisas tais como “Essa criança não ‘parece’ autista”, é preciso buscar informação e orientação profissional.

A falta de conhecimento sobre a síndrome – e sobre neurologia e psiquiatria de um modo geral – faz com que a maioria das pessoas não compreenda o que vê e tenda a classificar tudo dentro de padrões mentais conhecidos. Assim, os comportamentos observados na criança autista ganham classificações pertencentes ao grupo de crianças SEM autismo, ou seja, educadores e mesmo alguns pais ou profissionais menos informados, dirão que a criança se comporta de determinada maneira por ser filho único, por estar querendo chamar a atenção, por tratar-se de um caso de desobediência, de tentativa de manipulação, capricho e outras leituras do gênero.

A explosão em forma de “birra” será, por exemplo, compreendida como “manha”, e não como uma reação causada por excesso de estimulação sensorial do sistema nervoso ou pela rigidez mental típica do quadro de autismo, que limita os recursos internos que a criança possui para lidar com uma determinada situação que gere stress. As estereotipias externadas na forma de mãos abanando, certos movimentos corporais repetitivos ou vocalizações de alguns tipos de sons, por exemplo, acabam sendo interpretadas como mera brincadeira de criança, pois as pessoas não sabem que essas estereotipias, assim como o ato de ficar girando com frequência, são causadas por funcionamentos alterados do sistema nervoso.

A insistência em brincar sempre de uma mesma coisa é vista como uma ‘mania’ que julga-se que a criança tenha pleno poder de controlar, e não como um funcionamento deficiente da área do cérebro responsável pelo controle de repetição de ações (lobo frontal, leia mais sobre isso aqui), que muitas vezes só obtém melhora através de medicação. A constante recusa/não-colaboração (absolutamente comum em Asperger) será percebida apenas como desobediência, em vez de ser entendida como um mecanismo de defesa gerado pelos elevados níveis de ansiedade da criança, que não só recebe bombardeamentos diários de estímulos sensoriais que perceba como agressivos (barulhos, contato físico, cheiros, etc.), como ainda enfrenta um mundo onde não entende a maioria da regras existentes (tão óbvias para as pessoas do entorno), dada a falha na constituição da Teoria da Mente. Esse é um conceito central no autismo, que pessoas que lidam com crianças autistas precisam compreender.

Certamente, não é de bom senso esperar que pessoas leigas, ou seja, sem conhecimento em medicina, saibam disso, mas é de bom senso esperar que busquem informação, uma vez que sejam profissionais que lidem com pessoas e, especialmente, com crianças. É preciso que ouçam os pais e/ou profissionais que acompanham a criança e que não confiem cegamente no próprio julgamento quando algum comportamento foge do padrão típico de funcionamento. Se a criança acaba chamando a atenção porque chora sempre, se joga no chão, age agressivamente, não colabora, tem movimentos corporais peculiares, se dispersa, tem dificuldade de aprendizado, se agita, se isola, brinca de coisas incomuns ou repetidas ou demonstra desconforto em situações que não são comumente observadas nos colegas, com mais frequência que o esperado, é preciso desconfiar que algo possa estar errado, e a presença de apenas uma dessas características já pode ser um indicativo de transtornos do neurodesenvolvimento.

É claro que desconfiar não significa afirmar, afinal, somente um especialista (geralmente um neurologista ou psiquiatra infantil) que analise a criança de forma abrangente e criteriosa estará apto a fornecer um diagnóstico, mas significa “encaminhar para avaliação” e considerar outras possibilidades de interpretar o comportamento observado e de lidar com a criança.

Eventualmente, crianças sem qualquer transtorno podem apresentar um ou outro dos comportamentos observados na criança autista, mesmo porque a criança com autismo é criança também e certas atitudes são comuns à infância, além do que, durante os anos de desenvolvimento, é possível que uma ou outra dificuldade a mais surja aqui e ali em crianças sem que necessariamente a criança esteja inserida dentro de algum ‘distúrbio maior’, mas há aí muito equívoco. É comum que diversas das características de comportamento indicativas de autismo sejam negligenciadas, e pessoas digam “Ah, mas toda criança vê o desenho da Peppa 500 vezes” ou “Criança é enjoada mesmo” ou “O meu filho também faz igualzinho!”, mas as palavras-chave devem ser com que FREQUÊNCIA e INTENSIDADE a criança age de determinadas formas, e há quanto tempo isso acontece.

Havendo desconfiança, a avaliação é sempre recomendada e justificada. É sempre mais seguro pecar pelo excesso do que pela falta de cuidado, pois crianças são seres em fase de desenvolvimento e certas dificuldades que permaneçam sem apoio na infância podem repercutir por toda uma vida.

 

O Papel da Empatia no Entendimento do Quadro

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DEFINIÇÃO DE EMPATIA

Capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa, imaginando como ela vê e sente as coisas do ponto de vista dela e não do nosso, e a partir daí compreender o modo como ela pensa e reage às situações; capacidade de demonstrar respeito e compaixão pela perspectiva e sensibilidades da outra pessoa na situação em que ela se encontra.

(Audrey Bueno)

A empatia é fundamental para que essas crianças tenham a ajuda necessária, pois só poderemos ajudá-las se pudermos observar suas dificuldades do ponto de vista delas, e não do nosso. Nós, seres humanos, nunca sabemos de fato como é viver a realidade de outra pessoa, e tendemos a estabelecer julgamentos com base na nossa própria percepção, na nossa própria realidade e consequente visão de mundo, que costuma ser permeada de achismos, ideais, valores pessoais, especulações tendenciosas por conta da nossa história de vida e construções estereotipadas culturalmente influenciadas.

Colocar-se no lugar do outro é mais difícil do que parece. A verdadeira empatia raramente é alcançada. 

Ao contrário do que se imagina, a empatia não é um processo sobretudo emocional. Suas bases estão na razão, no discernimento, na capacidade de reproduzir mentalmente a realidade do outro em vez da nossa, e, para isso, é preciso uma boa dose de abstração e imaginação, que são faculdades da inteligência. É comum que quanto mais instruída, culturalmente enriquecida e intelectualmente desenvolvida a pessoa for, melhor seja sua capacidade de empatia, uma vez que mais facilmente ela conseguirá supor como é estar no lugar do outro. Estudos com pessoas superdotadas mostram que quanto maior o QI, melhor e mais acurada é a percepção e compreensão do sofrimento alheio.

A psicologia explica que a empatia não é uma única coisa apenas, e sim um fenômeno composto de duas partes: a cognitiva – relacionada com a capacidade de compreender a perspectiva psicológica das outras pessoas, e a afetiva – relacionada com a habilidade de experimentar reações emocionais por meio da observação da experiência alheia. Ou seja, para que a real empatia se estabeleça, ela passa pelo intelecto, e não somente pela emoção.

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As Bases Neurológicas e Genéticas do Comportamento

Infelizmente, em vez da busca por informação e entendimento, que são os pilares da empatia, o que acaba acontecendo é que a falta dessas duas coisas dá lugar a julgamentos injustos, que geralmente recaem sobre os pais, advindos de crenças populares equivocadas e generalizações simplistas, ou seja, que analisam pobremente a realidade dos fatos, tais como: toda criança gosta disso ou daquilo, problemas comportamentais são sempre culpa de falhas na criação dos filhos, a criança entende muito bem nessa idade o que está fazendo, os pais devem sempre fazer isso e nunca aquilo, etc.

Os pais (a mãe, em especial) têm uma carga de cobrança social grande, que é ainda mais sentida quando estes pais têm uma criança com necessidades especiais, uma vez que todo o desvio do comportamento socialmente esperado leve automaticamente a um questionamento da capacidade dos pais de educarem seus filhos suficientemente bem. Essa tendência de interpretação do comportamento da criança advém de conceitos culturalmente difundidos por uma psicologia rasa de compreensão do funcionamento mental de um indivíduo, pois a maioria das pessoas não dispõe de entendimento aprofundado referente a processos neurológicos, funcionamentos de áreas do cérebro e do impacto dessas instâncias no comportamento humano.

O ser humano tem seu comportamento moldado enormemente por suas funções cognitivas e neurológicas, de modo que a presença de algum distúrbio orgânico possa alterar significativamente o funcionamento mental, emocional, comportamental e social de uma pessoa. A agressividade, por exemplo, tem seu padrão fortemente determinado por aspectos neurológicos que, muitas vezes, não têm a ver com o ambiente em si. É indiscutível a importância do ambiente na criação de um filho e é inegável seu impacto no psiquismo infantil, mas, ao contrário do que muitas pessoas pensam, o ambiente não é o principal fator determinante do comportamento-base do indivíduo, ou seja, há outros fatores primordiais que explicam por que lares tranquilos com pais calmos e afetivos podem ter crianças agressivas, enquanto lares agressivos e desestruturados nem sempre produzem uma criança assim. Cerca de 60% da personalidade e comportamento dos seres humanos tem base genética, porcentagem essa que pode ser ainda maior se houver condições biológicas específicas (doenças, acidentes e afins) associadas.

A literatura médica nos dá exemplos do quanto o funcionamento orgânico pode afetar significativamente o comportamento de uma pessoa. Há casos documentados de indivíduos que sofreram acidentes e lesaram a parte frontal do cérebro, que é responsável, dentre outras coisas, pelas funções sociais, e que passaram a apresentar um comportamento agressivo e antissocial que antes não tinham, sendo comum o relato dos familiares como se a pessoa tivesse se tornado alguém totalmente diferente daquele que conheciam. Do mesmo modo, uma criança com autismo, que também tem alterações nessa e em outras áreas do cérebro, pode apresentar comportamentos que não só independem da disciplina que recebem, como são, muitas vezes, resistentes a essa disciplina.

Ou seja, nem sempre a criança apresenta um comportamento difícil por falha na criação. Muitas vezes, o estilo educacional dos pais é bastante apropriado, mas a criança não responde e não se adéqua. Além disso, supor que toda dificuldade comportamental da criança se deva à educação que ela recebe é como acreditar que a criança seja como uma folha de papel em branco quando nasce, na qual se escreve, apaga ou se recorta conforme o desejado e, não somente a área médica, mas todas as pessoas que já tiveram filhos sabem que isso não poderia estar mais longe da verdade. Pelo contrário, a criança traz consigo um temperamento e tendências próprias, quando não alguns distúrbios, como, por exemplo, o autismo, o TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), o TOD (Transtorno Opositor-Desafiador), o TB (Transtorno Bipolar) ou o TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), de modo que não seja justo e nem lógico atribuir tudo o que a criança é ou faz a fatores do ambiente e exigir que a criança “simplesmente obedeça”, mas infelizmente é assim que a sociedade atual, tão carente de informação e entendimento, especialmente em países em desenvolvimento, como o Brasil – que tão pouco investe em ensino de qualidade e consequente formação de profissionais – interpreta a situação.

A defasagem nas formações acadêmicas faz com muitos profissionais da saúde não estejam devidamente preparados para lidar com essas questões e, sem especializações adequadas, não raro acabam por adotar uma postura inapropriada e até mesmo nociva ao interpretarem e intervirem no comportamento da criança autista, o que pode ser bastante prejudicial para essas famílias, que acabam ficando sem qualquer apoio.

É mais fácil culpar os pais ou a criança do que reconhecer que não se tem conhecimento suficiente para compreender os fenômenos humanos de forma mais aprofundada e, portanto, buscar capacitação profissional e promover mudanças no ambiente que possam melhor assessorar as necessidades individuais da criança. 

 

O Padrão de Expressão Emocional da Criança Autista

Quem não conhece o autismo, não compreende que o padrão de expressão emocional dessa criança é diferente do da maioria das outras crianças. Por exemplo, pessoas no espectro do autismo têm sensibilidades em 1 ou mais dos 5 sentidos. Uma dessas sensibilidades pode ser a do tato, ou seja, o toque é percebido por elas de forma diferente da habitual e pode ser sentido de modo bastante desconfortável. Assim, muitas crianças com autismo (embora nem todas) não gostam de ser tocadas, beijadas ou abraçadas, o que acaba sendo interpretado por algumas pessoas – e até mesmo por alguns profissionais carentes de informação, como já citado – como sinais de trauma emocional ou falta de demonstrações de afeto satisfatórias no lar. A dificuldade de socialização dessas crianças pode reforçar o falso julgamento e aumentar o arsenal de imaginação infundada sobre a questão.

Outro exemplo da diferenciação no padrão emocional da criança com autismo é quando algo ruim acontece. A criança típica costuma chorar ou demonstrar desconforto imediatamente, enquanto a criança no espectro do autismo pode não demonstrar nada e permanecer imóvel ou indiferente no exato momento em que o problema acontece, adiando sua reação por minutos ou horas, podendo, em vez disso, apenas engajar em sua brincadeira repetitiva ou objeto preferido, fazendo parecer que nem se importou, ou, ainda, apenas passa a apresentar mau comportamento, sendo agressiva, opositora, chorando por algo aparentemente sem importância, que nem sempre esteja diretamente relacionado ao evento estressor. Nem todas são exatamente assim, mas o padrão de reatividade psicoafetiva no autismo costuma estar alterado de alguma forma.

Na sequência, enquanto a criança típica já liberou sua angústia e deu o problema por encerrado, a criança com autismo foi para casa com tudo aquilo armazenado em seu aparelho mental rígido, e somente quando encontrou seu ambiente familiar e seguro, liberou toda aquela pressão e expressou seu stress. É o famoso efeito “panela de pressão”, que pode reverberar por dias após o evento estressor. Se num ambiente especialmente desafiador para a criança no espectro do autismo (como a escola) a criança tem dificuldade em cima de dificuldade quando suas necessidades especiais não são compreendidas e atendidas, o efeito ‘bola de neve’ pode fazer com que a criança tenha explosões emocionais e descompensações frequentes, muitas vezes na escola mesmo, pois o sistema nervoso entra em colapso e opera no limite o tempo todo de modo que “nem dê tempo de chegar em casa”.

O padrão das consequências à exposição de eventos estressores também é diferente entre crianças com e sem autismo. Crianças no espectro autista têm mais dificuldade em administrar sentimentos e ocorrências estressantes, cujos efeitos são mais desestruturadores e duradouros, causando distúrbios de sono, alimentação, incontinência urinária e outros sintomas, que podem durar dias ou semanas. E, diferentemente das crianças típicas, a memória privilegiada de crianças com autismo, especialmente as do tipo Asperger, faz com que não esqueçam do ocorrido por muito tempo além do que é comum observar nas crianças em geral. Estudos revelam que crianças com Asperger tendem a transformar situações estressoras em fobias com muito mais facilidade. Portanto, não é exagero ou superproteção dos pais de crianças autistas quando dizem que temem que a criança desenvolva traumas, pois já puderam observar de perto toda a dificuldade de processamento do stress em seus filhos.

Além disso, quando o sistema nervoso está em estado de alerta, no momento em que vivencia stress intenso, como vemos em crises emocionais – que são chamadas por leigos de “birras” – a capacidade de entendimento e negociação da criança fica completamente prejudicada, de modo que ela não seja capaz de ouvir e processar o que lhe dizem ou pedem.

Em momentos de crise (explosão emocional), o ideal é deixar a criança quieta, num lugar tranquilo, livre de barulho ou pessoas em excesso, e esperar que se acalme, sem insistir em conversar com ela, perguntar o que houve (ela está confusa, muitas vezes não saberá dizer e isso a irritará também) ou pedir para que pare, o que é algo que a criança não tem como atender ou processar no momento. Oferecer objetos de interesse ou um item especial que ela goste podem ser boas opções para acalmá-la (pergunte aos pais quais seriam esses itens), sempre em silêncio, pois a voz humana e o conteúdo de uma conversa repleta de perguntas ou solicitações apenas agravam a situação. 

Muitas famílias acabam levando a criança ao psicólogo. Se derem sorte de encontrar um que realmente entenda de autismo, podem enfim compreender todo esse mecanismo e descobrir mais ferramentas para ajudar a reduzir a ansiedade da criança, o que é central para a obtenção de melhora em seu comportamento geral, além de conversarem com a escola e contribuírem na orientação dos professores e coordenadores. Porém, se esses pais não derem sorte, o que infelizmente ainda acontece com uma frequência alarmante se levarmos em conta o número reduzido de psicólogos que entendam de autismo – a começar pela própria falta de embasamento nos anos de formação acadêmica, uma vez que o autismo seja um transtorno de base neuropsiquiátrica, e não psicológica, sendo mais estudado, portanto em cursos de formação na área de medicina (psiquiatria e neurologia) – é que o próprio psicólogo acabe interpretando o comportamento observado do ponto de vista do desenvolvimento da criança típica, isto é, sem autismo, sendo, portanto, ineficaz.

É então que, nas escolas, o problema se multiplica. A formação dos educadores no nosso país não abrange qualquer estudo realmente significativo sobre crianças especiais, de modo que tais profissionais sejam, em sua vasta maioria, leigos nessa questão.

De fato, não é fácil para o professor (ou coordenador), que não recebeu orientação sobre assuntos complexos como esses em sua formação-base, dar conta de alunos com perfis neurodiversos. O que aprenderam na faculdade foi um conjunto de técnicas que atende somente crianças típicas, ou seja, sem transtornos de neurodesenvolvimento. Os professores precisam de apoio especializado para conseguirem atender mais adequadamente essas crianças, mas também precisam ser pró-ativos na busca por informação e precisam modificar suas crenças-base e ouvir e incluir os pais no processo, não desmerecendo suas preocupações, muitas vezes muito bem fundamentadas.

Dada a realidade do ensino brasileiro e a falta de uma estrutura melhor projetada para atender a esses perfis, o que ocorre é que professores sem o preparo adequado são aqueles que acolhem tais crianças em suas salas de aula, e se veem tendo que administrar uma situação completamente nova e complexa, sem qualquer embasamento para tal. Alguns, mais engajados, afetivos, dispostos e conscientes, buscam informação. Outros ignoram a situação, nem sempre por simples descaso, mas muitas vezes por eles próprios estarem sobrecarregados, tendo que dar conta de uma sala de aula repleta de alunos, alguns com dificuldades específicas também, além da cobrança pelo programa didático que precisa ser cumprido, e, por fim, pelo desânimo quanto à dificuldade de terem que aprender por si mesmos os funcionamentos neurodiversos. Consequentemente, a dura realidade é que a criança acaba sendo abandonada à própria sorte numa sala de aula repleta de estímulos assustadores para ela, com atividades absolutamente contraindicadas, esperando, ainda, que tenham comportamento exemplar e rendimento satisfatório.

Para contornar esse tipo de problema, as alternativas da escola seriam:

  • Receber orientação de professores especializados em educação especial.
  • Ter acompanhantes terapêuticos com preparo para atender esse público em sala de aula.
  • Auxílio de profissionais tais como psicólogos especializados, neurologistas ou psiquiatras, que ofereçam apoio informativo.
  • Auxílio extra oferecido ao professor pela direção, ajudando no preparo de atividades, designando um membro extra da equipe para ficar com a criança em períodos de maior necessidade, como quando a criança está especialmente agitada ou quando não lhe seja possível participar de atividades/momentos estressantes para ela, tais como: recreio, jogos, ensaios de dança em datas comemorativas com música alta, cantigas de roda, etc.
  • Investimento da escola na capacitação de seus professores, através de cursos que podem ser trazidos para a escola, ou mesmo serem feitos por seus coordenadores que poderão, depois, repassar as informações importantes aos professores e demais membros da equipe que interajam diretamente com as crianças. Existem clínicas de psiquiatria e neurologia especializadas em transtornos do desenvolvimento infantil (TDAH, autismo, e afins), como é o caso da Clínica Crescer – Núcleo Conexão (em Jaguariúna, SP) – que oferecem programas e cursos específicos para profissionais da educação.

Vale, ainda, lembrar que os pais costumam ser ricas fontes de informação sobre como lidar com essas crianças, quer seja pela própria experiência do convívio, quer seja pela própria motivação pessoal que esses pais têm em estarem continuamente buscando conhecimento acerca do quadro do filho. Portanto, a escola deve sempre ouvir os pais. Quanto maior e mais cooperativo for esse diálogo entre pais e escola, maiores as chances de que a ajuda adequada chegue até a criança, sendo tal diálogo ainda mais fundamental quando a escola não conta com profissionais especializados.

Portanto, para que o autismo passe a ser melhor compreendido, é fundamental que todos, mas em especial a escola, que tem um papel central do desenvolvimento da criança, saibam que:

  • Informação é essencial.
  • As formações-base nas áreas de Pedagogia, Psicopedagogia, Letras ou mesmo Psicologia não oferecem o embasamento teórico necessário para uma adequada compreensão dos distúrbios de neurodesenvolvimento. É preciso buscar especialização e/ou conhecimento nas áreas de Psiquiatria ou Neurologia, ou através de psicólogos, neuropsicólogos ou psicopedagogos ESPECIALIZADOS em autismo.
  • Em níveis leves do autismo, a natureza das dificuldades não é óbvia, mas pode causar danos consideráveis ao desenvolvimento da criança caso não receba o devido amparo, assim como não é óbvia a diabetes, a doença no pâncreas ou um tumor no cérebro.
  • É preciso cuidado para não julgar ostensivamente e sem conhecimento de causa. Você pode julgar a obesidade de alguém, por exemplo, exigindo que ela mude seu comportamento para emagrecer, enquanto a pessoa é, na verdade, vítima de disfunções endócrinas das quais não tem controle. O comportamento “desobediente” de uma criança pode, por vezes, também ser determinado por disfunções das quais ela não tem controle. Achismos (que perigosamente se tornam ‘certezas’) baseados na maioria das crianças e na experiência escolar obtida ao longo dos anos de atuação profissional podem ser perigosos, pois 95% de tudo isso está embasado no funcionamento de crianças neurotípicas, não neurodiversas.
  • Atitude acolhedora não só em relação à criança, mas também em relação aos pais, é essencial para um bom trabalho.
  • Lembre-se que a atitude é fundamental: pode não parecer, mas, na grande maioria das vezes, os pais não estão exagerando ao narrar as necessidades especiais da criança. O que parece birra, manha, mimo, falta de limites em casa e teimosia são, muitas vezes, alterações do cérebro que têm, cada qual, sua explicação técnica-médica a ser compreendida.

Por fim, lembremo-nos que a certeza sem conhecimento é um tipo de julgamento que bloqueia nossa percepção. É o mesmo fenômeno de quando vemos uma sombra projetada na parede: você afirma que seja um pato, mas se olhar melhor, vai ver que são duas mãos.

 

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Como diz Mark Hutten, especialista em Asperger e autor do muito acessado site americano My Aspergers Child (Meu Filho com Asperger):

Para os pais:

“Você, pai ou mãe, precisa educar o professor do seu filho.”

Para o professor:

“Ensinar um jovem com Asperger (autismo de alto funcionamento) pode parecer uma tarefa desalentadora, especialmente se você não estiver familiarizado com o transtorno. Mas não precisa ser assim. Se você tem que ensinar um aluno com Asperger, compreender a síndrome é sua melhor preparação.”

 


Sugestão extra de leitura

Dica aos pais: além desse artigo, os textos abaixo podem ser impressos e entregues aos professores, para facilitar e estimular a leitura (com um papel em mãos, a leitura é mais provável de ocorrer, além do que “concretiza” a oferta de informação. Pode ser interessante oferecer ao professor o endereço do blog (sindromedeasperger.blog) para que ele tenha onde pesquisar informação fidedigna, reunida num só lugar.

Características de Crianças com Síndrome de Asperger

 

Lista de dicas de convívio e manejo de crianças com síndrome de Asperger – para a escola, professores, pais e familiares

 

6 comentários sobre “Autismo: por que a escola não entende o que o meu filho tem?

  1. Audrey, novamente seus posts servindo muito para o manejo com meu filho que está tendo dificuladades no ambiente escolar e por conta da falta de informação, acaba sendo prejudicado por conta das “explosões” uma delas recentemente e que resultou em uma suspensão.
    Muito obrigada !! Ótima semana pra vc.

    Curtido por 1 pessoa

    • Infelizmente, o trabalho dos pais no sentido de educar a escola sobre a síndrome é árduo e leva tempo, mas nunca se pode desistir. Os pais são incompreendidos, a escola se torna, muitas vezes, arredia e indisponível para as colocações deles, mas é uma luta que não se pode deixar de travar. Quando a escola for muito fechada para o que os pais têm a dizer, o que é comum na cultura educacional, talvez seja o caso buscar um psicólogo que entenda de autismo, ou que pelo menos esteja disposto a compreender e pesquisar melhor o assunto, e colocá-lo na linha de frente de contato com a escola e professores, pois, muitas vezes, a escola só vai acatar uma orientação ou ponto de vista que vier de um profissional, mesmo quando ironicamente esse profissional souber menos que os pais. Seja sempre bem-vinda ao blog!

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    • Sim, é verdade. Eu chamaria de ‘realismo’ e de ‘correr atrás do prejuízo causado por escolas desinformadas’, pois prepotência é quando alguém se considera superior aos outros e usa de abuso do poder para fazer valer sua autoridade. No caso dos pais que procuram educar a escola, eles estão apenas fazendo um trabalho que a própria escola deveria fazer e que não seria necessário se a escola o fizesse, de modo que o objetivo desses pais não é o de serem superiores ou de imporem autoridade, e sim o de garantir que aquela criança com necessidades especiais não seja oprimida e massacrada pelo sistema. Abraço e seja sempre bem-vinda ao blog!

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