Como identificar a superdotação intelectual?

Como gabaritar um teste de QI: Parte 1 | by Marcel Kroetz | Mensa Brasil |  Medium

Exemplo de questão encontrada em testes de QI de Matrizes Progressivas como o Raven

QI, testes e resultados

Para se ter certeza/obter um laudo que comprove a superdotação, é preciso fazer um teste de QI, que costuma ser aplicado por um psicólogo ou neuropsicólogo. Porém, é preciso informar-se muito bem antes de procurar um profissional para essa finalidade, pois existem vários tipos de testes, alguns mais e outros menos confiáveis, assim como também existem profissionais  mais competentes e bem informados do que outros. Os preços também costumam variar enormemente.

Os testes de inteligência mais utilizados pelos profissionais atualmente são o WISC-V (lançado em 2014) e o WAIS-IV (lançado em 2008). O primeiro (WISC – Wechsler Intelligence Scale for Children) é usado para a faixa etária que vai dos 6 aos 17 anos, e o segundo (WAIS – Wechsler Adult Intelligence Scale) é usado para adultos. Embora estas sejam as ferramentas consideradas como “padrão ouro” na investigação cognitiva, existem aspectos nestes testes que geram críticas. Ambos incluem em sua avaliação e resultados o que chamamos de inteligência cristalizada, que é derivada de aprendizado e influência cultural. Avaliam, por exemplo, compreensão de vocabulário, que obviamente tende a ser maior quanto mais oportunidade de estudo e estimulação cultural a pessoa tiver tido. Por isso, esse tipo de inteligência tende a aumentar com a idade, uma vez que a experiência de vida e oportunidades de aprendizado específico contribuem de forma crescente para a formação do repertório do sujeito.

Assim, o ideal é que fossem utilizados testes neutros nesse sentido, que avaliassem o que chamamos de inteligência fluida. Esse tipo de inteligência se refere ao potencial bruto do cérebro de percepção e resolução de problemas e independe de instrução formal que a pessoa tenha tido. Embora esta seja a inteligência que mais se relaciona com a capacidade real de processamento mental do sujeito, pode diminuir com a idade e falta de estimulação cultural. É nesse tipo de avaliação do potencial bruto de inteligência que se inserem testes como as Matrizes Progressivas de Raven.

O único problema do teste Raven é que, há algum tempo, tem havido restrição do Conselho Federal de Psicologia (CRP) em utilizá-lo como ferramenta oficial de medição de QI, o que impede sua utilização como ferramenta reconhecidamente oficial. Esse impedimento pelo CRP ocorre por diversos motivos que não necessariamente falha no teste em si. Testes considerados oficiais têm um prazo para que sejam revistos e revalidados, e quando um teste não passa por esse tipo de procedimento, pode ter seu uso vetado. Há uma série de razões envolvidas nesse debate, inclusive políticas, mas continua sendo um bom teste, tanto que diversas sociedades de pessoas com alto QI, como a Mensa, ainda utilizam seu formato para avaliar o potencial cognitivo de seus membros.

Existe um fator específico nos moldes atuais dos testes de QI que os torna pouco adaptados para pessoas com perfis neurodiversos, ou seja, indivíduos com autismo ou TDAH podem ter seus resultados decrescidos por fatores inerentes ao quadro, tais como dificuldade em manter a atenção, em expressar-se verbalmente ou em lidar com pressão, já que a maioria dos testes tem um limite de tempo para serem executados. Por isso, testes como o Raven seriam o melhor formato a ser utilizado nesses casos, já que não necessita de habilidade verbal e – ao menos em sua versão original – não tem limite de tempo para execução.

Portanto, uma pessoa neurodiversa que esteja em busca de uma avaliação de quociente de inteligência (um teste de QI), precisará conversar com o profissional sobre quais adaptações e considerações poderão ser adotadas na aplicação do teste. É importante que se busque um profissional que esteja, desse modo, familiarizado com a condição que a pessoa possui e que seja flexível nesse sentido. Neuropsicólogos costumam ser os profissionais com maiores chances de oferecer adaptações e de terem conhecimento de uma maior variedade de testes.

A melhor medida para um teste de QI não é necessariamente o número de QI obtido, e sim a identificação do percentil em que a pessoa se encontra. O percentil é, na verdade, mais confiável que o número em si, que pode variar dependendo do desvio padrão utilizado no teste. Desvio padrão é uma medida estatística, que varia de teste para teste e altera o número de QI obtido. Por exemplo, um teste com desvio padrão 15 que dê um resultado de 130 de QI equivale exatamente ao mesmo resultado que um teste com desvio padrão 24 que dê um resultado de 148 de QI. Assim, se observarmos apenas o resultado do QI, sem saber qual desvio padrão foi utilizado, poderemos ter a falsa impressão de que alguém que tenha obtido um QI de 148 seja mais inteligente que alguém que obteve um QI de 130, quando podem significar exatamente a mesma coisa. Por isso, o percentil é a informação mais confiável: ambos os resultados estariam no percentil 98% (o que significa que apenas 2% da população tem esse QI).

Embora muitos profissionais considerem o percentil 98% como a “nota de corte” para superdotação, tal postura é um tanto rígida, o que não parece de acordo com a natureza oscilante do ser humano. Pensando nesse aspecto, diversos pesquisadores consideram um percentil de 95% – que indica que 5% da população tem esse alcance de QI – como uma boa referência de superdotação intelectual. Para efeito de curiosidade, o percentil 95% equivaleria a um QI entre 126 e 127 (no desvio padrão 15, que é a referência mais usada atualmente).

 

DIFERENÇA RACIAL: A IMPORTÂNCIA DO «QI» | "Raça", Ciência e Filosofia

 

 

 

 

 

 

 

Fonte da Imagem

O QI médio da população mundial é 100. Alguns países têm médias maiores, influenciadas por diversos fatores, tais como genética, nível educacional, alimentação e qualidade de vida. Estudos internacionais feitos com diversos países entre os anos de 1990 e 2010 mostraram que o QI médio na China, por exemplo, é de 108. Nos Estados Unidos, o QI médio fica em torno de 98 e no Brasil a média de QI da população é de 83. (Fonte de dados: WorldData – IQ Compared By Countries)

Como mostra a figura acima, 68% da população costuma ter um QI entre 85 e 115. Apenas 2% da população tem um QI abaixo de 70 ou acima de 130.

A partir do percentil 90% (QI 121, desvio-padrão 15), algumas das questões existenciais e funcionais comuns aos superdotados podem já fazer parte da realidade do indivíduo, pois seu QI já se encontra significativamente acima da média. Embora tecnicamente um QI nesse percentil não configure superdotação, a pessoa certamente compartilhará algumas das características e necessidades especiais dessa população, embora em menor intensidade.

 

Há como medir o QI de crianças antes dos 7 anos?

 

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Fonte da Imagem

Sim. O teste oficial mais utilizado e que apresenta maior validade atualmente para crianças abaixo dos 7 anos é o SON-R 2½-7[a]. Este teste pode ser aplicado em crianças entre 2 anos e meio e 7 anos de idade, conforme consta no próprio nome do teste.

No entanto, esse teste – como a maioria deles – precisa que a criança colabore ao fazer as atividades propostas e responder as perguntas. Uma alternativa para crianças no espectro do autismo que tenham dificuldade em colaborar seria a presença da mãe durante a aplicação do teste, não só para reduzir a ansiedade decorrente de estar a sós na presença de um estranho com muitas demandas, como também para que a mãe trabalhe com a oferta de prêmios imediatos que sejam do interesse da criança e auxiliem na motivação necessária para a execução das tarefas. Por exemplo, a mãe pode dizer à criança que se responder as 5 perguntas que a avaliadora fizer, ganhará a bala que está na mesa. E assim por diante, com paciência, criatividade e prêmios diversos (que devem ir sendo mostrados um a um, conforme novas tarefas se apresentam e nova resistência aconteça). A mãe não pode interferir na resposta da criança, ou seja, não deve fornecer qualquer dica, pois isso invalidaria o resultado. Talvez o teste precise ser dividido em etapas, ou seja, em vários dias, para não cansar ou sobrecarregar a criança, evitando que a mesma “crie bronca” do teste e opte terminantemente por não mais colaborar. Se, mesmo diante do stress da criança, o profissional insistir em fazer o teste todo num dia só, não aceite e procure outro profissional. Porém, procure conversar sobre tudo isso ANTES de iniciar qualquer avaliação, logo no primeiro contato que tiver com o profissional, para evitar esse tipo de situação e certificar-se de que o profissional tenha consciência de como lidar com uma criança com autismo e que esteja ciente das adaptações que serão necessárias.

Tal estratégia de premiação concreta e imediata costuma funcionar bem com crianças no espectro, que têm pensamento concreto e necessitam de fatores motivacionais mais “consistentes”, “palpáveis”, que as convençam a cooperar. Certamente, tal estratégia não deve ser usada a todo momento, mas funciona bem para situações especiais, em que a colaboração da criança é fundamental.

 

Testes de QI online

 

Young woman sitting in lotus pose with laptop on floor at home (With  images) | Business portrait, Seo, Lotus pose

Fonte da Imagem

 

Há uma versão na Internet bastante fiel ao teste Raven original, que é, na verdade, um simulado da MENSA (uma das sociedades de pessoas com alto QI mais conhecidas no mundo ) e que, embora não seja aceito para fins de comprovação diagnóstica, mostra como funciona o teste (é um teste de imagens apenas – um exemplo pode ser visto na abertura desse artigo) e oferece uma ideia muito próxima do provável resultado que seria obtido com a realização do teste oficial. O teste é o Mensa IQ Test (http://test.mensa.no/). Esse teste online oferece resultado instantâneo, tanto em número do QI quanto em percentil, e é totalmente gratuito.

No entanto, atenção a algumas dicas: a versão online acima sugerida estabelece 30 minutos para a execução do teste, sendo essa a sua única falha, pois, como já mencionei, não existe marcação de tempo na versão original do teste Raven, que entende que a pessoa que possui um nível  de inteligência elevado costuma pensar em muito mais aspectos de uma mesma situação, por ser capaz de enxergar muitas facetas mais, de forma que acabe justamente gastando mais tempo absorta na reflexão de um problema do que o contrário, ou seja, quanto mais complexo o padrão de pensamento, mais tempo tende-se a levar para concluí-lo, de modo que rapidez não necessariamente seja sinônimo de inteligência, como muitos testes online de QI – e até mesmo alguns profissionais – apregoam.

Portanto, uma sugestão para contornar essa ‘falha’ na versão online seria fazer o teste duas vezes, já que 1 hora costuma ser um bom tempo de execução. Na primeira vez, uma ideia seria anotar as respostas que for dando às questões num papel e, quando o tempo expirar, inicie o teste novamente, porém, dessa vez, marcando rapidamente as primeiras questões que já foram feitas e estão no papel, para não se perder tempo novamente com elas e se chegar logo às últimas questões, obviamente mais complexas, podendo refletir melhor sobre elas.

É importante que se faça o teste num dia em que não se esteja cansado, com fome, dores ou qualquer tipo de mal-estar, pois tudo isso pode afetar o resultado. No momento da execução do teste, certifique-se de que não haverá interrupções ou distrações.

Esta opção de teste online como estimativa de resultados oficiais é recomendada para pessoas a partir de 14 anos de idade.

 

O teste de QI é o único meio de se identificar a superdotação?

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, um teste de QI não é o único meio de se suspeitar ou supor que exista um quadro de superdotação. Pessoas com um QI alto tendem a apresentar um conjunto específico de características de personalidade, ou seja, o alto QI também é um funcionamento neurodiverso, que promove alterações na personalidade e comportamento do sujeito. Para fins oficiais, ou seja, havendo necessidade de comprovação através de documentação, como quando uma criança precisa de aceleramento de série ou pretende ingressar em programas específicos para pessoas superdotadas, a lista apenas não servirá, e será preciso um teste de QI aplicado por um psicólogo ou neuropsicólogo.

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Fonte da Imagem

Existem listas de traços de personalidade comuns em pessoas superdotadas, que podem oferecer uma boa estimativa do quanto o funcionamento do sujeito é parecido – ou não – com o perfil típico de uma pessoa com alto QI. Portanto, se o indivíduo se identificar com mais de 75% dos traços descritos na lista, existem boas chances da presença de superdotação. Se, contudo, a pessoa se identifica com 60% ou menos da lista, não podemos afirmar “categoricamente” a não-presença de superdotação, afinal, só um teste de QI confirmaria isso, embora, evidentemente, quanto menos traços forem assinalados, menor a probabilidade do indivíduo ser superdotado. Abaixo de 50% de identificação, a presença de superdotação torna-se pouco provável. Do mesmo modo, resultados acima de 75% da lista aumentam exponencialmente a probabilidade da presença de superdotação, tornando-a quase incontestável e, nesse caso, testes oficiais e avaliação profissional completa são altamente recomendados.

Abaixo, segue a tradução de uma dessas listas. O perfil de avaliação foi desenvolvido para crianças e adolescentes, mas funciona perfeitamente ao perfil adulto.

Para crianças muito novas, recomendo a leitura desse outro artigo: Sinais Precoces da Superdotação.

 


Ogilvie (1973) num estudo com 370 educadores ingleses, conseguiu compilar um conjunto de traços de comportamento e personalidade que certamente englobam, senão todos, ao menos boa parte dos traços que caracterizam o tipo superdotado, sendo suas conclusões repetidas por diversos pesquisadores posteriores.

 

Traços Típicos de Crianças e Adolescentes Superdotados

Ogilvie (1973)

 

Tradução e adaptação:

Audrey Bueno

 

Mais de 29 itens (= 75%) marcados

podem sugerir a presença de superdotação.

 

1) Demonstra iniciativa extraordinária: obstinação.

2) Intensa curiosidade, por vezes apenas em uma direção.

3) Sonha acordado quando entediado; pode rabiscar ou desenhar coisas nos livros/papéis durante uma aula ou reunião, geralmente não relacionadas ao assunto que está sendo tratado.
4) Comportamento divergente ou mesmo delinquente: espírito independente.

5) Formas de expressão altamente imaginativas.

6) Exasperação em face às restrições impostas.

7) Desdém por adultos com menor capacidade: temperamento insolente e arrogante.

8) Responsabilidade e confiabilidade acima da média.

9) Capacidade de racionalizar acerca da falta de desempenho ou realizações. (quer dizer ‘encontrar explicações lógicas para as próprias falhas e, algumas vezes, traçar planos para alcançar o que deseja’)

10) Senso de humor altamente desenvolvido.

11) Conversa vivaz e informativa.

12) Capacidade de ser absorvido pelo trabalho durante horas.

13) Habilidade artística, especialmente desenho e música.

14) Excepcional velocidade de pensamento em temas complexos.

15) Excepcional profundidade de pensamento, a qual se manifesta na sua capacidade de (marcar esse item caso ao menos duas das opções abaixo sejam verdadeiras):

a) organizar coisas;
b) fazer uso de muitas palavras diferentes para expressar nuances de significados;
c) efetuar e compreender análises;
d) dar atenção a detalhes relevantes.

16) Não encontra necessidade para trabalhar na abordagem prática ou seguir passo a passo; pula logo para o abstrato ou a conclusão, passo final.

17) Acha necessário ouvir apenas uma pequena parte da explanação; retrair-se-á se compelido a ouvir mais.

18) Seus interesses por vezes podem parecer exageradamente precoces ou não saudáveis.

19) Pode ser difícil e cansativo responder a suas perguntas: faz muitas perguntas do tipo “e se”.

20) Atitude mandona ou altiva – formas de defesa por sentir-se inferior em aspectos que os outros geralmente vão melhor, como jogos esportivos ou trabalhos manuais.

21) Medo do fracasso – detesta se perceber como estando errado ou inadequado; muita dificuldade em reconhecer o próprio erro.

22) Insatisfação com seus próprios esforços e desdém pela aprovação dos outros quanto a trabalhos cujo resultado eles mesmos percebem como sendo ordinário.

23) Perfeccionismo; velocidade mental mais rápida do que as capacidades físicas permitem agir.

24) Impaciência (por vezes difícil de controlar), intolerância, perniciosidade (ser maldoso, nocivo).

25) Inconformismo.

26) Relações tensas com outras crianças, por vezes.

27) Sensibilidade e comportamento altamente engajado.

28) Grande percepção de interjeições verbais cômicas com palavras de duplo sentido.

29) Preferência generalizada por dividir suas ideias com crianças mais velhas.

30) Tendência a dirigir os outros em brincadeiras e grupos de trabalho.

31) Espírito alerta; frequentemente é observador demais (a ponto de deixar pouco à vontade).

32) Boa memória, nem tanto para nomes ou dados factuais (como datas, quem fez o quê, quem disse o quê – a menos que seja um dos seus assuntos de interesse, pois nesse caso pode memorizar grandes quantidades de informação detalhada), e sim mais frequentemente para o modo como as coisas funcionam ou como estão relacionadas entre si, para o conceito envolvido; geralmente esquece-se de assuntos “menores” (como os pormenores práticos do dia a dia: onde pôs a chave, o que comeu no almoço, que a comida estava no fogo, etc.). Costuma não anotar tudo por escrito.

33) Hábil em colecionar (“besteiras” ou lixo às vezes).

34) Pouca ou nenhuma ambição material ou de status.

35) Inclinação, por vezes, a ser egocêntrico ou agressivo; busca atenção.

36) Falta de entusiasmo para atividades ou brincadeiras em grupo.

37) Extremos do sono: pode dormir demais ou muito pouco.

38) Alto desempenho em determinada(s) área(s).

 

 

 

 

4 comentários sobre “Como identificar a superdotação intelectual?

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  3. acabei de fazer um teste (que nem terminei) no site da mensa norueguesa, deu 95. Nao sei bem o que significa esse numero.
    sou contra testes de QI. isso serve basicamente para separar “mediocres” de “superiores”. a ideia de algum tipo de supremacia sempre ronda mediçoes de QI. Fora que essa alta inteligencia nao confere ao portador uma visao de mundo ampla, empatica. Muita gente com QI alto tem uma visao de sociedade tacanha, preconceituosa, se agarra a conceitos de meritocracia.

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    • Olá! Entendo que quer dizer, mas, se me permite, gostaria de propor uma outra perspectiva: se olharmos os testes de QI do ponto de vista científico, veremos que não é a ferramenta o problema, e sim o uso que algumas pessoas fazem dessa ferramenta. Temos aqui uma discussão entre a moralidade do ser humano e as ferramentas que ele cria para lidar com a realidade em que se encontra, o que são dois domínios distintos. Um cientista num laboratório lidando com patógenos pode, por exemplo, criar uma vacina que ajude muita gente, como também pode criar uma arma biológica que extermine milhares de vidas. O teste de QI, ao meu ver, tem a mesma característica: em essência, trata-se apenas de uma ferramenta que tenta encontrar um meio concreto de observar um processo abstrato (a inteligência humana). A supremacia que você menciona existe, mas não é culpa da ferramenta (ou seja, do teste), assim como a arma biológica não é culpa da tecnologia disponível. O alto QI não tem a ver com a tendência moral da pessoa, embora estudos mostrem que tem potencial de contribuir positivamente – e não negativamente – nesse sentido, uma vez que ajude a pessoa a ampliar a capacidade de percepção de mundo e, quanto maior a percepção, maior a capacidade de se colocar no lugar do outro. Alguns usam essa capacidade (empatia) para o bem, outros para o mal. Uns ajudam porque entendem o sofrimento do outro, outros usam esse entendimento para manipular.

      Porém, a inteligência é apenas uma parte do que rege o comportamento humano. Esta precisa ser combinada com certos traços de personalidade, de formação do caráter, de história de vida e de carga genética que traga um certo padrão de saúde mental para que tenhamos o pacote das ações das pessoas. Se a inteligência for combinada com traços de personalidade negativos, podemos ter pessoas muito hábeis numa área, mas incapazes de se livrar de ideias egocêntricas (como é o caso da meritocracia, do preconceito ou da exploração de outro ser humano). Se for combinada com traços gerais positivos, teremos um Mahatma Gandhi. Infelizmente, você tem razão quando diz que algumas pessoas usam mal as ferramentas científicas que criamos, mas nem todos fazem isso e a ferramenta não tem culpa do seu mau uso. O objetivo da ferramenta que é o teste de QI pode ser muito positivo, como, por exemplo, estudar o desenvolvimento da inteligência na nossa espécie, identificar o QI médio de uma população e direcionar melhores recursos educacionais e de alimentação e saúde para aumentar a qualidade de vida de um povo, mensurar e direcionar avanços em terapias neuropsicológicas de pessoas com quadros de Alzheimer ou demência, identificar déficits de inteligência na infância e propor estímulos adequados para ampliar o potencial da pessoa, medir alterações na capacidade de raciocínio quando algum novo medicamento está em fase de teste, ou, ainda, criar programas específicos para que crianças com alto QI tenham o suporte que precisam (elas têm questões emocionais sérias que vêm junto num pacote de alto QI, como quadros de depressão ou ansiedade acentuados, ou tendência suicida, ou seja, para além da mera questão da Inteligência em si, o alto QI traz também um funcionamento neurológico alterado, que bagunça muito a vida de crianças que não recebam um apoio adequado para o seu perfil) e, por fim, a identificação do alto QI pode, ainda, aumentar nossas chances de estimular aqueles dentre nós que têm mais potencial cognitivo para poder criar novas tecnologias e melhorias para a sociedade. O celular e o computador, por exemplo, foram feitos por pessoas com alto QI, algumas das quais tiveram apoio específico na infância para chegarem onde chegaram, assim como a bomba atômica também foi produto do alto QI. Programas específicos para crianças com alto QI visam criar consciência humana e responsabilidade social, não só para que tenham o apoio emocional e psicológico que precisam, mas também para que usem o seu dom para o bem dos demais, e para isso, precisamos da ferramenta do teste de inteligência.

      Obrigada pelo comentário. Um abraço fraterno.

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