Como identificar a superdotação intelectual?

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QI, testes e resultados

Para se ter certeza/obter um laudo que comprove a superdotação, é preciso fazer um teste de QI, que costuma ser aplicado por um psicólogo ou neuropsicólogo (este último, preferencialmente, pois são poucos os psicólogos que aplicam testes de QI). Porém, é preciso informar-se muito bem antes de procurar um profissional para essa finalidade, pois existem vários tipos de testes, alguns mais e outros menos confiáveis, assim como também existem profissionais  mais competentes e bem informados do que outros. Os preços também costumam variar enormemente.

Se a pessoa que é submetida a testes de QI tiver autismo/síndrome de Asperger, testes que envolvam limite de tempo costumam gerar um resultado abaixo do real potencial do sujeito, pois boa parte dos testes de QI atuais não são adaptados para o perfil autista, uma vez que pessoas no espectro não lidam bem com pressão, de modo de marcações de tempo podem comprometer significativamente o desempenho.

Para minimizar a chance de se procurar um profissional que insista em aplicar testes que não são adequados para o perfil autista, sugiro a preferência por um teste em especial que, além de altamente fidedigno, não possui marcação de tempo para ser executado, que é o Raven Matrizes Progressivas. Esse teste não oferece o resultado em números, e sim em percentual (percentil), o que, na verdade, é mais confiável que o número em si, que pode variar dependendo do desvio padrão utilizado no teste. Por exemplo, um teste com desvio padrão 15 que dê um resultado de 130 de QI equivale exatamente ao mesmo resultado que um teste com desvio padrão 24 que dê um resultado de 148 de QI. Ambos os resultados estão no mesmo percentil: 98% (o que significa que apenas 2% da população tem esse QI).  Embora muitos profissionais considerem 98% como a “nota de corte” para superdotação, tal postura é um tanto rígida, o que não parece de acordo com a natureza oscilante do ser humano. Pensando nesse aspecto, diversos pesquisadores consideram um percentil de 95% – que indica que apenas 5% da população tem esse alcance de QI – como uma boa referência de superdotação intelectual. Para efeito de curiosidade, o percentil 95% equivaleria a um QI entre 126 e 127 (no desvio padrão 15, que é a referência mais usada atualmente).

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A partir do percentil 90% (QI 121, desvio-padrão 15), algumas das questões existenciais e funcionais comuns aos superdotados podem já fazer parte da realidade do indivíduo, pois seu QI já se encontra significativamente acima da média. Embora tecnicamente um QI nesse percentil não configure superdotação, a pessoa certamente compartilhará algumas das características e necessidades especiais dessa população, embora em menor intensidade.

O único problema do teste Raven é que há algum tempo tem havido restrição do Conselho Federal de Psicologia em utilizá-lo como ferramenta oficial de medição de QI, de modo que os psicólogos acabem impedidos de utilizá-lo. Há uma série de razões envolvidas nesse debate, inclusive políticas, mas é um bom teste. Uma opção, nesse caso, seria verificar com o profissional o teste que ele costuma utilizar e fazer uma pesquisa para se certificar da validade do teste antes de fazê-lo (e pagar por ele).

 

Há como medir o QI de crianças antes dos 7 anos?

 

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Sim. O teste oficial mais utilizado e que apresenta maior validade atualmente para crianças abaixo dos 7 anos é o SON-R 2½-7[a]. Este teste pode ser aplicado em crianças entre 2 anos e meio e 7 anos de idade, conforme consta no próprio nome do teste.

O profissional geralmente mais capacitado para a aplicação desse teste é o neuropsicólogo.

No entanto, esse teste – como a maioria deles – precisa que a criança colabore ao fazer as atividades propostas e responder as perguntas. Uma alternativa para crianças no espectro do autismo que tenham dificuldade em colaborar seria a presença da mãe durante a aplicação do teste, não só para reduzir a ansiedade decorrente de estar a sós na presença de um estranho com muitas demandas, como também para que a mãe trabalhe com a oferta de prêmios imediatos que sejam do interesse da criança e auxiliem na motivação necessária para a execução das tarefas. Por exemplo, a mãe pode dizer à criança que se responder as 5 perguntas que a avaliadora fizer, ganhará a bala que está na mesa. E assim por diante, com paciência, criatividade e prêmios diversos (que devem ir sendo mostrados uma um). A mãe não pode interferir na resposta da criança, ou seja, não deve forçar a criança ou ajudá-la dando dicas, pois isso invalidaria o resultado. Talvez o teste precise ser dividido em etapas, ou seja, em vários dias, para não cansar ou sobrecarregar a criança, evitando que a mesma “pegue bronca” do teste e opte terminantemente por não mais colaborar. Se, mesmo diante do stress da criança, o profissional insistir em fazer o teste todo num dia só, não aceite e procure outro profissional. Porém, procure conversar sobre tudo isso ANTES de iniciar qualquer avaliação, logo no primeiro contato que tiver com o profissional, para evitar esse tipo de situação e certificar-se de que o profissional tenha consciência de como lidar com uma criança com autismo.

Tal estratégia de premiação concreta e imediata costuma funcionar bem com crianças no espectro, que têm pensamento concreto e necessitam de fatores motivacionais mais “consistentes”, “palpáveis”, que as convençam a cooperar. Certamente, tal estratégia não deve ser usada a todo momento, mas funciona bem para situações especiais, em que a colaboração da criança é fundamental.

 

Testes de QI online

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Há uma versão na Internet bastante fiel ao teste Raven original, que é, na verdade, um simulado da MENSA (sociedade de pessoas com alto QI muito conceituada no mundo ) e que, embora não seja aceito para fins de comprovação diagnóstica, mostra como funciona o teste (é um teste de imagens apenas) e oferece uma ideia muito próxima do provável resultado que seria obtido com a realização do teste oficial. O teste é o Mensa IQ Test (http://test.mensa.no/). Esse teste online oferece resultado instantâneo, tanto em número do QI quanto em percentil, e é totalmente gratuito.

No entanto, atenção a algumas dicas: a versão online acima sugerida estabelece 30 minutos para a execução do teste, sendo essa a sua única falha, pois, como já mencionei, não existe marcação de tempo na versão original do teste, que entende que a pessoa que possui um nível  de inteligência elevado costume a pensar em muito mais aspectos de uma mesma situação, por ser capaz de enxergar muitas facetas mais, de forma que acabe justamente passando mais tempo absorta na reflexão de um problema do que o contrário, ou seja, quanto mais complexo o padrão de pensamento, mais tempo tende-se a levar para concluí-lo, de modo que rapidez não necessariamente seja sinônimo de inteligência, como muitos testes online de QI – e até mesmo alguns profissionais – apregoam.

Portanto, uma sugestão para contornar essa ‘falha’ na versão online seria fazer o teste duas vezes, já que 1 hora costuma ser um bom tempo de execução. Na primeira vez, uma ideia seria anotar as respostas que for dando às questões num papel e, quando o tempo expirar, inicie o teste novamente, porém, dessa vez, marcando rapidamente as primeiras questões que já foram feitas e estão no papel, para não se perder tempo novamente com elas e se chegar logo às últimas questões, obviamente mais complexas, podendo refletir melhor sobre elas.

É importante que se faça o teste num dia em que não se esteja cansado, com fome, dores ou qualquer tipo de mal-estar, pois tudo isso pode afetar o resultado. No momento da execução do teste, certifique-se de que não haverá interrupções ou distrações.

Esta opção de teste online como estimativa de resultados oficiais é recomendada para pessoas a partir de 14 anos de idade.

 

O teste de QI é o único meio de se identificar a superdotação?

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, um teste de QI não é o único meio de se suspeitar ou supor que exista um quadro de superdotação. Pessoas com um QI alto tendem a apresentar um conjunto específico de características de personalidade, ou seja, o alto QI também é um funcionamento neurodiverso, que promove alterações na personalidade e comportamento do sujeito, assim como vemos na síndrome de Asperger, por exemplo.

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Existem listas de traços de personalidade comuns em pessoas superdotadas, que podem oferecer uma boa estimativa do quanto o funcionamento do sujeito é parecido – ou não – com o perfil típico de uma pessoa com alto QI. Portanto, se o indivíduo se identificar com mais de 75% dos traços descritos na lista, existem boas chances da presença de superdotação. Se, contudo, a pessoa se identifica com 60% ou menos da lista, não podemos afirmar “categoricamente” a não-presença de superdotação, afinal, só um teste de QI confirmaria isso, embora, evidentemente, quanto menos traços forem assinalados, menor a probabilidade do indivíduo ser superdotado, e abaixo de 50% de identificação, a presença de superdotação torna-se pouco provável. Do mesmo modo, resultados acima de 75% da lista aumentam exponencialmente a probabilidade da presença de superdotação, tornando-a quase incontestável, e, nesse caso, testes oficiais e avaliação profissional completa são altamente recomendados.

Abaixo, segue a tradução de uma dessas listas. O perfil de avaliação foi desenvolvido para crianças e adolescentes, mas funciona perfeitamente ao perfil adulto.

Para crianças muito novas, recomendo a leitura desse outro artigo: Sinais Precoces da Superdotação.

 


Ogilvie (1973) num estudo com 370 educadores ingleses, conseguiu compilar um conjunto de traços de comportamento e personalidade que certamente englobam, senão todos, ao menos boa parte dos traços que caracterizam o tipo superdotado, sendo suas conclusões repetidas por diversos pesquisadores posteriores.

 

Traços Típicos de Crianças e Adolescentes Superdotados

Ogilvie (1973)

 

Tradução e adaptação:

Audrey Bueno

 

Mais de 29 itens (= 75%) marcados

podem sugerir a presença de superdotação.

 

1) Demonstra iniciativa extraordinária: obstinação.

2) Intensa curiosidade, por vezes apenas em uma direção.

3) Sonha acordado quando entediado; pode rabiscar ou desenhar coisas nos livros/papéis durante uma aula ou reunião, geralmente não relacionadas ao assunto que está sendo tratado.
4) Comportamento divergente ou mesmo delinquente: espírito independente.

5) Formas de expressão altamente imaginativas.

6) Exasperação em face às restrições impostas.

7) Desdém por adultos com menor capacidade: temperamento insolente e arrogante.

8) Responsabilidade e confiabilidade acima da média.

9) Capacidade de racionalizar acerca da falta de desempenho ou realizações. (quer dizer ‘encontrar explicações lógicas para as próprias falhas e, algumas vezes, traçar planos para alcançar o que deseja’)

10) Senso de humor altamente desenvolvido.

11) Conversa vivaz e informativa.

12) Capacidade de ser absorvido pelo trabalho durante horas.

13) Habilidade artística, especialmente desenho e música.

14) Excepcional velocidade de pensamento em temas complexos.

15) Excepcional profundidade de pensamento, a qual se manifesta na sua capacidade de (marcar esse item caso ao menos duas das opções abaixo sejam verdadeiras):

a) organizar coisas;
b) fazer uso de muitas palavras diferentes para expressar nuances de significados;
c) efetuar e compreender análises;
d) dar atenção a detalhes relevantes.

16) Não encontra necessidade para trabalhar na abordagem prática ou seguir passo a passo; pula logo para o abstrato ou a conclusão, passo final.

17) Acha necessário ouvir apenas uma pequena parte da explanação; retrair-se-á se compelido a ouvir mais.

18) Seus interesses por vezes podem parecer exageradamente precoces ou não saudáveis.

19) Pode ser difícil e cansativo responder a suas perguntas: faz muitas perguntas do tipo “e se”.

20) Atitude mandona ou altiva – formas de defesa por sentir-se inferior em aspectos que os outros geralmente vão melhor, como jogos esportivos ou trabalhos manuais.

21) Medo do fracasso – detesta se perceber como estando errado ou inadequado; muita dificuldade em reconhecer o próprio erro.

22) Insatisfação com seus próprios esforços e desdém pela aprovação dos outros quanto a trabalhos cujo resultado eles mesmos percebem como sendo ordinário.

23) Perfeccionismo; velocidade mental mais rápida do que as capacidades físicas permitem agir.

24) Impaciência (por vezes difícil de controlar), intolerância, perniciosidade (ser maldoso, nocivo).

25) Inconformismo.

26) Relações tensas com outras crianças, por vezes.

27) Sensibilidade e comportamento altamente engajado.

28) Grande percepção de interjeições verbais cômicas com palavras de duplo sentido.

29) Preferência generalizada por dividir suas ideias com crianças mais velhas.

30) Tendência a dirigir os outros em brincadeiras e grupos de trabalho.

31) Espírito alerta; frequentemente é observador demais (a ponto de deixar pouco à vontade).

32) Boa memória, nem tanto para nomes ou dados factuais (como datas, quem fez o quê, quem disse o quê – a menos que seja um dos seus assuntos de interesse, pois nesse caso pode memorizar grandes quantidades de informação detalhada), e sim mais frequentemente para o modo como as coisas funcionam ou como estão relacionadas entre si, para o conceito envolvido; geralmente esquece-se de assuntos “menores” (como os pormenores práticos do dia a dia: onde pôs a chave, o que comeu no almoço, que a comida estava no fogo, etc.). Costuma não anotar tudo por escrito.

33) Hábil em colecionar (“besteiras” ou lixo às vezes).

34) Pouca ou nenhuma ambição material ou de status.

35) Inclinação, por vezes, a ser egocêntrico ou agressivo; busca atenção.

36) Falta de entusiasmo para atividades ou brincadeiras em grupo.

37) Extremos do sono: pode dormir demais ou muito pouco.

38) Alto desempenho em determinada(s) área(s).

 

 

 

 

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2 comentários sobre “Como identificar a superdotação intelectual?

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