Medicação no Autismo e Síndrome de Asperger

 

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Muitos dos comportamentos que, a princípio, parecem malcriação, agressividade, capricho, oposição e desvios de personalidade intencionais da criança ou adulto com autismos diversos, dentre eles a Síndrome de Asperger, são, na verdade, resultantes de metabolismos químicos inadequados no cérebro.

É inacreditável como somos – todos nós, com ou sem uma síndrome – altamente influenciados pela forma com que nosso cérebro produz e regula neurotransmissores diversos, bem como pelo modo com que nosso lobo frontal e outras áreas do cérebro funcionam. Pessoas que sofreram acidentes e lesaram parte do lobo frontal, passaram a apresentar comportamentos agressivos e antissociais opostos à forma com que eram antes do acidente, o que mostra como nossa personalidade não depende unicamente da nossa própria vontade, e sim de variadas nuances de anatomia e funcionamento cerebral.

Os hormônios também exercem papel central na forma como nos relacionamos socialmente. Um estudo feito com ratos analisou a ocitocina, hormônio responsável pelo interesse em nos relacionarmos socialmente e que costuma ter produção deficiente em pessoas com autismo. Os ratos foram divididos em 2 grupos: um com aplicação de ocitocina, e outro com remoção desse hormônio. O que se observou no comportamento desses dois grupos de animais foi que aquele que havia recebido ocitocina apresentava interesse acentuado em proximidade física, ficando os ratos aglomerados uns por cima dos outros, enquanto no segundo grupo, cuja ocitocina havia sido removida, os ratos evitavam encostar uns nos outros.

Ou seja, nossa dinâmica de personalidade e comportamento social está, na verdade, muito mais relacionada a fatores bioquímicos do que geralmente imaginamos.

Por isso, é comum que pessoas no espectro autista que apresentem determinados problemas comportamentais podem beneficiar-se substancialmente de medicação para corrigir os déficits neuroquímicos e melhorar o funcionamento de determinadas áreas disfuncionais do cérebro.

Aquela criança que é julgada como mal-educada, agressiva ou com supostos traumas emocionais pelo receio ao toque das pessoas pode, na verdade, apenas estar apresentando comportamentos relacionados a esses déficits bioquímicos e anatômico-funcionais, de modo que a medicação possa ser uma importante aliada no alívio e melhora dos sintomas.

No entanto, não podemos nos esquecer que o funcionamento humano é determinado por um conjunto de fatores complexos, de modo que o estado psicológico, força de vontade e apoio emocional também sejam capazes de influenciar significativamente nossa forma de existir no mundo. Assim, aliar medicação e apoio psicológico, emocional e espiritual pode ser a chave para um alcance muito mais amplo de resultados na melhora da sintomatologia negativa do autismo.

É importante observar com atenção a palavra “aliar” no parágrafo anterior. É muito o relato de pessoas com autismo que fizeram longo tempo de terapia psicológica, terapia ocupacional ou terapia de integração sensorial e não perceberam muito resultado, resultado esse que só foi realmente obtido com o início da terapia medicamentosa, conduzida por um psiquiatra. Assim, a medicação é a principal responsável pela alteração comportamental necessária em relação à agressividade, rigidez mental, ansiedade, tiques e depressão comumente encontradas no espectro do autismo, mas pode ter seus efeitos complementados e expandidos com outros tipos de terapia.


O texto a seguir é a tradução de um trecho interessante do livro: THE AUTISM DISCUSSION PAGE: ON ANXIETY, BEHAVIOR, SCHOOL AND PARENTING STRATEGIES  (PÁGINA DE DISCUSSÃO DO AUTISMO: SOBRE ANSIEDADE, COMPORTAMENTO, ESCOLA E ESTRATÉGIAS PARA OS PAIS), de Bill Nason, sobre o assunto.

“Não existe medicação que trate os déficits centrais do autismo. Contudo, medicações são frequentemente usadas para tratar desordens que co-ocorrem com o transtorno, tais como ansiedade, depressão, transtorno de déficit de atenção, transtornos do humor, agitação ou irritabilidade.

Ansiedade e depressão são os sintomas psiquiátricos mais comuns do autismo, especialmente na Síndrome de Asperger.

Para algumas crianças, a ansiedade é tão debilitante, que se torna necessário o uso de medicamento para ajudar a regular o sistema nervoso.

A medicação mais comumente usada em crianças no espectro autista é do tipo SSRI (Zoloft, Luvox, Anafranil, etc.).

Muitas crianças no espectro têm TDA/TDAH e muitas precisarão de estimulantes típicos (Ritalina, Aderall, etc.) para melhorar a concentração, o controle dos impulsos e reduzir a hiperatividade. Contudo, é preciso muito cuidado na utilização de estimulantes, pois é comum que crianças reajam negativamente a eles.

A decisão de usar medicação é difícil. Porém, se o sistema nervoso da criança está desorganizado o suficiente causando dificuldade para que a criança aprenda, se concentre e se torne emocionalmente estável, então a medicação pode ser fundamental.

A medicação deve ser vista como uma estratégia temporária para acalmar e organizar o sistema nervoso o suficiente para que a criança seja capaz de aprender estratégias mais eficazes de enfrentamento de problemas. À medida em que este aprendizado vai ocorrendo e os problemas se estabilizem, será possível iniciar gradualmente a redução ou até mesmo descontinuação do medicamento. Embora algumas pessoas precisem do medicamento a vida toda, muitas não precisarão.

Muitas crianças só respondem favoravelmente a doses menores. Além disso, quanto mais nova a criança, mais vulnerável é o seu sistema nervoso aos efeitos negativos da medicação. É importante encontrar um psiquiatra ou neurologista que seja especializado em tratar crianças do espectro autista.

O ideal é usar apenas uma medicação de cada vez, aumentando gradualmente a dose até que a eficácia almejada seja alcançada. Tentar evitar o uso de múltiplas medicações ou procurar não as iniciar todas de uma só vez são cuidados importantes, pois seria difícil monitorar os efeitos das medicações adequadamente e saber o que estaria ou não funcionando.

A medicação pode ser essencial para ampliar a receptividade dessas crianças ao aprendizado. Muitas vezes, o comportamento da criança é o resultado direto de desequilíbrios no sistema nervoso.

O maior problema no uso de medicação não é a medicação em si, e sim o seu uso indevido, que acabe por sedar a criança, seja malconduzido por profissionais inexperientes, ou, ainda, o uso de múltiplas medicações, adicionadas umas sobre as outras, até que ninguém mais saiba se quaisquer dessas medicações estão tendo algum efeito positivo de fato. Porém, se houver o cuidado em se administrar apenas uma medicação de cada vez, monitorando adequadamente seus efeitos positivos e negativos, e descontinuando a mesma se um efeito realmente satisfatório não for obtido, então a medicação pode ser usada com segurança.

Se a medicação for realmente terapêutica, mudanças significativas no humor, comportamento e atenção serão percebidas. Se apenas mudanças muito pequenas forem observadas, talvez não valha a pena inserir elementos químicos no organismo na criança. Se a medicação estiver realmente tratando um desequilíbrio químico do organismo, mudanças evidentes serão notadas”. (Bill Nason, p. 147, 2014)

Tradução: Audrey Bueno

Sobre o autor do livro: Bill Nason, psicólogo especializado em autismo, tem 35 anos de experiência trabalhando com indivíduos com distúrbios do espectro autista; há onze anos desenvolve programas para crianças e jovens adultos com autismo ou síndrome de Asperger na Universidade Oakland, em Michigan, Estados Unidos. É o mediador de uma página de discussão sobre o assunto no Facebook, com mais de 75.000 pessoas, e autor de dois livros sobre estratégias de tratamento para pessoas com autismo.

Um comentário sobre “Medicação no Autismo e Síndrome de Asperger

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